Querida L.,
Ontem, lembrei da nossa foto no primeiro dia de trabalho juntas. Foram apenas dez anos. Pode parecer pouco quando pensamos que isso significa apenas um quarto das nossas vidas e que muito mais tenhamos vivido antes daquele dia, mas, observando o nosso olhar inocente e cheio de esperança pelo que ainda estava por vir, acredito que esses anos valeram pelo dobro do tempo, principalmente se observarmos as mudanças que enfrentamos dentro e fora de nós.
Éramos duas meninas que se conectaram quase espontaneamente e, mesmo carregando enormes bagagens do passado, ainda conseguíamos levar nas mãos os nossos sonhos com a leveza de quem sustenta apenas a si mesma.
Eu sei que somos profundamente diferentes. Nem cogito a possibilidade de justificar qualquer semelhança. Claro que há uma essência moral compartilhada que permite estarmos juntas, mas, muito além disso, gosto da essência com cheiro de “novidade do mundo” que você exala, e a sua curadoria da vida me dá uma visão singular do desconhecido, que sempre me encanta.
Apesar de os astros não concordarem com a nossa compatibilidade, estamos longe de habitar polos distintos em uma relação, pois a admiração foi algo que nunca nos faltou e acredito que seja o denominador que nos uniu.
Nossa amizade não se opõe à existência do agonismo. Discutimos e defendemos nossos pontos sem o medo do que a divergência pode nos causar, pois estamos amparadas pelo respeito e ancoradas na certeza de que a amizade duplica a nossa própria experiência, dando-nos a possibilidade de andar em dois universos distintos.
Não nos anulamos para parecermos iguais. Compreendemos que precisamos preservar aquilo que nos torna diferentes para que uma possa continuar oferecendo à outra aquilo que não encontraria em si mesma.
Juntas, enfrentamos lutos de pessoas ainda vivas e perdas que apenas a nossa espiritualidade é capaz de confortar, mas seguramos as mãos uma da outra, mesmo que à distância. Consolamo-nos ante o dilaceramento dos nossos corações por aqueles que sequer deveriam ocupar nossas conversas e rimos das aparentes catástrofes da vida.
Não gosto de pensar que a tristeza forja pessoas fortes. Não desejo que ninguém evolua apenas diante das dificuldades. Podemos também aprender com os exemplos ou escutar os conselhos de quem nos quer bem, mas nem sempre somos racionais a esse ponto. Nisso, concordamos plenamente, eu acredito.
Os ensinamentos da vida muitas vezes nos atravessaram de formas distintas. Aprendemos compartilhando uma música, indicando um livro ou filme e contando sobre as nossas próprias experiências para conseguir entender quais pontos podem ser revistos a partir do olhar da outra.
Não buscamos eliminar todas as dúvidas ou obter a confirmação das nossas possíveis certezas, mas reconhecer as possibilidades que se abrem cada vez que emprestamos nosso olhar e nossa experiência, para termos a chance de, em uma única existência, experimentar as formas de viver uma da outra.
Eu gosto da certeza de descansar nos braços da sua amizade e de desejar a nossa eterna diferença, para que sempre possamos partilhar da mesma estrada ou nos corresponder em caminhos diferentes, mas sempre com a certeza de que estaremos com as mãos estendidas quando os desafios surgirem.
Te amo!
Sua querida L.
Sobre a autora:

Ludimilla Barreira
Mulher de muitas camadas. Mãe em um mundo real, embora a cabeça viva na terra da imaginação. Leitora, sonhadora e observadora da vida. Escreve para manter viva em si mesma e naqueles que a leem a esperança de que podemos ser e viver na realidade que criarmos, ainda que o mundo fora de nós conte outra história.
