Sopro


No âmago de mim, calejado
Contemplo a vida como se

Ela repousasse ao meu lado,
Ninguém  escapa.
O tempo é voraz, a finitude nos embosca.

E o que sobra só são vestígios
Que o tempo tem o encargo de dissolver.
Nada aqui é perene,
Nem mesmo a tão almejada existência plena,
Um dia há de cessar.

Onde jaz Bob Marley
Salmodiando o amor?
Onde jaz Kurt Cobain,
Amparando seu abismo no braço
Quanta dor…
Tudo escoa, é fato.
Onde jaz Marliym Monroe,
Opulenta de vaidade e formosura?
Hoje entendo ídolos não se idolatram.
Corpo e conceito apodrecem na mesma cova.

Não sou saudosista ou profeta do fim,
Enxergo com pupila de um realista.
Não me taxe de sombrio ou niilista,
Estou apenas em autópsia da alma.

Quem sobreviveu das muralhas da china?
Onde andam os que habitavam Nagasaki e Hiroshima?
Minha meninice e juventude evaporaram,
Para onde foi o jubilo da conquista que o tempo me confiscou?
Infância folguedo e gargalhada,
Juventude, insurgência e rebeldia,
Maturidade, fardo à revelia.
O ônus de existir me esmagava.
Hoje resido numa lúcida melancolia.

Somos forasteiros em trânsito,
Tudo não passa de um devaneio
Que simula ser longo, mas  é travessia breve
Perseguir o vento bradou o Eclesiastes,
E nos foi negado conhecer o roteiro antes
A vida é um sussurro
Uma quimera, um imenso engodo.
Confunde vísceras e juízo
Até revelar que tudo é um elo simples
Travestido de complexo.
Hoje partilho o pão com lúcidos e insanos
Por desembocar na mesma sentença.

Sobre o autor:

Fabiano Santiago Lopes

Poeta do cotidiano que ama as letras e as arte. Ele coloca o seu pensamento e opiniões nos seus poemas e nos relatos de sua história.

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