Terça-feira, 09 de setembro. Sentada no sofá, Olga vislumbrava um dia perfeito, apesar dos acontecimentos vividos horas antes, que a deixavam inquieta. Sua lucidez lhe permitia ver algo a mais nos outros. Ela não saberia explicar… E isso ela não entendera ainda. Estava distante da sua terra natal. Novo mundo, novo lugar e tudo a intrigava. Tentava fugir todos os dias de si mesma, contudo, era impossível, começava a trocar o dia pela noite o que a fazia imaginar um medo sem nome. O apartamento que alugara não tinha aquele ar fresco e sutil, ao qual estava acostumada junto da correria caótica que adorava. Fugia todos os dias do próprio sofá da sala de estar. Pietro, seu fiel amigo não sabia falar, mas a acariciava com um cheiro de cães que amam a seus donos. Instinto canino. Já fazia seis meses na nova morada nesta cidade, e nada.
Tudo parecia raso. O fugir era algo natural. Na cidade nova parecia algo estranho, como se os moradores não entendessem. O querer estar a sós, parecia um crime como se estar cercado de gente fosse algo tão importante assim. Queria estar só, entretenimentos fúteis não me saciavam, mas confesso que dizer isso soaria como proeminente, resolvi calar… uma cidade pequena, com poucos vizinhos e a mesmice a deixava entediada. O que fazer então? Esta era a pergunta corriqueira que surgia e tomava espaço. Voltar para minha terra natal. O que me prendia aqui? Nada!! Posso construir algo lá também. Mas ao lembrar o motivo que a fizera sair a deixava melancólica e cabisbaixa…Era outro dia e tudo recomeçava novamente. Iniciava-se mais um dia trivial.
O tempo nublado a intrigava, não tinha novidades iminentes naquele lugar, mas sentia que precisava ficar. Pietro, seu fiel amigo e cachorro que ganhara da tia Marlene estava lá a esperar. Corri para o outro lado da calçada, na esquina da padaria Santoro, um café quente e uma leitura que a esperavam e passavam uma impressão de que o tempo passava rápido. 11 ligações ao telefone do apartamento. Era meu pai e ele dizia categoricamente: Olga volte para casa. Isso mexera comigo.
Era o que queria, hesitei na resposta, logo em seguida, disse ainda não posso, pai. Tenho coisas a resolver, mas voltarei. Como estão as coisas por aí? E a mamãe…? Saber como tudo estava, mesmo a distância, trazia um conforto, ainda que sutil.
Não sabendo quando mais tempo precisava, resolvi escrever no meu diário, era o escapismo que eu precisava. Querida Olga Spiler Alencar, peço, por gentileza, que tenha mais paciência… Paciência?! Começava a rir, não sei se de mim ou da estupidez a que me submetera, queria estar ali e ao mesmo tempo fugir desta cidade pacata que nada combinara comigo. O frenesi da cidade urbana a que estava acostumada… era melhor para mim, trânsito caótico, pessoas indo e vindo, risos soltos pelo ar. O pacato era bom, céus… querido diário, assim como meu fiel Pietro, seja essa ponte que acalenta minha morada nessa cidade pacata, até o dia em que eu possa finalmente voltar ao urbano que me completa. Essa é o escapismo de hoje.
a. Olga!
Pera, não posso esquecer de te contar, querido diário, sabe aquela vizinha do andar de cima? Disse que quer me levar para conhecer melhor a cidade, estou indecisa, mas curiosa. Será que mudarei de ideia?. Provavelmente não, mas o que custa olhar esta cidade pacata e tranquila, no máximo umas horas do final de semana. O que me intrigava não era em si a cidade pacata, mas a falta desse frenesi, dos arranha-céus, do trânsito caótico e do movimentar incessante da minha cidade natal. Confesso que o escapismo me fizera chegar até aqui, e não sabia como voltar. Acho que preciso ir no consultório do dr. Hugo o psicólogo, o escapismo já virava caso de psicologia.
Sobre a autora:

Gracynha Rodrigues
Formada em Letras pela Universidade Regional do Cariri (URCA), uma apreciadora das palavras, músicas, livros e pessoas. Além disso, é pós-graduada em Literatura e uma aspirante a cronista em desenvolvimento…
