Sou pra mim

Eu sou a que rega as flores que nascem nos meus pés descalços

sou a mulher que se espraia, que ressurge, que cintila

sou a que atravessa os portões, a que ousa chegar

sou a que arranca as heras dos meus sonhos dormidos

sou a que cheira a mato, a grão de café estendido ao sol

sou capim santo, lavanda, cidreira

sou gosto de siriguela escorrendo na boca

sou o entardecer e as cores explodindo no céu da manhã

sou a força que brota da terra lavada

sou a cor escura das sombras noturnas

sou a que sente nos pés a terra nas tardes de chuva

sou a que tece estrelas nos buracos da minha alma

sou o colo em que me aninho

sou medicina pras minhas angústias e medos imensos

sou unguento pras minhas feridas ancestrais

sou as ervas que perfumam o meu sangue

sou a calma pro meu coração que chora

sou o chão em que me deito nos momentos de dor

sou o abismo no qual me jogo, sem galhos, raízes ou cordas pra me segurar

sou os olhos que sustentam meu pranto nos dias de tempestade

sou a seiva que dá vida às margaridas que esplendem no meu corpo lanhado

sou todas as canções que eu gostaria de ouvir

sou a que honra as que vieram antes de mim

sou as mãos em prece, me protejo, me curo, sacio minha fome de amor

sou a imensidão do meu anseio de ser

Eu sou pra mim.

Sobre a autora:

Dina Melo

Amante das árvores, das nuvens, do vento, das águas e do som das palavras. Pés no chão, cabeça nas estrelas, sol em Touro e lua em Gêmeos. Herdou a força e a ligação com a Terra das suas ancestrais Tabajaras da Serra da Ibiapaba. Estudou Direito na UFC e é servidora do TRT Ceará.

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