Detesto pimentão. Perco a vontade de comer só de ver. É uma guerra: basta ter pimentão na mesa, coloco barricadas de pratos, copos e jarras para enfrentar o inimigo, manter distância e garantir proteção. Deixo de comer tomate picado por precaução, com receio de ter pimentão camuflado. O cheiro é outra coisa que me deixa nocauteado.
Também detesto folhas. Tenho repugnância ao mastigar folhas, no máximo como alface, desde que esteja escondido entre pães, mas chega uma hora que desisto. Uma coisa que não consigo esconder é minha insatisfação: reviro os olhos e minha cara fica franzida. Tem gente que come tudo. Eu saio retirando cebola, coentro, cebolinha, repolho… tanta coisa que retiro. Deve ser detestável fazer comida para mim. Acho que perco convites e que as pessoas já olham dizendo “eita, homi fresco”.
Outra coisa: para comer, não gosto de muita conversa e barulho. Acho que deveria ter uma placa em cada local onde as pessoas se reúnem para comer, informando: “Comer é um ato de meditação”. Pelo menos o silêncio, acredito, tempera a comida com um sabor inigualável. Fiquei até com água na boca agora. Comida e barulho parecem que diz respeito a uma questão particular, afinal, poderia dizer: isso é um problema meu.
Lembro da comunista e artista Frida Kahlo:
“Eu costumava pensar que era a pessoa mais estranha do mundo, mas depois pensei que, com tantas pessoas no mundo, deve haver alguém exatamente como eu, que se sente bizarra e imperfeita da mesma forma que eu. Eu a imaginava, e imaginava que ela também devia estar por aí pensando em mim. Bem, espero que, se você estiver por aí e ler isso, saiba que sim, é verdade, eu estou aqui, e sou tão estranha quanto você”.
Uma coisa é certa: em momento algum falei de comida ou de barulho. Não falei de comida e de barulho, insisto. Se eu pudesse, agorinha, comeria pimentão sorrindo e dançava com estrelas nos olhos ao som do barulho, mas só consigo fazer cara de dor, outra ainda não foi providenciada. Falei mesmo foi de gente.
Sobre o autor:

Alexandre Lucas
Alexandre Lucas é escrevedor, articulista e editor do Portal Vermelho no Ceará, pedagogo, artista/educador, militante do Coletivo Camaradas e a integrante da Comissão Cearense do Cultura Viva.
