Sempre que penso em encontrar um espaço na minha semana para sentar e escrever, vários questionamentos me acompanham antes, durante e depois do momento em que coloco, nesse papel imaginário do editor de textos, as palavras que selecionei para o mundo entender melhor quem eu sou.
Até me confundo quando começa essa cadeia de atividades eletroquímicas da minha rede neural, mas acho que, bem antes de decididamente me sentar para escrever, são dias, horas, muitas reflexões sobre o que toma a minha atenção, o que é importante para mim v. o outro. Depois disso, me pego questionando que péssima mãe eu sou cada vez que deixo de estar com a minha filha para fazer o que mesmo?
Escrever? Para que? Que perda de tempo!
Quando finalmente consigo equilibrar todos os pratos, mesmo que de forma bem desorganizada e bagunçando a vida de outras pessoas, faz parte depois que você é mãe, me sento e tento me organizar mentalmente para colocar aqui, antes desse tracinho piscando, o conteúdo que preencheu as minhas reflexões/visões e me moveu.
Mas para que falar disso? Quem vai ler essa inutilidade? Por que você acha que alguém se interessaria pelo que você tem a falar?
Acredito que esse é o pior momento. Afinal, muitas vezes, nem aqueles que convivem diariamente comigo têm a menor intenção de ouvir o que eu tenho a falar, além das amenidades básicas e das orientações da vida diária para que nem tudo saia dos trilhos. Por quais motivos esse outro vagante do mundo exterior teria interesse?
Não posso esquecer da pergunta crucial que é motor do nosso capitalismo e me pega de jeito sempre que aparece. Pois, mesmo sabendo a resposta na ponta da língua, concordo que é uma variável importante.
Não dá pra viver de energia solar mesmo… Isso vai dar dinheiro?
Por fim, essa escolha criteriosa de palavras e expressões que tornam único cada texto e deixam a minha identidade estampada em cada construção. Para que não seja preciso sequer ler meu nome ao final de tudo, e seja evidente a minha assinatura desde o título até o ponto final. Ufa!
Pode até parecer que acaba aqui, mas depois que as palavras voam, como as penas do travesseiro, e você se expõe, mesmo que seja através da ficção, é como se mais um portal abrisse no seu vórtice de vida e outras possibilidades de existência se construíssem. Não quero trazer um desabafo. Seria muito cruel comigo mesma desabafar para o universo, corre o risco de ecoar e eu escutar por muito tempo a minha própria voz. Seria muito trágico. Credo! Mas como forma de justificar a minha ausência na última semana, pois, quando todos os pratos equilibrados caem no chão, o estrondo é tão grande que silenciam todos os meus pensamentos, até os mais simples e perversos.
Afinal, precisa de um novo denominador para fechar a conta que nunca bate.
Sobre a autora:

Ludimilla Barreira
Mulher de muitas camadas. Mãe em um mundo real, embora a cabeça viva na terra da imaginação. Leitora, sonhadora e observadora da vida. Escreve para manter viva em si mesma e naqueles que a leem a esperança de que podemos ser e viver na realidade que criarmos, ainda que o mundo fora de nós conte outra história.
