Hálux

O sono veio como de costume, com os estertores calorentos e sufocantes da meia noite, e a inseparável gata gorda prostrada aos seus pés.

Pouco antes, o “beliscar” da fome imensurável antes de dormir, que deve alimentar os sonhos de tão urgente que se impõe às portas da madrugada. Eis o que temos: pão sovado meio seco, frango desfiado gelado e o resto da salada do almoço, porção dividida com a opulenta e inseparável sombra felina que tudo come, voraz, mordendo meus dedos que a alimentam.

Inimputável.

Saciadas, só então cedem ao generoso convite do cálido claustro do sonhar.

Antes, olhada fugaz última e desinteressante nas redes sociais de inservíveis informações aleatórias.

Dormimos como todas as noites, a gata próxima, aninhada, calor compartilhado, quarto mal climatizado, completamente escuro.

Silêncio.

O sono jamais demora. Três contas do terço mentalmente desfiado e já perpassa, por vezes antes, o portal misterioso de Morfeu.

Torpor profundo do corpo garantindo total entrega mental aos deleites oníricos, vem hoje ao meu encontro, no cenário que se apresenta em sonhos, apenas a continuidade dos pensamentos de mais cedo; receosa em ativa organização de uma recepção para amigos ainda naquela semana… havia uma mesa posta, lanternas japonesas mal penduradas ao ar livre do jardim.

Furta abrupta minha atenção um vídeo banal na rede social: um rapaz cria um filhote de lhama bicolor desconfortavelmente magnífico, em sua casa, penso como intimamente invejo o espaço de quem vive em casas com fartos espaços verdes, a exuberância da terra fofa onde fantasio plantar ervas aromáticas e medicinais, jabutis que sumissem nas moradas de minhocas por sob a utópica horta de devaneio onde eu plantaria cebolas e cheiro verde, tomates-cereja, hortelã e alecrim.

A atenção roubada por um vídeo aleatório dentro do domínio sonho retorna ao cenário inicial da organização do evento.

Tem pessoas chegando, terei copos suficientes em casa? Guardanapos?

Um homem alto de barba, que não identifico o rosto, chega com seu jovem rebento de vivos olhos curiosos nos braços. Empolgado, comenta comigo, que sou sua amiga e anfitriã, sobre uma nova tatuagem, que traz esboçada num papel: um alvo cavalo e um homérico corvo soturno, entrelaçados numa dança improvável. Notório é o movimento da imagem, como uma fotografia holográfica, embora monocromática.

Não me encanta, reajo por educação exibindo os dentes. Apática.

Ele passa a criança para os braços de sua companheira, mulher radiante com a beleza particular das genitoras recém paridas, mães que guardam um resplendor hipnótico da nutriz de muito mais do que lhe transborda os seios.

De súbito a criança está em meus braços, experimento o prazer pelo cheiro da pele delicada e fina, a fragilidade do universo que representa o menininho, a transfiguração sem meio termo de seus pais.

Pensa nos seus.

O quanto os adora com insanidade, jamais fui boa em maternar, me convenci exercendo o direito inalienável de convencimento por repetição alheia.

Eu estava vestida em fino traje, negro como sempre, desço apenas imediatamente dos saltos altos. Insegura, temo perder o equilíbrio portando um microuniverso nos braços. Cautela sincera, a mãe percebe o gesto mudo da linguagem oculta dos cuidados, por certo instintiva, conhecida por toda genetriz.

Então o tenho recostado em meu seio ressecado, carrego um milagre concreto e quente, por hábito, sinto ganas de dar-lhe o que comer, pergunta a mãe se pode oferecer algo.

Ela aquiesce.

Frango desfiado?

Claro!

