Deitado neste sofá-estante, em cima de um colchonete vermelho, abaixo, livros; a minha esquerda, uma parede vermelha, dois quadros com fundo branco e desenhos pretos. Na minha frente, outra estante que um dia foi janela. Guardo lembranças de viagens, alguns sorrisos e algumas ausências.
Por aqui tem poucos santos, mas essa estante é meu santuário; não peço nada e nem acendo velas. Às vezes olho para as lembranças como se estivesse orando, opa, rezando. Parece que existe uma diferença entre orar e rezar; por precaução, fico com a reza, já que mainha me ensinou foi a rezar.
As lembranças são deste mundo mesmo; não tem reza que mude. Mas as pessoas rezam, outras lutam. A quem acredita que lutar não muda nada, sigo discordando.
Na estante, em cima de uma escultura indígena que ganhei em Cuiabá, pousa uma esperança, que se mexe bem devagar. Ela se perde entre os objetos; é preciso olhar atentamente. Tenho pouco tempo e algumas estantes para olhar. Logo, tomar um banho e me vestir neste sol, sentar no banco da praça e escrever manifestos de amores com as crianças.
Sobre o autor:

Alexandre Lucas
Alexandre Lucas é escrevedor, articulista e editor do Portal Vermelho no Ceará, pedagogo, artista/educador, militante do Coletivo Camaradas e a integrante da Comissão Cearense do Cultura Viva.
