Escrevi meu primeiro texto em abril de 2024, alguns dias antes de completar 46 anos.
Muito tempo depois daquela tarde na casa da minha avó materna, em que, brincando sobre o que queríamos ser quando crescer, eu tinha então 8 ou 9 anos, disse, escrever pra revistas. E, claro, ser professora: profissão que só exerci com meus irmãos, primos e filho.
Daquela tarde guardo a lembrança calorosa de estarmos numa mesinha baixa, perto da lavanderia, do fogão a lenha e de uma grande roseira, no lugar onde Francisca fazia paçoca e preparava o pó de café no pilão.
Nesse intervalo, meus escritos restringiram-se às redações da escola e, em raros momentos, a tentar entender algum turbilhão emocional pelo qual passava. Sempre tive preguiça de escrever. Muitas vezes pensei em escrever diários, duas ou três tentativas que não saíram da primeira página.
A vontade de escrever veio assim, num rompante. Antes de executá-la, no entanto, escrevi pra tentar entender o motivo desse desejo tão inusitado. Fiz também algumas conjecturas sobre as possíveis razões dessa lacuna de mais de três décadas. Foi trauma? Alguma crítica? Mas não atinei com nenhuma causa, simplesmente achava cansativo só de pensar na possibilidade.
Um dia peguei o computador e o texto preencheu a folha, quase por vontade própria. Embora sem explicação pra essa aspiração inesperada, esse fato ocorreu após minha ida, pela primeira vez, à Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP – e durante a releitura do livro Mulheres que correm com os lobos, Clarissa Pinkola Estés. Foram dois universos em que as palavras bailaram pomposas, doces, atraentes, inspiradoras, afetuosas, em que se iluminaram no ar, caíram nas gotas de chuva, escorregando nas pedras lisas das ruas de Paraty. Grudaram na minha pele, na minha língua, nas pontas dos meus dedos, nos meus cabelos. Comi frases inteiras, que me acenderam. Fiquei tão repleta de palavras que elas, sem ter mais onde preencher, arrebentaram as portas cerradas e levaram consigo décadas de silêncio.
Após os primeiros escritos, surgiu, grandioso e eloquente, um problema antes inexistente. A ausência. Vivo, desde então, um naufrágio excruciante. Busco, sofregamente, tempos nos quais possa sentar livre e escrever. E, desesperadamente, palavras que traduzam os signos do meu universo. Que revelem o fulgor dos segredos da minha alma, devorem meus pensamentos e traduzam-nos em equações inteligíveis, transpassem meu coração, me arrebatem e me queimem.
Mas as palavras que sei são tão poucas… saem flutuando, alheias ao meu desejo, vão-se pra longe… Por vezes, cambaleiam, indecisas, emaranham-se. Agarram-se na parede da minha mente e ficam quietas, reclusas, indispostas, não negociam, não cedem. Esmaecem antes do decalque no papel. Há tempos em que se atritam, cheias de pontas e lados irregulares.
Eventualmente, no entanto, sorriem nas janelas, acenam faceiras, cintilam e deslizam suaves no papel. Ah, nesses raros momentos fico tão inebriada que, submersa na ilusão, tento recolhê-las todas num cesto de flores, mas nem bem cumprem sua missão temporária, esvaem-se novamente.
Sim, minha relação com a escrita é uma batalha em que, no mais das vezes, me sinto perdedora e me pergunto, curiosa, por que me agarro às rochas ásperas, se sangram minhas mãos?
Sento nas raízes de uma árvore e ouço, ao longe, uma voz. É a “La que sabe”, a velha, convocando-me a me ouvir, a ouvir o mundo, a fazer esse escambo entre o que tá dentro e o que tá fora, que diz, mastiga o que vem do mundo porque chegou o tempo de rasgar as vestes e mostrar o peito nu. Chegou o tempo em que cair no abismo é a única queda que irá te salvar das construções absurdas e inúteis que erigistes na superfície, chegou o tempo de afiar os dentes nas sementes duras, o tempo de te parir, sem roupas, máscaras ou peito pra te consolar.
Bem ou mal, o texto se escreve porque, ao invés de cores, barro ou notas musicais, acredito que as fibras que trançam meu ser sejam ceifadas das matas de palavras que sempre percorri a pé, desde menina. E porque não sei ser eu num mundo de palavras silenciosas.
Sobre a autora:

Dina Melo
Amante das árvores, das nuvens, do vento, das águas e do som das palavras. Pés no chão, cabeça nas estrelas, sol em Touro e lua em Gêmeos. Herdou a força e a ligação com a Terra das suas ancestrais Tabajaras da Serra da Ibiapaba. Estudou Direito na UFC e é servidora do TRT Ceará.

Esse texto é poético. Parabéns!