A onda neoliberal começa a esboçar-se teoricamente já nas décadas de 1930 e 1940, com Friedrich Hayek e Milton Friedman, como uma narrativa de redução do papel do Estado e ampliação da liberdade econômica. Seus efeitos práticos, porém, manifestam-se nas décadas de 1970 e ganham força no final dos anos 1980 e 1990. No Brasil, o símbolo precursor do neoliberalismo foi o presidente Fernando Collor de Mello. Esse movimento de encolhimento do Estado e de exaltação da liberdade de mercado também repercute nos processos de organização popular, gerando novas formas de atuação política que têm precarizado a insurgência política.
Na década de 1990, o Brasil testemunhou um crescimento gigantesco no número de Organizações Não Governamentais (ONGs). A ideia de “onguinização” da sociedade nasce atrelada ao discurso da insuficiência estatal. As ONGs passam a assumir o discurso de assumir funções do poder público, terceirizando a responsabilidade social dos governos. Essa lógica se opõe à tradição brasileira de organização popular, historicamente percebida como instrumento de cobrança ao Estado. As ONGs surgidas nesse período receberam e muitas ainda recebem financiamento internacional para desenvolver ações que, em tese, seriam dever do Estado.
A narrativa “se cada um fizer a sua parte” encontra campo fértil para se popularizar como algo socialmente benéfico, mas esconde sua face perversa, carregada da perspectiva neoliberal, caracterizada pela desresponsabilização do Estado e pela responsabilização individual.
As ONGs vão se tornando porta-vozes do discurso neoliberal, mesmo quando se julgam em posição contrária ao liberalismo econômico. Reproduzir o discurso do opressor (sem perceber) e iludir-se de que se está montando uma estrutura contra ele não é algo distante das novas formas de precarização da organização popular. Percebe-se, por exemplo, o forte discurso do empreendedorismo no campo da esquerda, camuflando a dimensão da precarização do trabalho e da vulnerabilidade social no período do “aposento”.
Junto a essa concepção de “onguinização” da sociedade, vão se sobressaindo também “subprodutos” dessa narrativa, como o voluntariado e o ativismo, que focam na micropolítica individual de “cada um fazendo a sua parte”. O ativismo contribui para desorganizar as estruturas políticas coletivas, e o voluntariado caminha na mesma direção, acrescido da noção de “tempo disponível para a luta” ambos baseados na ação individual. O fenômeno da figura do influenciador nas plataformas digitais é outra manifestação da mesma lógica de ação política centrada na individualização. Isso demonstra uma fratura concreta na forma de pulverização do discurso neoliberal, que tem causado um desmonte nas estruturas organizativas coletivas. Talvez estejamos diante da aplicação da máxima “dividir para governar”: é mais fácil tirar de cena indivíduos do que organizações. Esse fenômeno do crescimento do ativismo e da geração influencer tem provocado também adoecimentos, em razão da pressão social e da cultura da produtividade.
Essas novas formas de atuação política precisam ser compreendidas no tabuleiro político, como forças em disputa e contradição.
Sobre o autor:

Alexandre Lucas
Alexandre Lucas é escrevedor, articulista e editor do Portal Vermelho no Ceará, pedagogo, artista/educador, militante do Coletivo Camaradas e a integrante da Comissão Cearense do Cultura Viva.
