Carolina Maria de Jesus
Não se rendeu ao calvário e nem a cruz
Carolina cambinda fez um tour
Sacramento, Estação da Luz
Fez quitute, angu e até cuscuz
Preta velha com brilho que reluz…”
Didi de Assis
O que pode fazer uma mulher negra, pobre, mãe solo e catadora de papel em plena modernidade marcada pelo individualismo exacerbado, racismo e desigualdades sociais? Registrar sua trajetória de lutas, de anseio por um mundo igualitário com comida na mesa e livre de preconceitos. Eis o que fez Carolina Maria de Jesus em Quarto de Despejo: Diário de uma favelada (1960).
A obra de estreia da autora foi um fenômeno de vendas: teve em sua primeira tiragem dez (10) mil exemplares, que se esgotou em três dias, outros noventa (90) mil foram vendidos em seis meses. No exterior, ganhou tradução em 14 (quatorze) idiomas e, em breve, será visto nas grandes telas.
Quarto de Despejo é uma narrativa forte e crua, mas sensível, que traz à tona temas caros à Política, à Educação e à Economia brasileiras, de modo geral, a todos que lutam por um mundo livre da fome, do racismo, das violências, da misoginia, das desigualdades sociais etc.
A narradora-personagem Carolina relata de forma empática e humana, nem por isso esconde as agruras da vida, o seu sofrimento, dos seus filhos (João José de Jesus, José Carlos de Jesus e Vera Eunice de Jesus Lima) e daqueles que estão ao seu redor.
Para além de uma narrativa intimista centrada no eu, Carolina grita seu sofrimento: 1) ser mulher em uma sociedade patriarcal; 2) ser negra em um país que não se diz racista; 3) ser mãe solo; 4) ser catadora de papel, profissão subalterna; 5) morar em uma favela em que não há solidariedade; 6) descaso dos políticos etc.
Diante dessa realidade, fico imaginando que já saímos duas vezes do Mapa da Fome (2014 e 2025), mas que ainda existem pessoas passando por insegurança alimentar;
Fico imaginando que os senadores brasileiros trabalham três dias por semana, três semanas do mês, mas são contra a escala 5 x 2 do trabalhador brasileiro;
Fico imaginando Carolina Maria de Jesus tendo acesso ao Bolsa Família, programa federal de transferência direta de renda do Brasil, criado no ano de 2003 pelo então Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para combater a fome, a pobreza e a desigualdade social, sendo chamada de “negra preguiçosa” e concluo: “o mundo é injusto”. A combinação — desigualdades estruturais, distribuição desigual de recursos, tragédias climáticas e liberdade humana — é o retrato atual da sociedade que temos.
Quarto de Despejo: Diário de uma favelada (1960) é um texto confessional criando, rapidamente, uma ponte entre a escritora e os leitores, em especial, às mulheres que são mães e sabem o que é ver um filho pedindo comida: “A minha filha Vera começou pedir comida. E eu não tinha. Era a reprise do espetáculo”; ou “E a comida era pouca, eu fiz um pouco do macarrão com feijão. E o meu filho João José disse-me: — Pois é. A senhora disse-me que não ia mais comer as coisas do lixo”. Alimentar os filhos é a tradução física do cuidado, da proteção e do amor materno.
Na obra, a fome tem cor: “Eu sou negra, a fome é amarela e dói muito”. Em muitas ocasiões, Carolina sente fraqueza, tontura, dores de cabeça e dificuldades para ficar em pé. “Como é horrível levantar de manhã e não ter nada para comer. Pensei até em suicidar. Eu suicidando-me é por deficiência de alimentação no estômago. E por infelicidade eu amanheci com fome”. A escassez de comida é uma das personagens mais fortes e incansáveis na antiga favela do Canindé, em São Paulo.
Quarto de Despejo: Diário de uma favelada (1960) é um grito de desespero, um relato de tragédias de uma mulher que sustentou sozinha três filhos – “Como é pungente a condição de mulher sozinha sem um homem no lar. Aqui, todas impricam comigo… Elas alude que eu não sou casada. Mas eu sou mais feliz do que elas” – dentro de um ambiente inóspito, fétido e degradante, que resistiu as pedras no caminho através da leitura e da escrita.
Neste diário, o individual e o coletivo em um mesmo texto, nos faz compreender a vida de pessoas que foram (ainda são) excluídas da sociedade e jogadas em um “Quarto de despejo”, metáfora criada pela autora para definir seu lugar de morada (antiga favela do Canindé) e a posição social dos moradores marginalizados. Em outras palavras, enquanto a favela representa o quarto dos fundos, onde abriga tudo o que é velho ou não serve mais, a cidade de São Paulo é a representação da sala de visitas (luxo, lustres e conforto).
O tom trágico é a tônica do Diário dessa mineira que acordava às 4h da manhã para ler e para escrever (A arte salva), sujeito e objeto de sua própria narrativa. Nele vemos a dor, o sofrimento, violência, brigas, morte, fome etc. Quem pensa que Carolina Maria de Jesus não se fazia de coitada está enganado. Estamos diante de uma mulher forte, com consciência de classe, assertiva em suas ações e que transformou a fome, o racismo e a miséria em um ato político de resistência
Em suma, o ato de escrever é também um ato de se mostrar para o outro. É um exercício constante de pensar sobre si mesmo. É uma forma de atenuar a solidão. O escritor, através da escrita, relembra fatos, ressignifica outros e, consequentemente, constrói a imagem de si. A escrita torna-se, nesse sentido, uma confissão. Carolina Maria de Jesus se confessa, se expõe. Essa escritora, catadora de papel, compositora, sambista, poetisa, dramaturga, cantora, atriz circense, raizeira “[quem usa raízes em tratamento médico]” foi uma dessas mulheres fortes, que usou sua escrita para denunciar as várias atrocidades que aconteceu a si e àqueles que estavam ao seu redor.
Depois de ler o relato de Carolina de Jesus espero que possamos ter empatia, sonoridade e compaixão pelo nosso semelhante;
Que possamos nos conectar com a dor do outro;
Que possamos defender políticas públicas, mesmo que não precisemos delas;
Que possamos eleger mulheres, que sejam a favor do direito de outras mulheres, para a política!
Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva
Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler
