Literatura para o autoconhecimento

Há aproximadamente dois anos assisti ao curso na Casa do Saber “Literatura para o autoconhecimento”, ministrada pelo escritor Dante Callian. Ao se apresentar, ele comentou sobre a criação, há vinte anos, do Laboratório de Leitura na Escola Paulista de Medicina (EPM) da Universidade Federal de São (UNIFESP).

Encantada pelas aulas – “Sair e retornar”, “Ter fé e esperança, refletir e discernir”, “Agir com coragem e astúcia”, “Ser curioso e saber contemplar”, “Hospitalização e Celebração” – indiquei para os amigos mais próximos. Cinco são os motivos:

  1. A literatura contribui para a compreensão dos sentimentos. É preciso compreender para não adoecer;
  2. A literatura nos possibilita olhar o mundo pelos olhos dos outros;
  3. A literatura nos convoca a sair do mundinho pequenino em que vivemos. “A vida presta” e vai muito além das obrigações cotidianas;
  4. A literatura nos arranca da solidão de um mundo dominado pelas novas tecnologias;
  5. A literatura é um lembrete de que é próprio do humano ler, ouvir e contar histórias.

Um dos fatos que mais me chamou atenção no curso foi a linguagem usada pelo palestrante: fluída, amorosa, cativante, e não técnica própria de alguns  profissionais da área da saúde.

Dante é formado em História. Na minha errônea interpretação, acreditei que um médico havia sido convidado para criar um Laboratório de Leitura (e não um historiador) dentro da EPM para trabalhar os clássicos e, dessa forma, contribuir para a leitura dos estudantes e para fomentar o processo de humanização.

Sabendo que ele era historiador, comprei o livro A literatura como remédio: os clássicos e a saúde da alma (2017), e presentei um outro historiador, o amigo Jucieldo Alexandre, com quem travo os mais incríveis diálogos literários fundamentados pela perspectiva histórica.

No Ensino Médio, História sempre foi a minha matéria favorita. Até que estudando para o vestibular, conheci o professor Alves Andrade, que afirmava que ao historiador cabia contar os fatos tal como eles aconteceram, mas o literato deveria contá-los como gostaria que eles tivessem acontecido. Formei-me em Letras, continuei amando História, até porque não há como explicar os acontecimentos literários sem levar em consideração a perspectiva histórica, já que não existe um único escritor, que não esteja integrado à sociedade da qual faz parte. A obra literária não é fruto exclusivo da criatividade de quem escreve. O escritor respira o tempo e o espaço do qual está inserido.

Como todo tipo de arte, a literatura está vinculada à sociedade da qual se origina. É raro encontrar um escritor “indiferente” à realidade, pois de alguma forma ele participa dos acontecimentos sociais. Diante de uma conjuntura de incertezas, da polarização política, somada ao estreitamento das ideias e o domínio da tecnologia digital, a literatura (re)surge como uma ferramenta para conectar o humano.

Esse ano, fui ao cinema assistir ao filme “A Odisseia”, do diretor Christopher Nolan. Embora não goste de adaptações de obras literárias para o cinema, eu gostei muito do filme. Depois de três horas acompanhando a saga de Odisseu, só pensei em uma coisa: preciso reler a Odisseia. Na impossibilidade, lembrei-me do curso “Literatura para o autoconhecimento”, em que Dante, que não é o Alighieri, embora seja casado com uma Beatriz, usa a obra do poeta Homero para nos questionar “O que é próprio do humano?”. Foi então que me recordei do livro presenteado ao amigo Jucieldo.

Cá estou com ele nas minhas mãos. A obra é apresentada por outro historiador e amigo: Leandro Karnal. Ele afirma que estamos diante um livro com um viés “original e intenso”, já que o autor deseja trazer “o fogo do conhecimento para um público amplo e transformá-lo”.

A literatura não é um mero entretenimento. Também não é útil no sentido de acabar com a crise climática ou com a corrupção no país. Mas ela pode ser usada, quer dizer, tomada como um “remédio” para a compreensão da mediocridade humana, da complexidade do mundo, sobretudo, de nós mesmos.  A literatura funciona como um respiro diante de um cotidiano que passa como um rolo compressor por cima de nós. A literatura nos ajuda a nomear sentimentos difíceis como o medo, a angústia, o tédio de ser e de estar no mundo.

O poeta maranhense Ferreira Gullar costumava dizer que “A arte existe porque a vida não basta”, ou seja, necessitamos para além do básico para (sobre)viver. A música “Comida” – “a gente não quer só comida, A gente quer comida, diversão e arte”, banda Titãs, vai ao encontro da afirmação do autor de o “Poema Sujo”. A vida pede de nós coragem, em contrapartida, exigimos dela dignidade, prazer, cultura e lazer.

Após a apresentação do Leandro Karnal, do “Prólogo ao leitor extremamente ocupado” (do próprio autor), finalmente conhecemos “A história de um experimento laboratorial”.  À princípio, Dante iniciou ministrando a disciplina “História da Medicina” para os estudantes de graduação médica. Mas logo se deparou com uma realidade um quanto frustrante: “Alunos passivos que assistiam à projeção de slides dos grandes vultos e temas da história médica como uma sessão de sonoterapia”. Foi então que veio a reestruturação da disciplina. No semestre seguinte, Dante usou trechos de obras clássicas da história médica: “Hipócrates, Galeno, Avicena, Paracelso, Harvey, Bernard, etc”, que eram distribuídas e lidas em conjunto com os alunos. Em seguida, eles comentavam. “No começo foi penoso”, pois os jovens se sentiam intimidados e receosos em falar algo “errado” e se expor ao ridículo.

Com paciência e perseverança, a dinâmica das aulas foram mudando. Os temas técnicos e científicos deram espaço à leitura e à reflexão para pensar as “questões humanas”. Esse foi o embrião do Laboratório de Humanidades no ano de 2001.

Na segunda parte do livro “A literatura como remédio”, Dante reflete sobre nosso tempo dominado pela ciência e pela tecnologia. Em contrapartida, a arte, em geral e a literatura, desempenham um “papel subsidiário”, o que no passado, “em todas as culturas humanas” eram considerados elementos estruturadores por excelência. Através de um apanhado de teóricos, o autor traz à tona o poder da literatura, em especial da poesia de Homero, segundo Platão, “o maior educador de toda a Grécia”. Quando mobilizamos palavras e imagens, mobilizamos as “forças estéticas da experiência humana” e ativamos a “dimensão ética, moral do ser humano, que na visão antropológica antiga,  habita dormente o coração humano”.

Após discorrer sobre “Lablei: o experimento laboratorial” e “Os efeitos: o Lablei, a humanização da saúde da alma”, Callian se dirige ao “leitor extremamente ocupado” para dizer que o objetivo do livro A literatura como remédio: os clássicos e a saúde da alma (2017) é tornar o “acontecimento/experimento ainda mais conhecido e difundido”.

Mais do que decodificar as letras impressas de um livro, a literatura é um ato de resistência frente a uma sociedade performática, hiper-conectada, cansada, que aos poucos vem perdendo sua identidade e sua alteridade. A literatura é uma luta contra a desumanização: na medicina, nas relações, na vida!

Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva

Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler

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