As borboletas têm vida curta

Desfaço a mala para uma viagem que não fiz. Retiro a rosa semi-murcha, a blusa de frio que quase nunca uso, vou tirando peça por peça. Os livros de poesia, um saquinho de sementes e um rolo de papel higiênico, nunca esqueço de levar.

Sempre me perguntam por que levo um rolo de papel higiênico. Acredito que as estradas são imprevisíveis.

Ainda estou desmontando a mala e preenchendo outra ao mesmo tempo. O desejo de viajar é imenso, mas a coragem começa a fraquejar.

Abro o livro, leio a primeira página que me aparece. A poesia vem doce e engomada como blusa impecável de linho. A poesia está tão perfeitinha que enjoa. Troco o livro e coloco na mala algumas doses de realidade.

Hoje é quinta-feira, mala quase pronta, destino não definido. Vejo no celular a previsão do tempo: tempestades previstas para o final de semana. Fico pensando se as borboletas tomam banho.

As borboletas têm vida curta e não sobra tempo para arrumar as malas. Elas viajam sem prevenção.

Sobre o autor:

Alexandre Lucas

Alexandre Lucas é escrevedor, articulista e editor do Portal Vermelho no Ceará, pedagogo, artista/educador, militante do Coletivo Camaradas e a integrante da Comissão Cearense do Cultura Viva.

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