Se “o homem é um animal político” como dizia Aristóteles e o escritor é um homem, na acepção ampla da palavra, logo, ele é um ser político.
Se “o homem é um animal político” como dizia Aristóteles e o escritor, na acepção ampla da palavra, vale-se da linguagem para criar suas produções literárias, logo, ele reveste a linguagem de uma roupagem política – uso da retórica, da gramática, da semântica, da lógica, da dialética, isto é, um conjunto de estratégias para que o leitor/a leitor pense/reflita/pondere com aquele que escreve.
Ciente de que a linguagem se veste da ideologia, do apelo emocional e dos sentimentos de quem a escreve, Platão propôs a expulsão dos poetas de sua cidade ideal na obra A República, porque considerava que eles ameaçavam à ordem racional da sociedade na qual estavam inseridos.
Tempos depois, passou-se a queimar os livros. Em 1937, sob o pretexto de combater a “propaganda comunista”, mais de 1800 livros foram queimados em Salvador, na Bahia. O foco principal era os livros do escritor Jorge Amado, especialmente o clássico Capitães de Areia.
Na atualidade, as obras são censuradas, como é o caso do Avesso da Pele (2020), vencedor do Prêmio Jabuti, de Jeferson Tenório, dentre tantos outros. Sendo uma arte política, criou-se a ordem para impedir que a literatura chegue aos leitores – Expulsar, Queimar e Censurar. Um povo instruído é perigoso!
Acontece que sou de uma geração que foi educada para acreditar que a “linguagem é neutra”, que é preciso manter a neutralidade, especialmente quando se é uma pessoa pública, e que o pesquisador deve manter “a neutralidade diante do objeto pesquisado”. Por muito tempo “acatei” tais ensinamentos, mas nunca acreditei neles.
Também fui orientada a seguir a “objetividade científica”, imparcialidade, mas é ilusório acreditar que se pode observar o mundo a partir do nada, de um lugar neutro, descorporificado e universal. Leonardo Boff diria que “Todo ponto de vista é a vista de um ponto”.
Quando escolhi o poeta Carlos Drummond de Andrade como objeto de pesquisa, o elegi porque ele me disse em seus poemas que um anjo torto, daqueles que vivem na sombra, disse: “Vai, Carlos, ser gauche na vida!”, isto é, torto, melancólico, à esquerda dos acontecimentos. Se não bastasse, ele teria poucos, raros amigos, se sentiria solitário e desprotegido a ponto de questionar:
“Meu Deus, por que me abandonaste?
Se sabias que eu não era Deus
Se sabias que eu era fraco” (Poema de Sete Faces)
Escolher Drummond como objeto de pesquisa funcionou para mim como um espelho existencial, psicológico, cultural e linguístico. É o que chamam de “ressonância estética”, quando o mundo interno do autor se alinha perfeitamente como o mundo do leitor. Aos vinte anos eu me sentia gauche.
A literatura me possibilita me ler na história do outro. A literatura capta o Zeitgeist (o espírito do tempo). Senão vejamos:
Carlos Drummond de Andrade enxergava o mundo a partir das montanhas de Itabira de Mato Dentro (Minas Gerais);
Clarice Lispector observava o mundo a partir dos destroços do país que nasceu e nunca pisou (Ucrânia) e na chegada ao Brasil;
Guimarães Rosa sentia o mundo a partir do sertão, que estava “em toda parte”, porque acreditava que “o sertão está dentro da gente”;
Cora Coralina poetizava o mundo a partir dos becos, das ladeiras e das igrejas de Goiás;
Rachel de Queiroz reparava o mundo a partir do Ceará e de Quixadá – Fazenda Não me Deixes – onde vivenciou de perto a dura realidade da seca;
Jorge Amado via o mundo a partir da Bahia, por isso a retratou de forma visceral e contrastante;
Manoel de Barros sentia o mundo a partir do seu quintal: maior do que o mundo;
Milton Hatoum percebe o mundo a partir do território amazônico, que lhe serve de moldura geográfica e afetiva;
Martha Batalha escreve o mundo a partir de suas experiências enquanto repórter durante anos nos jornais O Dia, o Globo e Extra etc.
Assim como Fernando Pessoa, todos nós observamos o mundo a partir da “nossa aldeia”. Portanto, os saberes e as criações literárias são situados (vêm de um corpo específico situado no tempo e no espaço). É urgente assumir nossa responsabilidade pelas visões de mundo, pelo dito e pelo não-dito. É preciso rejeitar o positivismo romântico (que defende a neutralidade absoluta), assim como o relativismo radical, que defende que todas as versões têm o mesmo peso.
Você acredita mesmo que a escritora Conceição Evaristo não ingressou na Academia Brasileira de Letras (ABL), no ano de 2018, porque não tinha “competência literária”?
Você acredita mesmo que os influenciadores digitais que divulgam plataformas (bets) não têm responsabilidade no endividamento de milhares de famílias e o adoecimento mental delas? Você acredita mesmo que eles estão apenas “fazendo publicidade”?
Você acredita mesmo que censurar/queimar livros contribuirá para manter os “bons costumes” e/ou silenciar temas “incômodos”: racismo, marginalidade, misoginia, gravidez na adolescência etc.?
É fundamental que os professores entendam que o ensino é um ato político e que uma “obra literária é um objeto social”. Para entendê-la, é necessário conhecer quando foi produzida, por quem foi produzida, qual a posição que o autor ocupa na sociedade e qual a sua intenção, uma vez que a Literatura como toda obra de arte veicula uma mensagem.
Concordo quando um dos mais influentes e controversos críticos do século XX, Ezra Pound, que afirmava que “os escritores são as antenas” do seu tempo e “captam os acontecimentos de suas épocas e os refletem em suas obras”. Não existe literatura desconectada da realidade. Os escritores registram e questionam a realidade da qual estão inseridos.
A literatura é linguagem e linguagem é poder.
A literatura lida com dilemas humanos, desigualdades sociais e pautas humanistas. Sendo forjada por seres políticos, é uma arte política.
Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva
Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler

Parabéns, Luciana! Obrigada por todas as palavras. Refelti muito sobre qual autor me identifico, assim como você fez com Carlos Drummond.
Que texto bem fundamentado. Amei suas referências, Luciana. Parabéns!
Fiquei pensando: Linguagem é poder se não for neutra.
Sou poeta e contista cearense. Parabéns pelo texto, além de muito bem escrito, traz essa discussão tão importante sobre sensura e imparcialidade na Literatura. Acerca desse tema escrevi um poema que foi finalista numa Antologia do Selo Offlip de Paraty chamado Versos Em Auschwitz. Se vocês tiverem interesse posso enviá-lo. Parabéns pelo trabalho de vocês. Um abraço.