Maria Valéria Rezende é uma das vozes mais expressivas da literatura brasileira contemporânea. Nascida em Santos, em 1942, a escritora construiu uma trajetória marcada pela atuação como educadora popular, missionária, tradutora e romancista. Sua produção literária dedica atenção especial às experiências de sujeitos marginalizados, aos deslocamentos geográficos, às desigualdades sociais, às migrações internas e às múltiplas formas de exclusão presentes na sociedade brasileira.
Conforme observa Modesto (2022, p. 02), sua literatura é caracterizada pela abordagem de temas como “movimentos migratórios, a precarização do trabalho, o problema das pessoas desaparecidas e a marginalização do espaço rural e urbano”. Essas preocupações aparecem de maneira intensa em Quarenta Dias (2014), romance vencedor do Prêmio Jabuti, obra que se consolidou como uma das mais importantes da autora.
O romance narra a história de Alice, professora aposentada de francês que vive em João Pessoa, na Paraíba, e que vê sua rotina ser completamente transformada pela decisão da filha, Norinha, de transferi-la para Porto Alegre. A justificativa apresentada é simples: a filha deseja engravidar e precisa da mãe para cuidar do futuro neto. Entretanto, ao chegar ao Sul, Alice descobre que os planos da filha mudaram. Norinha e o marido irão para a Europa realizar estudos acadêmicos, deixando a mãe sozinha em uma cidade que lhe é completamente estranha. É nesse contexto que se inicia a verdadeira narrativa. Sentindo-se deslocada, traída e sem lugar definido, Alice passa a vagar pelas ruas de Porto Alegre à procura de Cícero Araújo, filho desaparecido de uma conhecida paraibana. Essa busca, inicialmente motivada por um favor, transforma-se gradativamente numa jornada de autoconhecimento, reinvenção e confronto com a realidade social brasileira.
A narrativa é construída em primeira pessoa e assume a forma de uma longa escrita dirigida a um caderno escolar cuja capa traz a imagem da boneca Barbie. Esse caderno torna-se interlocutor da protagonista, depositário de suas memórias, reflexões, revoltas e descobertas. Logo no início da obra, Alice explica a importância desse objeto: “O caderno veio na minha bagagem por pura teimosia, mas com um destino oculto, tábua de salvação pra me resgatar do meio dessa confusão que me engoliu. Talvez” (Rezende, 2014, p. 9).
O caderno funciona simultaneamente como diário, confissão e instrumento de resistência, permitindo que Alice reconstrua sua identidade diante do processo de desestruturação provocado pelas imposições familiares.
Um dos aspectos mais interessantes de Quarenta Dias é sua construção da personagem principal. Alice não corresponde aos estereótipos frequentemente associados à velhice feminina. Embora aposentada e viúva, ela não se conforma com o papel passivo que a filha pretende lhe atribuir. A narrativa é atravessada pela recusa de Alice em aceitar que sua existência se reduza à função de avó. Como observam Silveira e Freitas (2021), a personagem vive um conflito entre continuar priorizando os desejos dos outros ou preservar sua própria autonomia, questionando o lugar tradicionalmente reservado às mulheres idosas na estrutura familiar brasileira.
Essa tensão aparece claramente quando Alice descreve a tentativa da filha de redefinir sua vida. Em uma das passagens mais significativas do romance, ela escreve: “Em resumo, o certo pra ela era que eu, afinal, já tinha chegado ao fim da minha vida própria, agora o que me restava era reduzir-me a avó” (Rezende, 2014, p. 21). A frase sintetiza um dos núcleos temáticos centrais da obra: a crítica às formas sutis de apagamento da subjetividade feminina. Maria Valéria Rezende mostra que o controle sobre a vida das mulheres não se manifesta apenas por meio da violência explícita, mas também através de expectativas sociais aparentemente naturais, que limitam suas possibilidades de escolha.
Outro elemento fundamental da narrativa é a questão do deslocamento. Ao abandonar João Pessoa e instalar-se em Porto Alegre, Alice passa a experimentar uma condição de estrangeira. Entretanto, essa estrangeiridade não é apenas geográfica. Ela se torna estrangeira também em relação à própria vida. Silveira e Freitas (2021), apoiando-se em Kristeva, observam que a personagem vive uma condição de deslocamento identitário, sentindo-se estranha ao espaço, às pessoas e até a si mesma. Essa condição aproxima a obra de discussões contemporâneas sobre identidade, pertencimento e mobilidade social.
