O velório

Faleceu o Doutor Epaminondas Correia Castro. Não era jovem, mas seguramente, muito novo para morrer. Sua importância no cenário socioeconômico do município e adjacências era notória. Fora um bem conceituado médico, e exercera a profissão numa época e local que o faziam se destacar nos mais variados aspectos sociais. Não se pode dizer que fora um homem mau, mas sinceramente falando, não há que se afirmar que fora um anjo de candura.

É certo que atendia prontamente pobres e ricos, numa época em que não havia hospitais na cidade, realidade que só se manifestou anos depois de sua chegada no município. Quando a ele aportou, trouxe consigo a recém-formada família e decidiu instalar na cidadela um consultório médico. Deve ser dito que o simples fato de destinar serviços aos pobres, não pode ser interpretado como irrefutável manifestação de filantropia. Ao invés disso, foi um meio de exercer a dominação sobre aqueles que se acham presos pelo sentimento da eterna gratidão. Aliás, a gratidão para quem não sabe dosá-la, funciona, não raro, como um meio de subserviência.

O Doutor Epaminondas pertencia a uma família abastada da região. Condição imprescindível a expressiva maioria dos esculápios, uma vez que os custos com a manutenção do curso superior em uma das capitais do país, exigia gastos vultosos, mesmo que que a universidade fosse pública.

O Doutor Epaminondas levava uma vida nada espartana, e via de consequência, pouco saudável. Com certa regularidade acompanhava os amigos em farras homéricas, nas quais não faltavam cigarros, mulheres e música, muita música. O Doutor era um boêmio. Tocava violão e  cantava. Apesar dessas particularidades, afirma toda a cidade, que era muito apaixonado pela bela esposa e que, depois de sua própria autoridade, só a ela temia, de maneira que o prazer das noitadas, era no dia seguinte compensado pelo esforço em tramar eficientes estratégias tendentes a justificar, na maioria das vezes sem sucesso, as escapulidas que manchavam seu santo matrimônio.

Como é próprio do interior, as desavenças do casal Epaminondas e Noeme, que de discretas não tinham nada, constituíam prato cheio para saborear a fome dos fofoqueiros de plantão. As querelas dos cônjuges, sempre tão intensas como a paixão que os consumia, revelavam requintes de sadomasoquismo e,  funcionavam como notícias afrodisíacas para alguns homens e mulheres.

Diga-se de passagem, que o estado belicoso do casal era sempre muito  criativo e passional. Conta-se que certa vez a Senhora Castro, em manifesta vindita, determinou ao porteiro que deixasse abertos os portões de sua casa e desnudou-se na sacada da residência,  conclamando na ocasião, a todos os homens e mulheres transeuntes para se deliciarem apreciando seu esbelto corpo. O recalcitrante boêmio quase foi levado a loucura. Tomado por ciúmes e vergonha,  à força, interrompeu o espetáculo de sua consorte, frustrando a expectativa da plateia que se já aglomerava com ávidos olhares.

Comenta-se, que de outra vez, a madame surpreendeu o marido em um dos seus dissolutos programas e se apoderou das roupas dos incautos amantes, fazendo-os andar nus uma rua inteira, até serem socorridos por almas caridosas. De outra sorte, a Senhora Castro, tomando previamente conhecimento de onde ocorreria o bacanal do qual  faria parte seu esposo, a ele compareceu seminua e embriagada, e num gesto de sensual disponibilidade, ofereceu-se a todos. O fato culminou com um tremendo quebra pau, tendo dele saído feridos superficialmente o Doutor Epaminondas e sua ousada mulher.

A notícia da morte do Doutor Epaminondas, tomou de assalto, a população da cidade e das redondezas. A forma como se dera  foi motivo dos mais variados e criativos comentários. Houve quem afirmasse, sem provas, é claro, que dera seu último suspiro nos braços de uma jovem morena,  quando exigira, insensatamente que seu corpo cansado e embriagado, lhe propiciasse uma reprise do mais antigo ato criador da humanidade. Outros, sem muito romantismo, juraram que o encontraram agonizante sobre a mesa de um bar, com o rosto imerso numa poça vômito e bebida alcoólica.