O pequeno mastiga ávido, machuca seus dedos mesmo não possuindo dentes, dor que é carícia, estranhamente sentida nos dedos dos pés. Fixamos os olhares um no outro, eu e a criança, logo depois, o rosto infantil inicia uma transmutação oblonga, o nariz se projeta deformado, arrastando os olhos nesse movimento para a frente; todo o corpinho agora se faz escuro, as roupas são consumidas numa massa felpuda sem origem certa, abundante e peluda, macia; as mãozinhas em meu colo iniciam golpes diretos ao meu tórax, ficam mais e mais escuras, continua a morder, a dor agora é intensa, finos riscos machucados, entretanto a dor não existe nas mãos onde sou diretamente atacada, e sim nos dedos dos pés…

Acordo de súbito, gata gorda a degustar a extremidade do hálux, dedão do pé.

Não me exalto, a espanto com um beijo.

Meio desperta em plena bruma, no quarto fechado, com ventilador girando e ar condicionado, há um incômodo cheiro, embora distante de fumaça, é distante como uma mirra, usada como incenso litúrgico, seria quase agradável se não me doesse os olhos.

Algo está extremamente errado.

Ao meu lado, dorme o parceiro profundamente sob efeito da excessivamente consumida bebida destilada e medicação narcótica.

Respirava?

Não pensei nisso.

Levanto descalça, a gata aos meus pés, onde sempre dorme, mas jamais havia me mordido.

Ao abrir a porta do quarto, o branco do chão agora é o branco de tudo. Penso na cegueira branca do lusitano escritor ateu.

Foco.

Há densa fumaça, como de brasas a ocultar o caminho escada abaixo, pouco enxergo, sigo por hábito o caminho desaparecido, acendo luzes no trajeto.

O olfato guia o tato até um castiçal que fora negro, agora reduzido a brasas acima de um móvel de mesma cor no piso térreo.

Uma vela havia sido acesa diante da imagem de uma santa da qual não sei o nome, envolta em plástico, agora vandalizada pelas labaredas, felizmente ainda tímidas e lentas que queimavam lentamente o aparador de ébano. Na família há anos, móvel vetusto que eu detestava, tolerava por educação estética com dissabor, imaginava caixões abertos dispostos sobre o móvel, cheio de folhas secas.

Foco.

Sentia raiva pelo descuido alheio, alguém deixou uma candeia acesa.

Fui engolfada em ira ardente quando captei a desordem ao derredor: móveis e estofados cobertos por negra farelagem, eletrônicos, lustre, a memória arruinada dos castiçais onde quem acendeu a vela não percebeu serem de plástico. Fuligem consumindo toda a atmosfera que começou a estrangular meus canais lacrimais.

Ato.

Jogou a água de um copo que não lembro de onde peguei, fiz inventário mental dos estragos, meu diafragma arruinado. Abro as janelas, disperso o ar com as mãos, parecia que lutava aos tapas contra espectros copiosos, imateriais, a gata miando como quem chorava, bem longe.

Situação controlada, corpo trêmulo inundado de epinefrina natural.

Duas da manhã, retorna ao quarto, mas antes, inspeciona meus filhos no quarto contíguo ao meu.

Dormem alheios de quem os guarda, penso que eles ignoram com conforto quem vela aquele sono imaculado; atribuem a imagem de uma mulher de olhos mansos genuinamente e coração fora do peito perpassado por raios e rosas, imersos na áurea modorra da santidade, não essa genitora desalinhada descalça vagando madrugada adentro.

Não consigo mais dormir.

Deveria rezar o terço, a ladainha repetitiva me garante efeito calmante.

De rude arrebatamento sou violada: um desabamento inescapável de lágrimas.

Escrevo na penumbra por saber que no dia vindouro não lembraria dos detalhes

Escrevo.

Choro.

Durmo.

Já não sei precisar em que ordem de fatores se vislumbra um produto realista.

A gata prostrada em meus pés,

Quieta

Afinal o sono veio como de costume, com os estertores calorentos e sufocantes da meia noite…

Sobre a autora:

Meyreélen Lisieux Alves

Quando criança queria de todo o coração saber voar numa vassoura e ter poderes mágicos incontroversos. Se tornou servidora pública, advogada, professora, mãe, leitora contumaz e idealista nesse plano da matéria.

Todavia, se entende a voar por aí nos prados infindáveis da imaginação quando, no meio da rude improbabilidade da rotina, ela escreve.

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