Uma adolescente de 36

Estive ansiosa por muito tempo: velha demais para realizar sonhos, jovem demais para desistir deles. Uma canseira grande ter que correr atrás, já que a vida é sempre tão corrida; o bom mesmo é descansar. “Vou deixar pra lá”, assim pensei. Não tenho mais disposição, nem dinheiro. Fato. Preciso mesmo é de tranquilidade e de um lugar para me sentar.

Perdida, eu estava na maior parte dos meus dias. Levantava, comia, saía e sorria por obrigação, por educação.

Mas cadê o sorriso verdadeiro, que há muito tempo não se via? Frustrações atrás de frustrações. Será que valia a pena deixar os sonhos passarem? Ah, mas eu já aguentei até agora a sobrecarga que fui destinada a levar; o que é mais uma vez não dar certo? Deixar para lá? Sentei, chorei e pensei em tentar começar tudo de novo. Mas que novo? Se tudo o que eu queria tentar fazer era o que já fiz e não deu certo?

Ah, se minha história fosse igual às páginas dos livros: não entendi nada, volto e tento ler novamente, bem lentamente, bem calmamente. Mas não é. Tudo é acelerado. Quando pisquei, passei dos 17, pulei para os 36. Deixei objetivos, planos e amores para trás e segui a aceleração do passar dos anos. No mesmo momento em que o tempo passava, aquele sorriso passava também.

Claro que nem todos os dias eram um mar de melancolia, mas faltava bastante alegria, porque, de pouco em pouco, eu já não me importava mais — nem comigo, nem com meus sonhos de adolescente, nem com nada. No automático: era assim que eu sobrevivia. Sempre com muitos planos, mas eles nem iam mais para o papel; dissipavam-se ali mesmo, depois de serem feitos mentalmente. Porque, certamente, se fossem colocados no papel, iriam para uma gaveta velha, onde ficam as coisas que deixo para depois. E o depois passa… e, na faxina, seria jogado no lixo para dar espaço a outros planos, outros desenganos.

Às vezes somos tomados por uma tristeza que parece impossível de controlar. Já li tantas histórias lindas em que a mocinha sofre muito, mas, no final, dá aquela volta por cima — chega até a ser uma princesa perdida — e pronto: acabou seu sofrimento, seus problemas. Contos de fada! Pois onde está o final da nossa verdadeira história?

“Acorda pra vida, mulher!”, ecoou a voz da consciência. É doloroso viver mesmo, mas não desista dos sonhos — nem dos passados, nem dos futuros. Eu a ouvi. Coloquei a bota, a meia arrastão, uma blusa de banda, uma bandana vermelha e fui cantar Sweet Child O’ Mine.

Uma adolescente de 36 anos realizou um sonho e deixou que o depois viesse só depois — e não agora. E o que aconteceu depois é só mais uma página que ela irá ver se vale a pena escrever.

Sobre a autora:

Taynara Oliveira

Graduada em Letras pela Universidade Regional do Cariri (URCA).

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