Não faltou quem dissesse que foi encontrado semimorto no banheiro, atolado nas fezes e na urina, uma morte nada romântica para um  contumaz fornicador que alardeava as mais belas formas de dá adeus a esse mundo.

O certo, é que eu e outros curiosos, nunca soubemos, como de fato, se deu a passagem do Doutor Epaminondas. Apenas que se deu. E para que não  ocorresse em relação ao seu velório, o mesmo enigma alusivo à sua morte, fui uma das primeiras pessoas que chegou ao casarão do de cujus. Havia me feito o propósito de não perder um lance sequer do funesto acontecimento, que apesar de triste, como é comum a todo velório, teria seus momentos, dramáticos, apoteóticos, políticos e hilários. Afinal de contas não era todo dia que morria um Doutor Epaminondas.

Corriam pela cidade notícias desencontradas sobre onde se daria o velório. A maioria dos munícipes contava ansiosa com a possibilidade de que o mórbido evento se desse na casa do falecido. Seria uma ótima oportunidade para que o populacho,  sedento para conhecer a privacidade da família do defunto, pudesse satisfazer a curiosidade.  Eram muitas e contraditórias as notícias. Houve, inclusive quem dissesse que distribuiriam senhas e, somente os familiares e os amigos mais próximos, ficariam isentos de se submeterem a este constrangimento.

Outros rumores davam conta que o corpo ficaria na Câmara Municipal, uma vez que o avô do  falecido médico fora prefeito do município. O prestígio de gente rica é hereditário, assim como o são suas fortunas. A prodigalidade de informações divergentes só teve fim quando as duas emissoras de rádio da cidade, tornaram claro aos moradores  que o velório seria na casa do morto, e que seu corpo começaria a ser velado a partir das dezoito horas, do dia em que passara dessa para melhor.

A área da casa do Doutor Epaminondas se estendia por  um quarteirão inteiro e  se localizava em uma das pioneiras ruas do bairro nobre, cuja ocupação se deu quando os ricos migraram  do  centro da cidade para lá. Foi uma das primeiras casas a ter uma piscina e um imenso jardim gramado. Antes, os imóveis residenciais dos bem aquinhoados tinham jardins, cujas visões eram franqueadas por baixos muros, alguns deles com ofendículos. Eram repletos de roseiras coloridas, estrategicamente plantadas e não lhes faltavam jasmins, crótons diversos e, os mais elegantes, possuíam  lagos com patos ou cisnes.

As novas casas vieram com moderna denominação. Eram conhecidas como mansões. Possuíam muros altos, uma modernidade com a qual custamos a nos acostumar. Os paredões de concreto romperam a tradição que se mantinha desde o nascimento da cidade. Um autêntico divisor de águas. Os muros altos fizeram com que a única manifestação de  solidadriedade dos ricos para com os pobres, se extinguisse por completo.   Tirou-se dos dos desafortunados sonhadores a possibilidade de apreciarem aquelas que lhes pareciam nababescas paisagens, constituídas pelas visões das tradicionais e belas moradas, além de lhes impedir de comungar de suas rotinas.

Antes dessa novidade divisionista,  as vidas das abastadas pessoas  soavam ao populacho como  uma novela vivida em tempo real, cujos capítulos se faziam em retalhos do dia a dia de cada uma. Sabia-se  dos hábitos,  como se  portavam, dos estilos de vestirem, dos horários das labutas, dos descansos, dos eventos ordinários e extraordinários de cada família, das amizades mais próximas e também  dos desafetos. Enfim, privacidades com restrições. Esse costume nunca causara inconveniente. Muito pelo contrário. Dava, pelo menos na imaginação do povão, a falsa ideia de que todos se conheciam e por conseguinte se gostavam.   

Fui um dos primeiros a chegar na casa do Doutor.  Queria ter a honra de  abraçar a Senhora Noeme  em primeira mão. Dá-lhe o meu ombro para que derramasse copiosas lágrimas. Com certeza ela o faria. Afinal de contas sempre fui muito solícito com o de cujus. Nunca lhe faltei nos momentos decisivos de sua vida.

