Escrevo sob tortura. Os dias estão contabilizados. A cada dia a navalha corta um pedaço de carne da alma, enquanto tento amaciar o aço dos olhos. A morte manda recados, e desfilo pelas ruas escondendo o medo. Tremo, mas tento disfarçar.
Ainda quero colocar meu filho nos ombros e brincar. Celebrar a vida e as inventices do meu pai. Abraçar minha mãe e aprender com suas costuras. Adubar o mundo de esperança e fartura. Redescobrir a imaginação a partir do neto que ainda não veio. Soltar pipa na beira do meu terreiro e cultivar plantas.
Ler Marx deitado na rede para enfrentar a redução da jornada de trabalho. As pessoas precisam de tempo para trocar flores e repartir o caviar. Para os amores que passam sem dores, reservo a ternura de Pablo e de Thiago de Mello. Ainda quero ler todos os livros que comprei, os que ganhei e os que roubei. Aqueles que li apenas uma página ou nenhuma delas.
Escrever sob tortura é como montar alicerces com melancias. É desmontar sonhos, apertar o corpo até não conseguir mais gritar.
Ando de boca calada, porque parte de mim já morreu; a outra parte insiste em assassinar o que não deve florescer. Ainda é possível ver meus olhos abertos de espanto. Ainda é possível ver os meus olhos abertos.
Sobre o autor:

Alexandre Lucas
Alexandre Lucas é escrevedor, articulista e editor do Portal Vermelho no Ceará, pedagogo, artista/educador, militante do Coletivo Camaradas e a integrante da Comissão Cearense do Cultura Viva.
