Todo mundo tem uma história para contar. Afinal, as histórias nada mais são que recortes da nossa existência, da nossa passagem pela vida. A bem verdade, quando me refiro a todo mundo estendo tal denominação até para os animais. Escrevo isso enquanto observo minha filha de quatro patas perseguir curiosa o grilo que entrou pela fresta da porta. Se pudesse falar, certamente conseguiria narrar suas impressões sobre tal aventura, suas histórias.
Acontece que, diferente de nós humanos, os animais não conseguem externalizar seus pensamentos. Dos muitos privilégios que a raça humana possui, escrever é de longe um dos maiores. A escrita é a forma mais singela de materializar nossos pensamentos, sentimentos, emoções e teorias. É trazer para o mundo real aquilo que estava guardado apenas no imaginário.
Para além de materializar as palavras – os ditos e os não ditos – a escrita é também um poderoso mecanismo para decantar os pensamentos, ante que eles ganhem o mundo através da fala. A escrita é paciente e autoriza que as palavras sejam melhor selecionadas e que, desse modo, sejam as frases mais fiéis à informação que se pretende passar.
Para mim, antes de falar, nada melhor que escrever e ler o que se escreve, para só então constatar a dimensão do pensamento e a sua conexão (ou não) com a realidade. E, é justamente por isso que quero escrever, para entender melhor os pensamentos e sentimentos que me habitam. Quero vê-los e não apenas senti-los. Quero compreendê-los e talvez assim compreender um pouco mais sobre mim mesma. E, já que é essa a minha missão, porque não encontrar uma forma bonita de realiza-la?
A “beleza” do escrever é certamente um dos meus maiores calos. Eu simplesmente não sei dimensionar em que medida aquilo que escrevo é bonito, adequado ou bom e isso me trava. Talvez eu devesse me questionar mais sobre “para quem” aquilo que escrevo é bonito, adequado ou bom, qual o parâmetro de qualidade que desejo atingir. A verdade é que escrever sobre mim, sobre meus pensamentos não é nenhum sacrifício. É um deleite!
Eu preciso apenas de uma caneta e um papel, a partir daí o céu é o meu limite. No entanto, pensar em como as minhas palavras serão vistas pelo mundo corrói meu processo criativo. Prefiro guardar apenas para mim aquilo que escrevo. Pura insegurança e imaturidade…reconheço! Por isso, quero me valer de absolutamente tudo que possa melhorar minha escrita e simplesmente escrever.
Procurar um curso de escrita literária e revelar ao mundo os escritos que guardo só para mim já representam grandes passos para quem tem vergonha do que escreve. E nesse processo estou disposta a tudo mesmo. Quero verdadeiramente me lançar em tudo que me for proposto, sem pejo, sem medo e sem dúvidas.
Quero me dedicar à escrita autobiográfica porque escrever, para mim, é um método de autorregulação emocional. Escrevo essas palavras enquanto ouço Paulinho Moska cantar que “já matou alguém mil vezes para tentar esquecê-la e ainda assim não conseguiu superar a dor do fim de um relacionamento”. Em que outro espaço teríamos tanta liberdade para escrever tamanha aberração, sem qualquer espécie de julgamento moral ou criminal? Só na poesia mesmo resguardados pelo conforto que a licença poética nos proporciona.
Quero poder contar tudo que me atravessa em contos e crônicas. Até porque, modéstia parte, vivo tão intensamente cada dia da minha vida, faço tantas coisas que decerto cada experiência pode render uma bela história no papel.
Quero me valer de tudo que a Língua Portuguesa autorizar ou até mesmo transgredi-la, quando necessário for. Quero escrever prosa e poesia, usar figuras de linguagem, quero conversar com as músicas que escrevo, através da intertextualidade.
Eu só preciso que meus textos sejam a minha cara, que todos saibam que sou eu ali, principalmente as mulheres! Ah…as mulheres!!! São elas a quem quero proporcionar momentos de identificação, acolhimento e descanso.
Sobre a autora:

Raynara Souza Andreza
Caririense de Barbalha na Certidão de Nascimento e no coração. Advogada com alma de artista e mãos de xilógrafa. Troco salto por bota de trilha e tênis de corrida, processo por poema, tela de celular por agulha de crochê e Netflix por rede na varanda com livro no colo. Escrevo para mulheres e, principalmente, para a mulher que habita em mim. Entusiasta de tudo que torna o viver mais bonito, sobretudo o cafezinho coado na hora, enquanto admiro o pôr do sol no climinha ameno do Caldas.

Adorei!
Compartilho do desejo, de decantar os pensamentos sobre folhas em branco…
Abração