Quantas vezes não lhe servi como motorista, mensageiro e segurança. Em outras oportunidades poupei horas do seu precioso tempo em filas de bancos ou em repartições públicas, até mesmo engraxar seus sapatos, eu engraxei. Desta feita ele ficou muito surpreso, a ponto de constatar que eu lhe servia muito bem  e, em mil e uma utilidades. Confesso que algumas delas não foram tão nobres, como as que me tornei álibi para livrá-lo da fúria justiceira de Dona Noeme. Por isso, tenho certeza que o Doutor me tinha em alta conta. Essa consideração me renderia o indizível prazer de ouvir juntinho do meu ouvido, o retumbante soluçar de Dona Noeme, quando ela se aninhasse nos meus braços,  situação que se aproximaria um pouco das minhas inconfessáveis fantasias, que de vez em quando, me assaltavam nas noites quentes.

Antes que os portões franqueassem as entradas de todos que, por curiosa solidariedade, queriam participar do velório, consegui entrar no recinto. O caixão já estava disposto na sala de estar da casa. Era uma bonita urna. Se é que se pode reconhecer beleza nessa inanimada e silente testemunha, que juntamente com o corpo do Doutor Epaminondas, voltarão ao pó. Tão lustrosa e imponente era a urna que os espaços de folga deixados pelo cadáver tiveram que ser preenchidos por muitas flores. As mais bonitas que eu já vira. Ao contrário do que se dava quando eu era menino, mesmo nos velórios de gente rica, nada de chumaços de algodão nas cavidades naturais  da cabeça do Doutor, nem muito menos bacias de água com gelo sob o caixão e ventiladores ligados em sua direção. Absolutamente! O Doutor passara por um processo chamado de tanatopraxia, procedimento que lhe deu a aparência de que estava dormindo.

Para minha surpresa Dona Noeme soluçava no ombro do Doutor Deodato, aquele que fora em vida grande desafeto do falecido. Dizia-se que antes de serem antipáticos um ao outro, já haviam sido grandes amigos, inclusive contemporâneos de estudos na universidade. O motivo da contenda era outro dos mistérios daquela cidade. Não fui só eu que me espantei. Embora a minha decepção estivesse aliada a uma ponta de ciúmes. Afinal,  era eu que iria consolá-la.

Dada a minha surpresa, retrocedi e me misturei entre os primeiros que chegaram ao local. Não pude deixar de ouvir alguns comentários maliciosos, dentre os quais o da Dona Soraia, que cochichou  no pé do ouvido de Dona Dulcinéia.

– O homem nem ao menos esfriou e Noeme já está dando seus pulinhos.

– Triste de quem morre Soraya. Com o fogo quente dessa viúva, duvido que complete o luto sem dividir a cama com outro homem.

– Isso eu já esperava. Mas justamente com esse aí.

As duas senhoras eram da intimidade da viúva e, segundo o que se acreditava, grandes amigas. Percebendo minha aproximação, amiudaram o comentário e se chegaram a Dona Noeme. Esta se largou do caloroso abraço do Doutor Deodato para dá vazão ao seu pranto enlaçada a uma delas. É importante dizer que Soraya quase atropelou Dulcinéia na ânsia de abraçar, pioneiramente a recém viúva. Como se sabe, essas coisas contam ponto, na alta sociedade.

– Amiga, imagino sua dor e sofro contigo. Nunca conheci um casal tão harmonioso e feliz. A dor é grande, mas os desígnios de Deus, só ele conhece. Estou aqui ao seu lado, hoje e sempre.

Dulcinéia, não deixou por menos, com forçosa delicadeza, tirou a viúva dos braços da concorrente e iniciou as frases de efeito, com as quais a maioria das pessoas tenta justificar o injustificável e consolar o inconsolável. Tanta falsidade me embrulhou o estômago. Recuei um pouco e desta feita pude ouvir parte da conversa de quatro ou cinco homens da high society.

– Morte prematura a do nosso amigo! E volto atrás, na verdade previsível, dada a vida que levava.

– Amigo Vieira, fosse só a falta de cuidado com a saúde, mas corre boatos, em boca miúda, que era irresponsável também com as finanças. E se não fez seguros, a bela Noeme estará em maus lençóis.

– Deodato não a deixará desguarnecida. Disse Vieira, com um sorriso irônico nos lábios.

Fiquei atônito por não compreender exatamente do que falavam, já que supunha ser sólida a fortuna do falecido e, ainda, por não assimilar porque Dona Noeme recorreria, em caso de necessidade, justo ao Doutor Deodato. Encaminhei-me novamente para próximo da viúva a fim de conseguir dar-lhe meu apoio físico e moral. Iguais  desideratos animaram os senhores Vieira e Paulo Nunes.

