A mochila e o destino

Levo na mochila o necessário para alguns dias: três livros, envelopes com remédios, carregador de celular, um pote com sementes, caderneta de anotações, algumas canetas. Levo também o previsível: roupas, calçados, uma escova, creme dental, perfume. Junto vai um coração apertado. Olhos com estrelas de esperança e de dor.

Mochila pronta. O destino, ainda indefinido; só sei que a viagem será curta, porque o dinheiro não é largo. A passagem será comprada só na hora, e o destino definido quando chegar à rodoviária. Devo anotar os nomes das cidades num papel e fazer o sorteio. Nunca fiz isso, mas sempre há a primeira vez. Lógico que o destino tem que caber no saldo bancário, isso é o que temos de mais concreto.

Ainda é tempo de desistir, mas insisto em escrever no caminho, vasculhar a vida alheia e misturá-la com a minha. Descarregar a mochila na estrada, observar os pássaros, sentir o frio da noite e os tons dos rostos desconhecidos, escutar as vozes das ruas, tomar cafés nas bancas de bombons, almoçar nos mercados escutando os temperos de cada lugar. Ler no banco da praça algumas páginas dos livros que levo e ler também os corpos que passam, as rugas que desenham o tempo e as mãos das crianças descobrindo o mundo.

Os dias estão mais curtos, como a viagem. Parece que o mundo vai acabar amanhã,  a sensação é que se tem uma bomba-relógio e que tudo tem que ser feito antes de ela se apresentar. A mochila está pronta, mas nem sempre podemos escolher o destino.

Sobre o autor:

Alexandre Lucas

Alexandre Lucas é escrevedor, articulista e editor do Portal Vermelho no Ceará, pedagogo, artista/educador, militante do Coletivo Camaradas e a integrante da Comissão Cearense do Cultura Viva.

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