Colcha de Retalhos

O amor pelos livros mudou a minha vida. Penso que tudo começou pelas estórias de Trancoso que meus pais contavam. Depois de alfabetizada, lia tudo que podia. No início do ano letivo, quando meu pai chegava em casa com meus livros novos não me aguentava de tanta curiosidade. Ia logo folheando e lia em voz alta.

Certa vez, estava lendo uma sequência de texto do livro de português do terceiro ano. Então chegou a vez da “velha contrabandista” de Stanislaw Ponte Preta. Meu pai, um homem muito sisudo, parou e ficou ouvindo a leitura atentamente. Eis que, quando terminei de ler esse texto, ele caiu na gargalhada. Curioso que gosto de lembrar desse episódio, porque naquele momento não sabia se pai estava rindo de mim ou da esperteza da velha da lambreta. O fato é que naquela hora descobri que sabia o que estava lendo. Lia até os livros das tias que estudavam em séries bem mais avançadas. Um belo dia, descobriu uma biblioteca na rua do querido Tio João. Daí em diante minha paixão pelos livros só aumentou.

Lia por fruição. Alguns clássicos vieram ao meu encontro e marcaram minhas primeiras leituras: Poliana (Eleonor Porter); A bruxinha que era boa (Maria Clara Machado), O pequeno príncipe (Antoine de Saint-Exupéry),  O tronco do ipê (José de Alencar), contos de Fernando Sabino…  Era a minha melhor brincadeira. Mais tarde, conheci vários outros escritores que me ajudaram em algumas reflexões e indagações: Raquel de Queiroz, Ana Miranda, João Ubaldo Ribeiro, Adélia Prado, Jane Austen, Vitor Hugo…Costumava fazer anotações relacionadas a situações que me incomodavam… Ainda hoje procuro respostas, algumas descobri mais recentemente.

Comecei a escrever ficção inspirada na minha própria memória. Através dela, posso revelar fragmentos remotos de diferentes costumes ainda presentes, sobretudo, em cidades interioranas, onde muitas mulheres não conseguiram continuar nesse embate que é travado em nossas vidas dia após dia. Dei o primeiro passo tentando voltar ao que importa porque entendi que, o que me salva talvez salve outro também.

O alicerce está nos primeiros anos da minha infância, onde muitas vezes não sei se é memória ou invenção. Muitas vezes me pergunto o que precisa ser dito, por isso vou juntando os retalhos com paciência, mesmo que não se encaixe à primeira vista. Trazer para os dias de hoje lembranças de um passado, pode parecer desinteressante. Tempos diferentes, significados diferentes. No entanto, se em algum ponto, o leitor se reconhecer; se alguma frase fizer uma pessoa parar e lembrar do seu próprio medo, do seu próprio tempo, da sua própria dor, da sua esperança, então o esforço vale a pena.

Quero falar de mulheres que, apesar de viverem situações de vulnerabilidade, foram importantes na vida de outras e continuaram invisíveis. Olhando para trás, percebo o quão difícil é revirar memórias sem questionar a forma como alguns fatos se sucederam. Por este e outros motivos, mulheres que tanto admirava, viram personagens. Cada história é escrita para dizer: eu não esqueci de vocês.

Com as provocações de Luciana Bessa, descobri que tenho um Projeto literário, mas não estou preparada para cutucar o que a gente finge não vê.

Todos têm uma história para contar, mas a forma de escrita é bem particular para cada um. Escrever é uma ação perigosa e transformadora. Clarice Lispector diz que “Escrever é tentar fazer o que está dentro chegar fora. É transformar o que você descobriu em algo que outra pessoa pode alcançar”.

E eu me pergunto: a minha vontade de escrever, tem a ver com ego? Com a minha vaidade?

Não. Acredito que seja uma necessidade de reinventar a maturidade, pensar o envelhecimento de uma forma leve. Nossas palavras são reflexos daquilo que guardamos no nosso íntimo.  Têm coisas que só com o passar do tempo conseguimos enxergar.

Tento uma escrita em prosa com histórias curtas ou longas, contanto que exista uma construção narrativa que seja relevante no ato do transbordar (a boca fala do que o coração está cheio). Penso quais são os estranhamentos que eu provoco, onde o foco está nas questões existenciais, desigualdades sociais e de gênero, puxando um pouco para o lado místico e fantástico para falar do lugar de onde venho e por onde andei.

Escrevo com o coração. Escrevo para lembrar, para esquecer, para curar, revelar fantasmas…  Escrevo para colocar a minha emoção no papel sem a condicionar a uma tese, apenas seleciono pedaços de pano que sobraram e vou tecendo uma colcha que, de alguma maneira, sirva para aquece alguém.

Aprendi que a noção de autoria se dá com muito estudo, é algo para eu pensar e escolher o melhor retalho, a melhor palavra em cada contexto que pretendo escrever. Estou confiante porque me encontro no lugar certo, onde mulheres mais jovens do que eu, me ajudam a descobrir, quais pedaços devo costurar e quais devo jogar fora. No Curso de Escrita Literária tenho um ambiente de troca e muito aprendizado.

Sobre a autora:

Janir Ribeiro

Professora, historiadora, apaixonada por narrativas que cruzam realidade e imaginação. Nasceu no interior cearense em 1962, esposa, mãe e avó coruja. Em trinta anos de experiência na escola pública desenvolveu trabalhos de incentivo à leitura e à escrita com alunos do ensino básico. Publicou em 2024 o livro de contos “Memórias de Lince” pelo Selo Auroras, da editora Litteralux

One thought on “Colcha de Retalhos

  1. Texto inspirador, pela sua história e pelo sentimento que carrega. Tive a oportunidade de ler também a obra, Memórias de Lince, é intrigante, misterioso e nostálgico. Um livro que confesso ter lido mais de uma vez, pois a cada término da leitura, tenho uma imersão naquelas estórias.

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