Não sei onde Ju estava; não sou tão próximo dela, mas sempre falo quando a vejo.
Acredito que foram 12 tiros. Era meia-noite, e o silêncio tomava conta do medo. Olhava pelas frestas, parecia que todos olhavam pelas frestas. Depois de algum tempo, vi um carro passando lentamente; suas luzes brilhavam. Era polícia.
Pela manhã, a gente fica sabendo das coisas na bodega. A informação era que não havia nenhum ferido nem morto, mas a porta de vidro da boutique de Ju ficou irreparável.
Desde então, não vejo Ju. Ouvi falar que ela anda chorando.
Se fosse comigo, acho que chorar era o de menos. Eu só sou valente nas palavras, qualquer grito já me faz tremer todo, e corro para o banheiro. Ando com o coração fraco. Desligo a televisão quando o assunto é morte. Ando assustado: qualquer bexiga estourada já me faz deitar no chão.
Ju tá viva, não sei por onde, mas acredito que ela esteja morta, porque nem todo vivo está vivo.
Sobre o autor:

Alexandre Lucas
Alexandre Lucas é escrevedor, articulista e editor do Portal Vermelho no Ceará, pedagogo, artista/educador, militante do Coletivo Camaradas e a integrante da Comissão Cearense do Cultura Viva.