– Dona Noeme, não tenho palavras para expressar meus sentimentos. Epaminondas nos deixa a todos órfãos. Um cidadão ímpar em honestidade,  chefe de família exemplar, um médico solidário. Que perda! Conte comigo, a senhora não estará sozinha.

Dona Noeme, que ainda dividia atenções com Soraya e Dulcinéia, desvencilhou-se das duas para soluçar nos braços do Senhor Vieira. Ele não poupou esforços em consolá-la. Abraçou-a mais do que deveria, segundo a minha análise. No que foi imitado pelo senhor Paulo Nunes.

A poucos metros da inconsolável viúva estava o casal de adolescentes órfãos. A garota herdara a beleza da mãe e estava tão compenetrada em sua dor, que deixava claro com sua postura, não está disposta a receber abraços e ouvir condolências. Limitava-se a acariciar o rosto do pai em copioso pranto. O rapaz, tão garboso quanto o genitor, estava mais acessível as manifestações de solidariedade e, com atento olhar, vigiava todos os que se aproximavam da mãe.

Não muito longe, sentada em uma poltrona, permanecia imóvel, Dona Maroca, a sogra do falecido. Expressava uma dureza ímpar na fisionomia enigmática, que não transparecia ao certo, dor  ou alívio, com a perda do genro. Aliás, sua postura foi uma das que mais rendeu comentários. Uns a interpretaram como manifesta satisfação, outros como indisfarçável preocupação. Jamais conseguiram decifrá-la, até porque Dona Maroca era de pouca conversa.

Sem conseguir ainda dá meu ombro a Dona Noeme, cheguei perto do Senhor Cláudio Castro, pai do falecido, que era seu único filho. Estava desolado. Sua dor era indisfarçável. Sofrera muito com a morte prematura da esposa e não casara outra vez.

Dedicara-se a cuidar dos netos. O senhor Cláudio parece ter sido o único daquela família, que apesar da dor, percebeu minha presença. Senti uma sensação de indizível reconhecimento quando ele se dirigiu a mim.

– Wilson, quero que me leve a igreja, preciso falar com o vigário.

– Estou as ordens, senhor Cláudio. É agora?

– Sim.

Cordato e disponível como sempre estivera, retirei da garagem um dos carros da família enlutada e conduzi o patriarca à casa do Padre Jacinto.

– Padre Jacinto, quero que  o corpo de Epaminondas seja sepultado na Igreja da Matriz.

O padre titubeou e com voz entrecortada de surpresa e admiração, falou:

– Na matriz?

– Sim, na matriz.

– Mas senhor Paulo, tal pretensão não é usual. Temo que o Bispo não permitirá. Existem limitações nas normas eclesiásticas para que tal inumação seja feita na igreja.

– Certamente o senhor bispo haverá de concordar que meu filho foi um exímio cristão, um médico caridoso, um cidadão exemplar. Nada mais acertado do que ser sepultado na igreja. Além do mais, toda norma tem exceção. 

O padre não ousou questionar os argumentos do senhor Paulo. Aliás, poucos na cidade se atreviam a fazê-lo. Limitou-se a explicar ao senil senhor a burocracia que a satisfação do seu desejo acarretaria. Sentindo-me imensamente necessário, acompanhei o senhor Paulo na resolução da burocracia eclesiástica, que com rápidos, porém fortes argumentos, logo foi resolvida, tendo sida  deferida a pretensão do pai de Epaminondas. Voltamos à residência do Vigário e a ordem lhe foi transmitida. A admiração tomou conta do sacristão Euclides.

– Padre, o senhor não acha um sacrilégio que o corpo do Doutor Epaminondas, que levava uma vida tão desregrada, seja sepultado na igreja?

– Meu filho, por acaso esqueceu história de Santo Agostinho, o Bispo de Hipona? Não era ele um bom vivant  antes de se converter?

– Não recorda que foi a Maria Madalena, a pecadora, que Jesus mais amou? E não foi a ela a quem primeiro apareceu quando ressuscitou?

– Padre, mas além de levar uma vida dissoluta, também se dizia ateu.

– Meu filho, lembra que São Lucas era ateu, antes de se converter.

– Padre, mas o senhor sabe que o Doutor era agiota e tem ciência de das pobres vítimas das quais tomou tudo que tinha, para saldar dívidas aumentadas em juros exorbitantes.

– Filho, por acaso esqueceu de Levi, o publicano? Não  praticava ele excesso de exação contra seu povo e em favor dos romanos? E não se converteu após subir em uma árvore para ver Jesus passando?

– Certo Padre, mas o senhor não desconhece que imputam duas mortes ao senhor Epaminondas?

– Filho, por acaso não sabe, que o apóstolo Paulo, antes Saulo, foi responsável pela morte de muitos cristãos, sendo o primeiro deles o Mártir Estevão?

– Diante de tão sólidos argumentos, o senhor quase me convenceu.

– Convença-se Euclides e tente fazer o mesmo em relação aos demais fiéis, por que eu mesmo jamais me convencerei. Disse isso com um ar evasivo e iniciou a condução dos atos preparatórios para as exéquias.

A madrugada na casa do de cujus foi de intensa movimentação. Choros que se alternavam com conversas animadas, rezas, risos, fofocas, tudo regado a café, chá, biscoitos e caldo de carne. Um autêntico rega bofe, dos quais não deixaram de participar alguns pobres famintos da redondeza. Taí uma coisa que sempre me chamou a atenção. O paradoxal comportamento das pessoas em um velório. A rapidez com que os visitantes e, muitas vezes os parentes do falecido,  passam do choro para o riso. A diversidade dos assuntos que se desenvolvem no local,  as mórbidas curiosidades dos que se acotovelam para ver o defunto, mesmo que sua morte não tenha se dado de forma trágica e não esteja decomposto o cadáver. O modo como se sentem atraídos pelos sofrimentos dos vivos.

A ansiedade que cada um tem de relatar sua última conversa com o que fez o passamento.  Sempre me chamou particular atenção a necessidade que eles têm de testemunhar a dor alheia e se esbaldarem em choros, que na verdade mais se relacionam com suas próprias dores, do que por pranto pelo morto.

Estava compenetrado nessa análise existencial, quando ouvi vozes alteradas e no meio delas reconheci a de José dos Anjos, alcoólatra por demais conhecido na cidade. Fora, quando a cachaça ainda não tinha degenerado seus miolos e deixado trêmulas as mãos, um dos melhores marceneiros da cidade. Desenvolvera também o hábito de fazer versos, de modo que para tanto se inspirava, sem reservas, nas vidas de quem entendesse merecer. Foi com um desses rompantes poéticos que entrou no velório recitando alto sua mais recente composição:

Se há algo  nesse mundo,

que não respeita o rico nem o indigente.

Faz  do velho e do novo, defuntos,

leva a  mulher honesta e a indecente.

Se de veneta, tiver  pressa,

deixa incompleto qualquer assunto.

Numa só piscadela põe a vida as avessa.

Deixando descoberto o segredo do cornudo.

Transforma  mulher séria em viúva decadente.

Converte intriga em amor profundo.

E não deixa morfado pendente.

É, portanto a morte, a certeza desse mundo.

Sem cerimônia e, de repente,

leva consigo sob o manto,

o preguiçoso, o  inválido e o producente.

Vindo, igualmente buscar o valente e o manso.

Se for enterrado na igreja, por que o bispo lhe é temente,

mas dos vermes não vão escapar nem mesmo os dentes.

É no nascer e no morrer que se iguala toda gente.

Nus nascem todos, e da morte não escapa um vivente.

 Eu e muitos dos que estavam ali não pudemos deixar de perceber a fina ironia de Dos Anjos. Nem muito menos de ver quando foi rebocado para os fundos da casa, de onde se ouviram sons abafados, seguidos de alguns gritos. Posteriormente, houve quem testemunhasse que o pretenso e inconveniente poeta saíra do velório com alguns hematomas e, bem menos inspirado poeticamente. Situação que já se tornara regra diante da descompostura do bêbado e das pessoas que escolhia como mote para seus versos. O fato é que a composição de Dos Anjos provocou muxoxos e comentários dos mais diversificados possíveis sobre o falecido e a viúva.

