A noite da agonia

Sentada ao lado da porta, olhava para a estrada que passava em frente à sua casa. Era um local movimentado, por onde trafegavam muitos carros, edestres e animais. Porém, do aceiro da pista até a porta de entrada, dava pra sentir a transição entre o movimento e a inatividade.

Havia uma árvore que sombreava e demarcava a passagem para o seu terreno, onde apenas era possível sentir o vento e perceber os galhos do velho pé de pequizeiro se mexendo.

Naquele lugar, não sentia o tempo passar como as horas do relógio, mas pela mudança do dia e a chegada da chuva. Também, pela necessidade de outro caminhão-pipa, as compras medidas e contadas que deveriam durar até o último dia do mês e as visitas do filho que morava longe.

O sol aparecia preguiçoso na manhã fria. Estava sentada no mesmo lugar desde quando a chuva levou a luz e apareceram nuvens escuras sem estrelas. Dias assim eram difíceis, pois seu corpo, fragilizado de dores, se retesava com aquele frio, e ela já não tinha forças para acender o fogão a lenha para espantar a murrinha.

Não sabe o que significava aquela ausência de gemidos, tem apenas consciência de que não aguentava mais ouvi-los. Tentou fugir, mas não conseguiu ir longe. Sentada. Mexia os olhos na vã tentativa de captar algum movimento dentro da casa. Tudo era repouso. Tudo era ausência de vida.

Tentava se convencer de que até então era uma sobrevivente, recontava mentalmente a sua história. Nasceu desenrolada no mundo, pois nem coberta sua mãe tinha para proteger seu corpo. Não se entregaria. Era lúcida. Sua cabeça fervia de pensamentos, talvez para compensar suas pernas. Apertava os dedos em um pedaço de pano e sentia o calor do atrito. Pele e pano.

Percebeu o sol, mas não o enxergava no horizonte. Acreditou que seria hora do almoço, pois as sombras se recolhiam dentro do perímetro das árvores. Ninguém apareceu para ter notícias suas. Pensou que talvez fosse melhor ir morar com o filho naquela cidade longe. Teria alguém para dar conta da sua existência.

Não tardou e apareceu uma alma viva perguntando a mulher se ela já tinha se alimentado naquele dia. Ela balançou a cabeça com um sinal negativo. Não tinha água nem saliva para umedecer a garganta.

Tomou um gole. Dois. Comeu pirão quentinho.

Abriu lentamente os olhos, incomodados com as luzes piscando. Ouvia vozes que não conhecia, todas dentro da sua casa. Estava na sala, sentada no sofá.  Como chegou até ali? Seu corpo estava totalmente dormente.

Percebeu que não tinham gemidos, apenas vozes desconhecidas. Não tinham gemidos. Onde ele estaria?

A alma viva aparece em sua frente. Coloca a mão em seu ombro e diz que ela precisa ser forte para suportar o que virá. Ela acena com a cabeça, como se estivesse entendendo. E pensa: Forte? Quando fui fraca?

A pequena sala tomada pela cama de rodas e um amontoado coberto com um lençol. Um desconhecido pede que ela assine um papel. Ela nega com a cabeça. Alguém explica por ela que o lado direito de seu corpo não mexe. Ela tem vontade de puxar o pano. Era o único lençol da casa que não tinha rasgos e ela usava para se cobrir nas noites frias, precisava dele.

Seu marido, enrolado em um lençol sem furos na grande cama com rodas, não precisaria dele.

Finalmente, os gemidos acabaram.

Sobre a autora:

Ludimilla Barreira

Leitora, sonhadora, eterna estudante e observadora da vida. Além disso, é bacharel em Direito, especialista em Direito Público, servidora do executivo estadual e defensora da igualdade.

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