Ela olhava, intrigada, aquela estranha brincando no chão da sala. Comprava muitos brinquedos para estimulá-la no desenvolvimento motor, no raciocínio lógico. Costumava levá-la à livraria para que folheasse, sozinha, os livros que mais lhe atraíam e também os comprava.
Os sapatinhos mais macios, as roupas mais confortáveis, caderneta de vacinação devidamente preenchida, parquinho no fim de semana, pediatra.
Fazia tudo o que, durante toda sua vida, aprendeu ser o ofício de uma mãe.
Descobrira a gravidez após alguns dias de enjoo. Adquirira o teste e, em alguns minutos, lá estava o resultado.
Marcara a médica para a semana seguinte. Ela prescrevera exames, vitaminas. Mensalmente reservava um dia na agenda para a visita obstétrica. Cumpria tudo como ordenado. Nutricionista, exercícios físicos, redução do estresse.
Desde que concluíra o doutorado e passara a lecionar, a intensidade da rotina dificultava à ida à academia, mas reorganizara e, três vezes na semana, voltara a nadar. Precisava ter o corpo preparado para o parto normal, segundo comentavam as demais grávidas do grupo que passara a frequentar aos sábados.
Acompanhada das mulheres da família, mãe, tias, irmã, primas e amigas organizara o quarto da menina. Tudo branco, cortina, colcha, almofadas. Os presentes foram chegando e preenchendo as prateleiras de cor. Bonecas, livros, brinquedos, um abajur que iluminava o céu do quarto de estrelas.
Prepararam também o chá de bebê. Brincadeiras, conversas animadas, gargalhadas e fraldas. Muitas fraldas!
As primas, algumas já mães, opinaram em tudo, qual a desmamadeira mais eficiente, a melhor marca de chupetas, roupas quentinhas para os primeiros dias, pomadas antiassaduras.
O dia do parto chegou e, rodeada pela expectativa e a força de tantas mulheres, após treze horas de dor, massagens, chás e agachamentos, a menina nasceu, rosada, firme, faminta. Plaquinha na porta, flores, lembrancinhas.
Quando levava a menina ao parquinho, sempre emergiam das conversas das mães os conselhos mais atualizados da Pediatria e da Psicologia. Era um emaranhado de informações que deveriam ser seguidas à risca, óleos essenciais para dormir, comer cenoura com as mãos, música relaxante na hora do banho. Ela corria os olhos entre uma e outra, com sua expressão de ouvir atenta.
Mas agora ali, no chão da sala, olhava para si mesma desconfiada. Repassava toda a gestação, os primeiros meses pós-parto. Quando deveria ter acontecido?
A menina a demandava continuamente, apontando as novas descobertas e balbuciando palavras incompreensíveis. Ela, imersa em seus pensamentos, balançava a cabeça afirmativamente.
Esquecera as recomendações. Não conseguira prendê-las todas no mesmo fio. O que deveria fazer mesmo, agora?
A campainha tocou, ela levantou de um salto. Abriu a porta para a babá, pegou sua bolsa e saiu para o trabalho.
Sobre a autora:

Dina Melo
Amante das árvores, das nuvens, do vento, das águas e do som das palavras. Pés no chão, cabeça nas estrelas, sol em Touro e lua em Gêmeos. Herdou a força e a ligação com a Terra das suas ancestrais Tabajaras da Serra da Ibiapaba. Estudou Direito na UFC e é servidora do TRT Ceará.

Excelente texto. Parabéns, Dina!