O constrangimento causado por Dos Anjos foi depressa abafado por reza, muita reza mesmo, terços, rosários e incelenças. As fervorosas senhoras que assessoram nas liturgias da igreja, sutilmente se digladiavam para mostrar quem mais dava conta de tão nobre missão. Não pouparam esforços em empencar benditos. E me arrisco a afirmar que se elas, as rezas, fossem aptas a garantir a salvação de uma alma, o Doutor Epaminondas já estaria no paraíso.

São nessas circunstâncias que  me ponho a pensar sobre os segredos da vida e acerca das mil e uma respostas que as pessoas tentam lhes dar. Cismo que nenhuma delas é capaz de satisfazer minhas interrogações. Valeu a pena a vida do Doutor Epaminondas? Viver com tanta fartura e morrer assim, bestamente? E o pior, misteriosamente!

Será mesmo que Nosso Senhor exige santidade de um morredor aqui da terra? Sim, porque sendo pobre ou rico, feio ou bonito, são ou aleijado, velho ou novo, não há um só que seja santo. Pelo menos que eu tenha conhecido. Quando não peca na luxuria, peca por inveja, soberba, ambição, vaidade, usura e tantas outras razões que minha inteligência não alcança. Só sei que pecam! Aqui com meus botões; Ô coisa boa é pecar! O satanás envolveu o pecado de açúcar, feito um pão doce. Se Nosso Senhor não tiver misericórdia de todos nós, o inferno não vai caber tantas almas.

Estava eu distraído nos meus pensamentos quando me dei conta que o dia amanhecia. E nesta manhã, como em tantas outras passadas, o Dr. Epaminondas não viria o raiar do sol, nem muito menos quando ele se poria. Não abraçaria Dona Noeme, não receitaria doentes, não tomaria sua cerveja vespertina, não reveria os filhos tão amados e mimados. Enfim, encerrara sua existência. Passara a ser uma mera lembrança. Engraçado esse fato! Como é tênue o limiar entre a existência e a morte! E, nesse particular, a vida dá sua lição. Num piscar de olhos uma pessoa, seja ela quem for, pode passar a ser apenas e tão somente uma reminiscência.  Qualquer um pode recontar a história do senhor Epaminondas. E a narrará do jeito que lhe aprouver.

A manhã passou rápido. Chegou a hora da missa de corpo presente. Na igreja havia bancos reservados à família. Os demais foram disputados por amigos, parentes e solidários curiosos. Dois padres concelebraram o ato. O mais antigo fez a homilia.  Durante as exéquias houve muitos prantos, discursos e pródigas manifestações de solidariedade. Por fim chegou o momento mais comovente, dramático e desolador. Aquele no qual constata-se que tudo está consumado, o sepultamento.

Aos poucos o burburinho dos presentes diminuía, fazendo-se ouvir os soluços inconformados dos familiares, alternado pelos sons peculiares da edificação dos tijolos, colocados uns sobre os outros paulatinamente e lacrados com argamassa. Pouco a pouco os coveiros foram cumprindo, insensivelmente seu mister e impedindo a visibilidade da bonita e cara urna do Dr. Epaminondas.

Ninguém, por mais desiludido e desesperado que estivesse, quis ser sepultado vivo com o Sr. Epaminondas, como as antigas viúvas indianas eram obrigadas a fazê-lo. Não ficou uma viva a’lma no Campo Santo para zelar pela solidão do cadáver. Um a um, foram se retirando. Quanto a Dona Noeme, não faltaram-lhe o apoio e as palavras de conforto de Dr. Deodato. Os filhos do falecido se afastaram, cada um digerindo a sua dor, que com o passar do tempo, se transformariam em saudades.

E assim findou-se Dr. Epaminondas. Não sei como se deu sua passagem, mas muito sei de sua estada nesse mundo, ora cruel, ora divertido. Senti muitas saudades dele, mas o tempo, que resolve, tudo dissipou-as. A vida continuou. Outros médicos chegaram na cidade, outros boêmios fizeram  história. E a vida seguiu, caprichosa, fazendo o que quer com os pobres mortais.

Sobre a autora:

Efigênia Coêlho Cruz

Nascida em 16/11/1963. Otimista com os pés no chão, professora universitária aposentada, Promotora de Justiça e pretensa escritora.

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