O Conto da Aia, romance de Margareth Atwood

Margaret Atwood é uma das escritoras mais influentes da literatura contemporânea. Nascida em 1939, em Ottawa, no Canadá, construiu uma obra marcada pela reflexão sobre poder, gênero, linguagem, memória, ecologia e autoritarismo. Romancista, poeta, ensaísta e crítica literária, Atwood desenvolveu uma produção intelectual que frequentemente problematiza as relações entre indivíduos e estruturas de dominação. Sua escrita é caracterizada pela capacidade de combinar elementos da ficção especulativa com questões concretas da realidade histórica e social. Entre suas obras mais conhecidas destaca-se O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), publicado originalmente em 1985.

Este romance consolidou seu reconhecimento internacional ao apresentar uma narrativa distópica que articula crítica política, reflexão feminista e análise das formas de controle social. Conforme observam Portela e Santos (2020, p. 391), a obra retrata uma sociedade organizada sob uma “teonomia totalitária cristã”, na qual os direitos civis das mulheres são eliminados e sua existência passa a ser determinada exclusivamente pelas funções sociais que lhes são atribuídas.

Publicado em um contexto marcado pela ascensão de movimentos conservadores nos Estados Unidos e pelo fortalecimento de discursos religiosos na política, O Conto da Aia apresenta uma narrativa ambientada em um futuro próximo. Após uma série de crises ambientais, guerras e quedas drásticas nas taxas de fertilidade, os Estados Unidos deixam de existir como democracia e são substituídos pela República de Gilead. Trata-se de um regime teocrático, militarizado e profundamente patriarcal, que reorganiza toda a sociedade a partir de uma interpretação fundamentalista da Bíblia. Nesse novo contexto, as mulheres perdem direitos básicos, como trabalhar, possuir patrimônio, votar, estudar ou ler. Seus corpos passam a ser regulados pelo Estado, que define rigidamente as funções que cada uma deve desempenhar. A protagonista da narrativa é Offred, uma mulher fértil transformada em Aia e obrigada a servir sexualmente um comandante para gerar filhos destinados à elite governante.

A narrativa é construída em primeira pessoa, permitindo que o leitor acompanhe os pensamentos, as memórias e os sentimentos de Offred. Antes da instauração de Gilead, ela possuía uma vida comum: era casada, tinha uma filha, trabalhava e vivia em uma sociedade democrática. A ruptura entre esse passado e o presente opressivo constitui um dos eixos centrais do romance. A protagonista recorda constantemente sua vida anterior, produzindo um contraste entre liberdade e repressão. Essa estratégia narrativa, dizem Portela e Santos (2020), torna a obra particularmente eficaz, pois evidencia que a perda dos direitos não ocorreu de forma instantânea, mas gradualmente. A leitura sugere que processos autoritários frequentemente se consolidam por meio de pequenas restrições que, pouco a pouco, tornam-se normalizadas pela população.

A República de Gilead organiza as mulheres em categorias rigidamente definidas. As Esposas ocupam a posição social mais elevada entre as mulheres e são casadas com os comandantes do regime. As Martas realizam os trabalhos domésticos e de manutenção das residências. Já as Aias constituem a categoria central da narrativa. Como ressaltam Portela e Santos (2020, p. 392), “as mulheres são divididas em três funções: Esposas, Aias e Martas. Todas as mulheres têm função, e a das aias é, exclusivamente, procriar”. Essa divisão revela uma das principais críticas desenvolvidas por Atwood: a redução da identidade feminina a papéis sociais definidos exclusivamente pelos interesses masculinos e pelo Estado.

Nesse contexto, a fertilidade transforma-se em recurso político. As Aias não são vistas como indivíduos, mas como instrumentos reprodutivos. Seus próprios nomes desaparecem. Offred, por exemplo, significa literalmente “de Fred”, indicando sua condição de propriedade vinculada ao comandante Fred. Essa perda da identidade individual constitui um dos aspectos mais perturbadores do romance. O apagamento dos nomes simboliza o apagamento da subjetividade. Ao retirar das mulheres a possibilidade de nomearem a si mesmas, Gilead elimina também parte significativa de sua autonomia.

Um dos elementos mais relevantes da obra é a relação entre linguagem e poder. Em Gilead, as mulheres são proibidas de ler e escrever. O acesso à linguagem é controlado pelo Estado porque representa uma ameaça à estabilidade do regime. Em determinado momento, Offred afirma: “Conto, em vez de escrever, porque não tenho nada com que escrever e, de todo modo, escrever é proibido” (Atwood, 2017, p. 52). A passagem revela que narrar torna-se um ato de resistência. Mesmo privada da escrita, a protagonista preserva sua capacidade de construir memórias e organizar experiências por meio da narrativa. A linguagem assume, portanto, um papel político fundamental.

