Carta ao silêncio

Nos vimos ontem à noite e já sinto tanto a tua falta. Tudo está tão barulhento hoje, minha cabeça chega a doer. Se alguém pergunta, digo que é cansaço. É mais fácil mentir, sabe?

Mas de fato estou cansada. Emocionalmente. Então não é uma inverdade completa.

Se bem que não importa. Nem é como se alguém tivesse perguntado, só sou prevenida, quis deixar a mentira pronta caso precisasse.

Só o que sinto mesmo é saudade.

Sinto falta de nossa última noite. De estar aninhada em ti. Minha respiração inaudível, no escuro do meu quarto, na calmaria da solidão.

É então que chega o dia e te arranca de mim. 

Minha paz é mais leal a ti, sendo assim, te acompanha em tua partida.

Ai que saudades de escrever poesias em ti. Saudades de te ouvir cantar aquelas melodias que tão bem combinam com minhas mágoas.

Acho que hoje não durmo antes de chorar, por isso sei que demoras a chegar. Meus soluços abafam tua voz. Mas quando o disco de Belchior terminar e a última lágrima secar, é quando começo a te esperar, pois sei que virás de braços abertos para embalar o meu sono.

Certa vez te ouvi dizer que tu sempre me acompanhavas. Em cada frase que calo, em cada opinião que oculto, cada riso forçado, cada mentira contada, cada segredo guardado…

“Estou em ti como estás em mim”, foram as tuas palavras. “Sou o silêncio. O teu silêncio. Teu segredo e tua paixão”.

Mas se tu me acompanhas todo esse tempo, por que tanto sinto a tua falta? Acho que tua presença não é suficiente.

Mas não se assuste, nem me entenda mal. Não quero te consumir por inteiro. Sei que precisas de espaço.

Deve ser carência. Que coisa mais besta de sentir. Quanta tolice!

Já está ficando tarde, pode ser isso também.

Tenho que fechar as portas, apagar as luzes. Meus olhos já estão marejados. 

Te encontro em algumas horas.

Sobre a autora:

Shirley Pinheiro

Graduanda em Letras pela Universidade Regional do Cariri.

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