A produção literária no Ceará, ao longo dos séculos, foi/é forte, diversa, mas nem sempre com o devido reconhecimento do cenário nacional. No século XIX (entre 1870 e 1900), a capital de Fortaleza viveu um grande período de efervescência cultural chegando a ter registros de pelo menos trinta e sete agremiações, como Clubes e Gabinetes de Leitura, Grêmios Literários etc. Não podemos deixar de lembrar da Padaria Espiritual (1892-1898), cuja missão era fornecer o “pão do espírito” (Arte, Literatura e Crítica Social) à população.
Pelos idos do século XX, a classe média que surgia trazia consigo um grande interesse por atividades ligadas ao universo das letras e das artes de modo geral. Tanto os grupos literários, como as atividades por eles desenvolvidas, expressavam o desejo por uma sociedade moderna, civilizada e aberta a novos tempos.
Em outras palavras, o objetivo era a formação de um público leitor, já que antes do surgimento destas associações não havia nenhum incentivo às artes e aos artistas, além é claro, de divulgar as produções literárias dos escritores interessados nas letras e nas ciências que se organizavam em torno de tais instituições.
Este período contou com nomes de referência no cenário nacional a exemplo de Antônio Sales (Aves de Arribação), Adolfo Caminha (A Normalista), Antônio Bezerra (Sonhos de Moço), Rodolfo Teófilo (A Fome), dentre tantos outros, que não só fundaram, mas consolidaram a identidade literária do Ceará e projetaram o estado nacionalmente.
Leitura e escrita, historicamente, foram tratadas como instrumentos de poder e de privilégio, restrito quase que exclusivamente aos homens brancos e de famílias abastadas. Por isso, dificilmente encontramos o nome de uma escritora neste período. As mulheres, quando apareciam nas narrativas, ocupavam a condição de personagens, a saber:
Iracema – que leva o nome do romance indianista de José de Alencar, índia da tribo dos Tabajaras, a “virgem dos lábios de mel” e a guardiã do segredo da jurema. Morreu esperando o homem amado, Martim.
Maria do Carmo – personagem do romance A Normalista de Adolfo Caminha. Órfã de mãe, foi criada pelo padrinho, João da Mata, enquanto a família procura sobreviver a seca. É seduzida e engravida do tio.
Luzia – personagem do romance Luzia-Homem de Domingos Olímpio. Jovem sertaneja, retirante com uma força extraordinária. Rejeita o assédio do soldado Tereso e é brutalmente assassinada por ele. Hoje, esse crime seria chamado de Feminicídio.
Maria Francisca de Paula, “Marica” Lessa, eternizou-se nas letras cearenses quando Oliveira Paiva a representou pela heroína Guidinha, do romance Dona Guidinha do Poço. Acusada de mandar matar o marido, é presa e perde todos os seus bens.
Vale salientar que a mulher não só aparecia nas narrativas como personagem, muitas vezes idealizada, perdição moral, estereotipada e quase sempre com um final trágico. Raramente possuíam profundidade psicológica.
Na obra O Riso da Medusa (2022), a escritora francesa Helèle Cixous encoraja as mulheres a escreverem. A escrita é uma ferramenta para destruir um sistema falocêntrico que privilegia o masculino e subalterniza o feminino.
Penso que as romancistas, poetas, cordelistas cearenses contemporâneas escutaram a esse chamado, pois hoje elas figuram nas listas literárias como as mais vendidas, a exemplo de Amar é inadiável, da Socorro Acioli, um dos livros mais vendidos na Flip 2026 (Festa Literária Internacional de Paraty); A Filha Primitiva (Prêmio Kindle de Literatura), de Vanessa Passos; Boca do Inferno e Dias e Dias (Prêmio Jabuti), de Ana Miranda; Redemoinho em Dias Quentes (Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte – APCA), de Jarid Arraes; Salvaterra (20 Prêmio Barco a Vapor), de Marília Lovatel, São delas os olhos inquietos, de Maria Vitória, Esvai, de Carolina Campos e Guerra no Sertão, de J. Cavalcante, obras contempladas com o Prêmio Literário Carolina Maria de Jesus.
A escrita feminina é uma tática política para que as mulheres se reinventem individual e coletivamente e, dessa forma, rompam com os ditames da sociedade patriarcal.
A escrita feminina se configura como uma arma para combater a opressão de gênero e construir uma literatura menos excludente ao trazer vivências silenciadas e marginalizadas historicamente.
A escrita feminina é uma resposta às estruturais patriarcais de uma sociedade que teima em querer aprisionar a mulher ao espaço privado.
A produção literária cearense permanece rica e diversa, mas em nossos tempos, ganhou vozes femininas que transformaram a paisagem cultural, literária e editorial do país.
Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva
Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler
