Há alguns dias, me inquieta esta questão, por ocasião de um procedimento cirúrgico o qual fui submetida (retirada de um cateter para quimioterapia), meio pelo qual ocorreu a infusão do tratamento de quimioterapia que realizei no período de fevereiro a setembro de 2022.
É indicado que este equipamento permaneça inserido no paciente oncológico até que, passado o tempo, aumente a margem de segurança de que não ocorrerá recidiva de câncer. Logo, retirar o cateter, foi sonhado por mim, por nós. Isso significa que, ele se tornou desnecessário, espero que para sempre. Assim, após aproximadamente quatro anos, o procedimento de retirada do dispositivo, foi realizado por um cirurgião vascular.
Retirado com êxito, vem as recomendações do pós cirúrgico. Ditas pessoalmente pelo médico e demais orientações impressas em informativo: “VIDA NORMAL”, caminhadas leves.
Eis a questão, vida normal para quem? Em minha vida normal – rotina: na academia de segunda à sexta-feira, eu treino musculação e caminho 3 Km na esteira, ao todo cerca de uma hora e meia de exercícios diários. Faço algumas atividades domésticas, leio um pouco, estudo, e no início da tarde, vou para o meu consultório de Psicologia, onde geralmente atendo de 14h às 21h, para tanto, eu me desloco dirigindo uma distância de aproximadamente 20 Km, incluindo o percurso ida e volta, entre os municípios de Barbalha a Juazeiro do Norte/CE.
Esta é a rotina da semana, no final de semana, no sábado pela manhã, vez por outra, vou caminhar cerca de 4 a 5 Km, no Parque da Cidade, em Barbalha. Não com a mesma frequência, também tenho a alegria de fazer trilha na Chapada do Araripe, atividade que desfruto, na maioria das vezes na companhia da minha filha e meu genro (sou sempre grata por esse presente, em forma de vivências com a natureza). Tudo isso, compõe a minha VIDA NORMAL.
Estando um pouco insegura com a afirmativa do médico sobre a indicação de “vida norma” e caminhada leve, pedi por mensagem de texto que ele me explicasse melhor, haja vista, o termo sugere uma generalização para algo totalmente relativo de pessoa para pessoa. Qual a minha surpresa, quando ele esclarece que eu deveria passar quinze dias sem treinar e sem dirigir, acrescentou que, caminhada leve significa que poderia ir à missa e ao shopping.
Claro, fiquei perplexa, até agora não entendi como uma recomendação com tais restrições, sugere a ele que seria para mim, “vida normal”.
Alguns dias depois, respondi a indagação de um jovem de dezessete anos, que gentilmente perguntou sobre o meu estado de saúde. E ao responder, não resisti e comentei em poucas palavras, este fato que para mim foi bem curioso e incômodo. Ele, instantaneamente relacionou ao tema da redação do ENEM / 2025: “Perspectiva acerca do Envelhecimento na Sociedade Brasileira”. E levantou a hipótese que, a ideia de “vida normal” que o médico supôs para mim, paciente idosa de 62 anos, claramente poderia ser uma manifestação de etarismo, que consiste em preconceito e discriminação por motivo da idade, comumente dirigido à pessoa idosa.
Pensando um pouco sobre a observação do jovem interlocutor, me anima que ele, em sua tenra idade, perceba nuances de uma sociedade por vezes idadista. Quicá ele contribua de alguma forma para a construção de uma cultura de valorização e respeito à pessoa idosa.
Enfim, a minha intenção em compartilhar a minha indignação tem o propósito de levantar a reflexão acerca dos riscos e equívocos provenientes da generalização, sobretudo, em aspectos absolutamente subjetivos, peculiares do existir humano em suas respectivas fases, cenários e circunstâncias. De forma que, seja considerada a subjetividade de cada pessoa, de cada ser único e inigualável. Como diz Marcelo Jeneci, em sua canção: Sou eu sou eu, sou eu sou eu, além de mim, não há ninguém que seja eu.
Sobre a autora:

Júlia Barreira
Aprendiz da vida, mãe realizada, leitora apaixonada, engajada em causas que promovem o respeito e a dignidade, buscadora de sentido, protagonista de uma
velhice vivida com liberdade e propósito. Psicóloga, especializada em Logoterapia e Análise Existencial, especialista em Gerontologia.