Essa relação entre conhecimento e dominação aparece também em outra passagem importante do romance: “A Bíblia é mantida trancada (…) Podemos ouvi-la lida em voz alta, por ele, mas não podemos ler” (Atwood, 2017, p. 107).  O trecho demonstra que a questão central não é apenas impedir a leitura, mas monopolizar a interpretação. Os textos sagrados não pertencem à comunidade; pertencem aos homens que exercem o poder. A religião é convertida em instrumento de legitimação política, e não em espaço de reflexão espiritual. Atwood evidencia, assim, como determinadas leituras religiosas podem ser utilizadas para justificar estruturas de desigualdade e violência.

Outro aspecto central do romance é a crítica à naturalização da violência contra as mulheres. Em diversos momentos, as personagens são levadas a acreditar que são responsáveis pelas agressões que sofrem. Um exemplo emblemático ocorre quando Janine repete: “Foi minha culpa (…). Eu os incitei, os seduzi. Mereci o sofrimento” (Atwood, 2017, p. 89).  A passagem evidencia um processo de internalização da opressão. A vítima incorpora o discurso dominante e passa a interpretar a violência sofrida como consequência de suas próprias ações. Trata-se de um mecanismo recorrente em sociedades patriarcais, no qual a responsabilidade dos agressores é deslocada para as próprias vítimas.

Urnau e Tybusch (2019, p. 02) observam que a sociedade retratada em O Conto da Aia é marcada por “uma série de violências contra as mulheres e uma dominação patriarcal, com marcas religiosas”. As autoras argumentam que essa configuração não deve ser vista apenas como uma fantasia literária, mas como uma advertência acerca da fragilidade dos direitos conquistados historicamente pelas mulheres. A aproximação entre ficção e realidade torna-se ainda mais evidente quando elas destacam que muitos direitos femininos são recentes e continuam sujeitos a ameaças e tentativas de retrocesso.

Nesse sentido, um dos maiores méritos do romance, creio, é demonstrar que o autoritarismo não surge apenas por meio da força militar. Ele depende também de mecanismos culturais, simbólicos e discursivos. Gilead não controla apenas os corpos; controla a linguagem, a memória, a sexualidade, a educação e a circulação de informações. O regime produz uma nova realidade social na qual a opressão passa a ser percebida como algo natural e inevitável. O romance evidencia, portanto, que a manutenção de regimes autoritários exige a transformação das formas de pensar, sentir e interpretar o mundo.

Pode-se afirmar, por fim, que O Conto da Aia é uma das obras mais importantes da literatura contemporânea sobre autoritarismo e gênero. Mais do que uma narrativa distópica, trata-se de uma reflexão sobre os mecanismos pelos quais sociedades podem restringir direitos, controlar corpos e silenciar indivíduos. A trajetória de Offred permite compreender que a liberdade não é uma condição permanente, mas uma conquista que exige vigilância constante.

Ao relacionar ficção e realidade histórica, Margaret Atwood produz uma obra que ultrapassa os limites do entretenimento e se afirma como instrumento de reflexão crítica sobre democracia, cidadania e direitos humanos. Sua principal contribuição talvez seja lembrar ao leitor que nenhum direito está definitivamente garantido e que a preservação da liberdade depende da capacidade coletiva de reconhecer e enfrentar as múltiplas formas de opressão que continuam presentes no mundo contemporâneo.

REFERÊNCIAS

ATWOOD, M. O conto da aia. Trad. Ana Deiró. Rio de Janeiro: Rocco, 2017.

PORTELA, A. B.; SANTOS, M. O Conto da Aia e reflexões sobre uma distopia contemporânea. Revista Intercâmbio dos Congressos Internacionais de Humanidades, Brasília, ano 2020, p. 391-401, 2020.

URNAU, J. I.; TYBUSCH, F. B. A. A distopia de O Conto da Aia na realidade brasileira: manutenção de direitos frente a crises e retrocessos. 5º Congresso Internacional de Direito e Contemporaneidade. Santa Maria: Universidade Federal de Santa Maria, 2019. p. 1-19.

Sobre o autora:

Marta Kécia

Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL) da Universidade Regional do Cariri (URCA), na linha de pesquisa: Língua, Discurso e Identidades com ênfase no discurso de violência contra mulher. Especialista em Gestão Escolar e Coordenação Pedagógica, Metodologia do Ensino Superior e Literatura Brasileira com Graduação em Letras pela Universidade Federal de Campina Grande(UFCG).

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