Única obra literária, até o momento, da escritora piauiense Clefra Guedelho, Enquanto estou aqui… (2021) nos brinda com trinta e sete crônicas sobre as mais diferentes temáticas: amor, viagens, casamento, amizade, processo criativo, trabalho, férias, sonhos, opinião, solidão, chegas e partidas, mar, etc.
A ideia de escrever um livro surgiu no período da pandemia de COVID-19 concomitantemente à criação do “Blog Pensamentos escritos”. Nas palavras da autora, em entrevista a Aristides Oliveira, Enquanto estou aqui… é o primeiro exercício não acadêmico (Clefra Guedelho é Assistente Social e escreve relatórios para subsidiar decisões jurídicas) em que a autora narra o seu próprio cotidiano considerando suas vivências, sejam elas voltadas “ao momento presente ou a memórias de tempos mais recuados”.
Clefra Guedelho também é leitora de crônicas que varia de Martha Medeiros à Clarice Lispector. Ela confessa ter visto neste gênero literário “o caminho possível para o meu [seu] enveredar experimental pela literatura”.
A obra é dedicada “Para Quinha, minha mãe, minha melhor amiga: referência de ser mulher”. O prefácio ficou por conta de Jaislon Honório Monteiro em que o escritor fala da “fina sensibilidade” da autora, além da matéria viva das crônicas: “o vivido e o imaginado”. Clefra, ao longo dos trinta e sete textos, se desloca entre o “ensaístico e o memorialístico” resultando em uma “estreita sintonia com os dilemas do nosso tempo”.
O livro traz em seu bojo duas epígrafes da escritora Clarice Lispector extraídas não de sua coletânea de crônicas – A descoberta do mundo (1967) – mas de dois de seus romances: A paixão segundo G.H (1964) e A maça no escuro (1961). O propósito das epigrafes é um só: “coragem para fazer” e coragem para o que virá depois, pois segundo Lispector “quando a gente se revela, os outros começam a nos desconhecer”. Quando se é escritor, neste caso escritora, perde-se a ilusão do controle.
Na impossibilidade de discorrer sobre todas as crônicas, comentarei as três escolhidas para o encontro do Nordestinados a Ler:
1) O casamento de uma mulher balzaquiana
Aqui a autora já começa usando uma intertextualidade, característica recorrente em sua narrativa. O romance A mulher de trinta anos, escrito pelo francês Honoré de Balzac, entre os anos de 1829 e 1842, é um dos melhores que já li. A cronista reflete sobre um grupo de mulheres solteiras em busca de um lugar paradisíaco. Ela lembra a série norte americana “Sexy in the city” (1998-2004) e o filme brasileiro “Muita calma nesta hora” (2010), ambos protagonizados por mulheres que enfrentam situações divertidas e difíceis. Juntas tornam-se mais fortes.
A narradora havia feito uma promessa na virada do ano: “ser feliz no amor”. Ela deseja casar-se, ter “uma relação estável com alguém bacana e poder compartilhar o papel da maternidade com esse alguém que seria um pai amoroso e responsável”. Clefra tem consciência de que sua realização profissional depende apenas e tão somente dela, mas a pessoal, depende também de encontrar um outro. Às vezes isso acontece, às vezes, não, motivo pelo qual ela planejava a vida dela sob duas perspectivas: “casada ou solteira, com filhos ou sem filhos”.
O tom ensaístico da crônica está no fato de a autora discorrer sobre o casamento ao longo da história. Enquanto “o trabalho dignifica o homem”, “o casamento dignifica a mulher”, ou seja, casar já foi a única opção para nós mulheres.
Clefra traz a filósofa francesa Simone de Beauvoir, nunca se casou, mas teve uma longa relação com Jean Paul Sartre e também com mulheres, para a conversa. A autora de O segundo sexo (1949), afirmava que o casamento só seria livre se a mulher, a partir do trabalho, pudesse ampliar seus horizontes de possibilidades.
Casamento é escolha não determinação. A autora, diante desse contexto, nos traz um questionamento valioso: “… mesmo o casamento não sendo mais a única opção de vida para as mulheres, por que grande parte delas ainda deseja se casar?”. A resposta varia entre o fato de que nós, mulheres, somos herdeiras de um pensamento mais romantizado, assim como há o fato de ansiarmos pela “intimidade privada mesmo que seja um risco emocional”, para lembrar uma outra escritora, agora americana, Elizabeth Gilbert, autora de Comprometida (2010), para quem se casar pode ser “um ato subversivo” em tempos de relações líquidas.
2) Lá em casa
Clefra nos conta que mesmo casada, ela e o marido, ao viajar para a casa de seus respectivos pais expressam-se da seguinte forma: “Lá em casa” – “lugar da intimidade, onde somos o que somos, onde nós reconhecemos”. Mesmo que aquele lugar esteja sendo ocupado por outra pessoa, mesmo que tenha se transformado no “quartinho da bagunça”, mesmo que estranhemos entrar no “quarto de solteira”, “sabemos que temos um espaço que ali nunca vai mudar”, ou seja, mesmo tendo à nossa casa, “a cada dos nossos pais” é, de alguma forma, nossa também. A força das nossas raízes é o que nos torna mais fortes.
3) Reconhecendo seus erros
Neste texto, a narradora inicia afirmado que “Somos seres em construção”, caso contrário seríamos bilhões de erros vagando pelo planeta. Clefra relembra que ainda na graduação – Serviço Social – obteve uma aprovação em um concurso público. Foi uma fase de “Muito conhecimento teórico acumulado, poucas vivências e nenhuma experiência laboral com autonomia”. Eu, por exemplo, que comecei a trabalhar cedo, reconheço que a sala de aula sempre foi o meu lugar, mas também entendo que os desafios e a insegurança eram enormes. “Olhando para minha jornada, sei avaliar a minha evolução”. É preciso tropeçar, duvidar para se tornar uma profissional de qualidade. Ser quem se é, fora ou dentro do ambiente de trabalho, exige estudo, dedicação e experiências.
Clefra ainda aborda a necessidade de não sair alardeando “qualquer erro” que se venha a cometer no trabalho. Precisamos nos proteger das “más línguas”. Ao cometer um erro “a melhor estratégia é reconhecer que falhou”. Nada de se acorrentar ao muro das lamentações. A vida segue.
Enquanto estou aqui… é uma obra fluída com uma linguagem acessível para se pensar o tempo presente, já que a vida acontece agora, no cotidiano, cortando legumes (“A esposa exemplar”), trabalhando (“O homme office e a silenciosa revolução dos costumes), viajando (“Férias”), brincando de perguntar (“Quem você levaria para uma ilha deserta?”), vivendo o retraimento (“Cinco meses de solidão” e “A bolha”), ou mesmo passeando por onde se nasceu e cresceu (“Flanando por Paraíba”), etc. Enquanto alguns esperam os grandes acontecimentos para chamar de seu, Clefra Guedelho e eu vamos vivendo os pequenos desafios de ser e de estar no mundo.
Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva
Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler
