Rubem Braga e uma vida narrada em crônicas

Muitos foram os grandes autores da Literatura Brasileira que ingressaram na Faculdade de Direito, mas que preferiram seguir pelo caminho da escrita – José de Alencar (1829-1877); Vinicius de Moraes (1913-1980); Oswald de Andrade (1890-1954). Com o escritor capixaba Rubem Braga (1913-1990), não foi diferente. Nascido em 12 de janeiro de 1913, em Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo, Braga formou-se advogado em 1933, mas foi o mundo das letras que o encantou – “Quando terminei meu curso de Direito, resolvi continuar trabalhando em jornal”.

Rubem Braga dedicou mais de sessenta anos à escrita de crônicas para os jornais e revistas de maior circulação no país. Sua primeira publicação, aos 13 anos, foi no jornal do grêmio, um texto produzido para uma atividade escolar, ao que ele diz em Como Comecei a Escrever (1980) – “Já contei em uma crônica a primeira vez que vi meu nome em letra de forma: foi no jornalzinho ‘O ltapemirim’, órgão oficial do Grêmio Domingos Martins, dos alunos do colégio Pedro Palácios, de Cachoeiro de Itapemirim. O professor de Português passara uma composição ‘A Lágrima’ — e meu trabalho foi julgado tão bom que mereceu a honra de ser publicado”.

Aos 15 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro a fim de concluir os estudos, época em que foi convidado a colaborar no jornal Correio do Sul, fundado por seus irmãos mais velhos, Jerônimo e Armando, numa seção intitulada Cartas do Rio. Por um tempo, Rubem Braga colaborou para o conglomerado de Assis Chateaubriand (1892-1968), os Diários Associados, um dos mais importantes veículos de imprensa da época.

Considerado pelo crítico Antonio Cândido (1918-2017) como o “primeiro a elevar a crônica ao nível de mais alta categoria literária”, Rubem Braga imprimiu em seus escritos, além de registros de seu tempo, denúncias do descaso do governo com o povo brasileiro, a lentidão do Estado em socorrer as vítimas da seca no Nordeste, o desprezo das autoridades diante da problemática do desflorestamento – “o Brasil está secando”. Seu posicionamento político e antifacista estava implícito em suas crônicas, muitos foram os textos em que criticou Getúlio Vargas (1882-1954) – “fui sempre seu adversário – e ser adversário do Sr. Getúlio Vargas através de um quarto de século é uma boa escola de derrotas” –  e Juscelino Kubitschek (1902-1976), cujo governo, segundo Braga, já nasceu “fraco e sujo de mil pecados originais”. Suas críticas se estenderam à Igreja Católica e ao Integralismo, um movimento de extrema direita surgido na década de 30, influenciado pelos ideais fascistas surgidos na Europa.

Durante o governo de Jânio Quadros (1917-1992), Rubem Braga atuou como embaixador do Brasil no Marrocos. Foi correspondente da guerra na Itália. Seu primeiro livro, O Conde e o Passarinho, uma reunião de trinta textos escritos para os jornais que colaborou, foi lançado em 1936, pela prestigiada editora José Olympio, num cenário de crescimento do mercado editorial nacional, o que contribuiu para o reconhecimento adquirido no meio letrado.

Rubem Braga ficou conhecido pelo lirismo em sua prosa. Escreveu sobre política e sobre guerras. Escreveu sobre a lua, sobre amizades e primavera. Escreveu também sobre despedidas – “e no meio dessa confusão alguém partiu sem se despedir. Foi triste, mas, se houvesse despedida, talvez fosse mais triste”. E assim foi, sem se despedir, que Rubem Braga morreu por insuficiência respiratória, em 19 de dezembro de 1990.

Sobre a autora:

Shirley Pinheiro

Graduanda em Letras pela Universidade Regional do Cariri.

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