Entrevista com Maria Kilô Ferrera

1 Quem é Maria Kilô Ferrera?

Nascida na cidade de Caruaru, interior de Pernambuco, mulher negra, de 27 anos, produtora cultural organizadora do Festival Balaiô Caruaru. Slam Caruaru, Sarau Caruaru e Slam das Mina Caruaru, poeta e membro dos coletivos MALIN e Vai no Teu Tempo.

2 Conte-nos como aconteceu esse encontro entre a Maria Kilô e a Poesia?
Desde criança sempre gostei muito de escrever poemas e textos aleatórios em diários, mas só depois dos 16 anos conheci mais a fundo os sarais que aconteciam na Estação Ferroviária desativada no centro do município e vídeos soltos de slams ao redor do Brasil, depois de quase 7 anos me atinei pra o Slam que acontecia aqui e tive a feliz experiência de competir e desde então não parei mais de escrever .

3 Em uma sociedade de homens práticos que procuram soluções, respostas e expedientes úteis, por que escrever Poesia?

Pra não deixar a normalidade nos engolir, pra compartilhar e reconhecer em si a humanidade que o capitalismo tanto tenta apagar do dia a dia, dos pensamentos e vontades manipuladas das pessoas no século XXI. Essa praticidade e facilidade de encontrar soluções robotiza as pessoas, e a poesia vem pra que cada um ouça as batidas do próprio coração e lembre que sentir/escrever não é perda de tempo, pelo contrário, é uma das poucas maneiras de prolongar boas memórias.

4 Na escola, na família, você foi incentivada a ler, a escrever, a publicar seu livro?
Lembro de minha mãe sempre citar que aprendi a ler e escrever aos 3 anos de idade, e ela falava também que depois que iniciei as primeiras lidas (de placas na rua, cartazes e etc), sempre consumi muitos livros infantis, por incentivo dos meus pais, principalmente minha mãe não chegou a finalizar o ensino fundamental e tinha.

5 Inflama, seu primeiro livro de Poesia, “é uma caixinha de segredos”. Pode compartilhar conosco alguns desses segredos?

Sim!! Na verdade acho que Inflama é uma caixa de segredos pra quem conhece o meu trabalho e principalmente me conhece, porque enquanto ser sociável me considero uma pessoa um tanto quanto retraída por diversos motivos, e certas formas de escritas relacionadas a mim são desconhecidas para a maioria das pessoas, até as que estão mais próximas, na verdade algumas poesias que selecionei pra incluir no livro me levam até certos lugares que me causam estranheza, e acredito que é isso, escrever nos momentos em que sentimos vontade pode nos dar esse presente de relembrar sentimentos antigos ou pouco visitados antes. Tenho que confessar que relutei bastante antes de publicar o livro, pois os textos são bem simples, mas coletei cada um de um lugar muito particular pra mim, e agradeço por que até agora recebi ótimas visitantes.

6 Inflama traz suas “influências eróticas, existências e de crítica social”. Quem são essas influências?

Com certeza a maior delas é a Mayara Isis, organizadora do Sarau das Pretas no Rio de Janeiro, ela não foi minha primeira influência, mas por ser negra e gorda, assim como eu, acabei fazendo dela meu espelho, é libertador ver mulheres pretas falando sobre sua sexualidade abertamente, inclusive as LBT+, então mesmo consumindo alguns textos eróticos, depois de conhecê-la resolvi me jogar; e a pitada de existencialismo e a crítica social vem Clarice, Nietzsche e os poetas dos slams.

7 Que mensagem você deixa para os leitores/leitoras e também para aqueles que ainda não descobriram a Poesia.

Desde o início da pandemia todo mundo anda falando muito sobre cuidar da saúde mental com psicólogos, terapeutas e afins, mas poucos de nós que vivemos na favela tem acesso a esses dispositivos, então minha recomendação é que agora mais do que nunca nós possamos nos sustentar no afeto dos nossos e também na arte, porque além de libertar, ela salva das vielas perigosas que foram postas no nosso caminho há pouco tempo.

Sobre a autora:

Maria Kilô Ferrera

Maria Kilô Ferreira, organizadora do Festival Balaiô Caruaru, Slam Caruaru, Sarau Caruaru e Slam das Mina Caruaru.

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