Contos para amanhecer

Mergulhar no livro Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estès,

é saltar para dentro de si

alumbrar nossos sonhos há tanto embotados

sentir o perfume das flores que vêm da alma

entoar uma canção de amor a nós mesmas

vestir nossa pele de lua

nos entregar aos movimentos da vida interior

recolher ossos no deserto, escolhendo o que vai viver e o que precisa morrer

estar perdida e achar uma senda

estar cansada e deitar sob uma árvore às margens de um rio, ouvindo o som das águas rolando com as pedras do leito

nutrir a fome de ser

nos deliciar com a terra molhada da chuva

compreender os ciclos da alma e do corpo

celebrar as colheitas e saudar o outono

abraçar as flores na primavera sabendo que ainda e sempre haverá inverno

acender uma fogueira e acessar memórias esquecidas

ter uma velha batendo à porta e dizendo, “vem, vem, é por aqui”

acessar o universo mais vasto, o que está dentro de nós, e ver as estrelas brilhando no céu da nossa noite

jogar as sementes e cuidar com paciência e constância para que as plantas rompam a terra e cresçam em direção à luz

saber que algumas crescerão vigorosas e outras morrerão no caminho

saborear as siriguelas, as goiabas, as tangerinas

colher os cafés em fruto

intuir a estrada diante do canavial cerrado

estar com as que vieram antes de nós e nos nutrir das suas palavras sábias, dos seus olhares que nos apontam os caminhos

ouvir o som das folhas secas sob nossos pés

não sair correndo depois que chegarmos à caverna escura e uma criatura peluda estiver à porta, nos esperando

nos aprofundar e, mesmo com medo da escuridão, conseguirmos ficar… e ficar… até que comecem a se acender pequenas luzinhas, como vagalumes, e podermos nos extasiar diante de quem somos

poder dizer com coragem, eu cumpri as etapas do processo, vagueei por desertos, entrei floresta adentro, enfrentei todos os perigos e voltei com a chama do fogo criativo, com minha alma tecida à mão, com a coragem de empunhar espadas, com a firmeza de bambus ao vento.

Sobre a autora:

Dina Melo

Amante das árvores, das nuvens, do vento, das águas e do som das palavras. Pés no chão, cabeça nas estrelas, sol em Touro e lua em Gêmeos. Herdou a força e a ligação com a Terra das suas ancestrais Tabajaras da Serra da Ibiapaba. Estudou Direito na UFC e é servidora do TRT Ceará.

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