Os corredores da liberdade

Paredes sujas, umidade, chão frio e lotação. Essa pode ser a definição de prisão para algumas pessoas, mas, para mim, era um jardim cheio de flores que não podíamos tocar, um pátio amplo, a céu aberto, com uma santa de pedra a nos observar.

Toda prisão cerceia algum tipo de liberdade. No meu caso, ou no nosso, pois não estava sozinha no colégio para “boas moças”, como assim era conhecido aquele lugar, mesmo que de boas tivéssemos apenas as notas e a capacidade de fingir sermos um personagem que só caía bem lá dentro, acreditava viver a pior prisão: a de se encaixar em um formato totalmente distinto do meu.

Mas uma prisão não se faz apenas de cárceres. Assim como a água encontra uma forma de extravasar, buscando possibilidades em um de seus estados, a mente humana também encontra estradas quando levada a viver dentro de uma realidade na qual sonhar seja um ato de rebeldia, mesmo que esse sonho não extravase para além da janela dos olhos e um universo seja criado dali para dentro.

A partir dessa experiência, o entrelaçamento dessas possibilidades fortaleceu meu espírito para suportar a severa comparação entre nós, humanos de carne e osso, e a santidade daquela mulher lapidada na pedra fria, que inocentemente nos observava com um olhar constrangedoramente cálido. Ora, se ela, objeto inanimado feito para ser adorada, conseguia desviar-se de sua finalidade e também consolar nossos corações, eu não poderia ser outra em diversas realidades?

Procurando conforto, acolhimento e um teto, encontrei em outros estados de existência formas de sobreviver. Não apenas uma, mas várias, que poderiam ser visitadas todos os dias, talvez até mais de uma ao dia.

Com o corpo preso ali, descobri que minha mente poderia circular em mundos em que eu jamais pisaria. Na biblioteca, encontrei nas páginas dos livros, passagens que me permitiram percorrer vidas e lugares, conhecer pessoas e possibilidades. Eu estava presa debaixo do céu azul e livre dentro do vão por onde cada estante me levava para vidas possíveis dentro da minha imaginação.

Sobre a autora:

Ludimilla Barreira

Mulher de muitas camadas. Mãe em um mundo real, embora a cabeça viva na terra da imaginação. Leitora, sonhadora e observadora da vida. Escreve para manter viva em si mesma e naqueles que a leem a esperança de que podemos ser e viver na realidade que criarmos, ainda que o mundo fora de nós conte outra história.

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