Ao longo de quarenta dias, Alice percorre bairros periféricos, rodoviárias, pensões, praças, ocupações urbanas e espaços invisibilizados da cidade. A Porto Alegre apresentada pela narrativa não é a dos cartões-postais ou dos roteiros turísticos. Trata-se de uma cidade subterrânea, habitada por migrantes nordestinos, trabalhadores precarizados, moradores de rua e pessoas desaparecidas. Modesto (2022) destaca que a obra se organiza justamente em torno da representação dos espaços urbanos e de seus efeitos sobre a identidade da protagonista. A cidade deixa de ser mero cenário para tornar-se elemento constitutivo da narrativa.
A busca por Cícero Araújo adquire um significado que ultrapassa o desaparecimento de uma pessoa específica. O rapaz desaparecido torna-se símbolo de todos aqueles que foram apagados pela lógica econômica e social do país. Em determinado momento, Alice conclui: “Eu descobria que o mundo era feito em grande parte de gente desaparecida, gente que não deu mais notícia e gente desesperada atrás ou a esperar conformadamente pelos sumidos” (Rezende, 2014, p. 69). A observação amplia o alcance da narrativa, transformando a busca individual numa reflexão coletiva sobre abandono, migração, exclusão e invisibilidade social.
A obra também apresenta uma forte dimensão feminista. Silveira e Freitas (2021) observam que Maria Valéria Rezende constrói uma protagonista que questiona a lógica patriarcal presente tanto na estrutura familiar quanto nas relações sociais mais amplas. Alice percebe que sua vida foi marcada por sucessivas renúncias em benefício dos outros. Sua jornada pelas ruas de Porto Alegre representa, em certa medida, uma tentativa de recuperar o direito de decidir sobre si mesma.
O simbolismo do número quarenta reforça essa dimensão de travessia. Conforme destaca Modesto (2022), o título remete aos quarenta dias de provação de Cristo no deserto. A jornada de Alice pode ser lida como uma experiência iniciática, marcada por perdas, sofrimento, aprendizado e transformação. Não se trata apenas de sobreviver quarenta dias nas ruas, mas de atravessar um período de reconstrução subjetiva.
Em síntese, Quarenta Dias é uma obra que articula questões de gênero, envelhecimento, migração, memória e exclusão social por meio de uma narrativa profundamente humana. Maria Valéria Rezende constrói uma protagonista complexa, cuja trajetória permite refletir sobre o lugar das mulheres idosas na sociedade brasileira, sobre os efeitos do deslocamento geográfico na constituição da identidade e sobre as formas de invisibilidade produzidas pelas estruturas sociais contemporâneas. Ao acompanhar os passos de Alice pelas margens de Porto Alegre, o leitor é convidado a enxergar uma cidade e um país que frequentemente permanecem ocultos. Mais do que um romance sobre uma busca, Quarenta Dias é uma narrativa sobre reinvenção, resistência e descoberta de si.
REFERÊNCIAS
REZENDE, M. V. Quarenta dias. Rio de Janeiro: Objetiva, 2014.
MODESTO, A. B. Espaço e identidade em Quarenta Dias (2014), de Maria Valéria Rezende. Revista Dito Efeito, Curitiba, v. 13, n. 22, p. 1-16, jul./dez. 2022.
SILVEIRA, A. P. F.; FREITAS, S. R. Alice sobre si mesma e sobre sua quarentena: uma leitura de Quarenta dias, de Maria Valéria Rezende. Sociopoética, Campina Grande, n. 23, v. 1, p. 144-156, jan./jun. 2021.
Sobre o autora:

Marta Kécia
Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL) da Universidade Regional do Cariri (URCA), na linha de pesquisa: Língua, Discurso e Identidades com ênfase no discurso de violência contra mulher. Especialista em Gestão Escolar e Coordenação Pedagógica, Metodologia do Ensino Superior e Literatura Brasileira com Graduação em Letras pela Universidade Federal de Campina Grande(UFCG).
