O escritor é, antes de um tudo, um leitor

Segundo Jorge Luís Borges, dos diversos instrumentos produzidos pelo homem, o livro é o mais assombroso deles. É memória e imaginação. Ele traz consigo o poder de nos transportar para o passado, experienciar o presente e desejar o futuro. Além disso, todos os nossos sentidos são estimulados diante de uma obra.

O tema do homem lendo um livro foi, no século XVIII, foi um quadro doméstico bastante comum. George Steiner nos conta que o leitor não ia  ao encontro do livro “em trajes informais ou em desalinho”. O ato de ler era um investimento que carecia de uma vestimenta adequada. Ler era um encontro amoroso entre amante e amado: leitor e livro. Para esse encontro, o leitor levava “cortesia em seu coração”. É preciso estar com o corpo e a mente abertos diante de um livro.

“O tempo passa, mas o livro permanece. A vida do leitor mede-se em horas; a do livro, em milênios”. A Bíblia, por exemplo, é uma obra que tem atravessado séculos, assim como Dom Quixote (Miguel de Cervantes) e O Pequeno Príncipe (Antoine de Saint-Exupéry).

Os rios secam, as paixões acabam, o corpo envelhece, o autor e o leitor morrem, o livro renasce mais forte e pungente cada vez que é lido. Esse renascimento é condição sine qua non para que uma obra seja considerada clássica.

Em Por que ler os clássicos, Ítalo Calvino classifica como clássicos os livros em constante releitura, aquelas obras que constituem uma riqueza para quem leu e amou, para quem vai lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los.

Enquanto lemos, a existência passa e o leitor tem seus dias diminuídos. A palavra, ao contrário, tem sua força perpetuada. Seu poder vai desde exaltar uma obra literária, como aniquilá-la; legitimar ou enterrar a escrita de alguém.

Ler cada uma das palavras da Língua Portuguesa, apreendê-las em sua totalidade é uma missão impossível tendo em vista seu caráter polissêmico, ampliando, assim, nosso léxico. Steiner estava certo quando dizia que “Até mesmo os leitores mais obsessivos só conseguem ler uma fração minúscula da totalidade de textos existentes no mundo”. Uma pena. Há tanto para ser lido!

Sofremos da síndrome da palavra não lida, da palavra não apreendida. Ser leitor é experimentar o fascínio e a angústia diante de enormes prateleiras repletas de livros não lidos, dos livros não comprados, porque o verdadeiro leitor sempre precisa de mais livros. Ele acredita, sinceramente, ser capaz de ler tudo o que gostaria. Quem disse que todas as ilusões são ruins? Deve ser por isso que Taylor e Brown criaram a teoria da ilusão positiva, mas quem deve saber mais sobre isso é minha amiga psicóloga Júlia Barreira.

O tempo é curto, as obras são infindas não só para serem lidas, mas para serem compreendidas. Esse número aumenta se somarmos às obras que abrimos, aquelas que, ainda, não abrimos.

O leitor carrega a eterna culpa de não ler tudo aquilo que gostaria. Ele pode ser

culpado, mas não é passivo, já que a boa leitura exige uma resposta dele. Esse retorno vem em forma de texto, haja vista, que todo escritor é, antes de um tudo, um leitor.

A leitura é um convite à fabulação, à humanização. Pensando nisso, elaborei uma tabela com vários gêneros literários: conto, crônica, romance (memorialístico, ensaístico, distópico, epistolar, ficcional, autobiográfico, etc) e pedi que as participantes do Curso de Escrita Literária preenchem cada uma das linhas.

Mais do que conhecer a Biblioteca de cada uma delas (Elena Ferrante, Nelson Maca, Carlos Drummond de Andrade, Victor Frankl, Rachel de Queiroz, Alba de Céspedes, Valeska Zanello, Jarid Arraes, bell hooks, entre outros), meu desejo era compreender:

  1. Qual o gênero literário cada uma delas tem mais intimidade?
  2. Qual o gênero literário cada uma delas tem menos intimidade?
  3. Os escritores são predominantemente brasileiros? Ou estrangeiros?
  4. Os escritores são do eixo Sul-Sudeste?
  5. Os escritores são na sua maioria brancos e heterossexuais?
  6. Os escritores são majoritariamente do gênero masculino? Ou feminino?

Tudo isso importa, já que a leitura, assim como a escrita, é um ato político. Não é à toa que os governos totalitários queimam e censuram os livros, na vã tentativa de erradicar utopias e reescrever a história.

Esse mês o livro A bolsa Amarela (1976) da premiada escritora Lygia Bojunga foi motivo de censura na escola militar do Distrito Federal. Um grupo de pais de alunos questionaram a obra de abordar “questões de gênero” de maneira inadequada para crianças.

A Literatura para alguns pode até ser passatempo. Para outros, como eu e os ditadores, é uma ferramenta de poder. Enquanto eu enalteço e divulgo a arte literária, os ditadores destroem obras na pretensão de monopolizar a verdade e controlar a memória individual e coletiva.

Não nos esqueçamos de que o livro é um produto e o leitor é o seu consumidor. Para além de trazer histórias, ele gera conhecimento e exige uma postura diferenciada de quem o consome. Ao mesmo tempo que dá a ver, ensina a olhar diferente.

Saber o gosto literário desse(a) leitor (a) é importante para que possamos alavancar a leitura entre os jovens, desenvolver o gosto literário no ambiente escolar, em especial para que as editoras possam compreender para quem o livro deve ser destinado. O livro é para todos, mas nem todos têm acesso a ele.

Outro dia Ludimilla Barreira em um texto publicado no Nordestinados a Ler perguntou “Com quantos textos se faz um escritor /leitor?”, eu quero saber “De quantas leituras precisamos para escrever um texto?”, afinal, todo escritor é, antes de um tudo, um leitor.

Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva

Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler

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