Uma mulher de maio

Sou uma mulher feita das estrelas do sertão, da água da cacimba, dos lajedos do rio, do doce de leite cortado.

Sou a menina sentada nos galhos dos pés de siriguela, à sombra das imensas mangueiras de manga espada, correndo nas veredas dos extensos canaviais.

A que, à tardinha, após horas de banhos gelados de chuva, corria atrás das tanajuras e guardava numa lata vazia de leite em pó.

A que apanhava num cesto os grãos que caíam pelo chão, após as apanhadeiras deslizarem suas mãos nos galhos de café.

A que brincava mil vezes de escorregar no local em que caíam os bagaços da cana-de-açúcar, após passarem pelas moendas do engenho.

Sou feita dos cheiros de café torrado e pisado no pilão de madeira no quintal, de canjica feita do milho colhido ao redor da casa e amassado no ralador de flandres, das pamonhas quentinhas enroladas na palha de milho, do puxa-puxa e das rapaduras preparadas no engenho amarelo, das margaridas e das dálias.

Sou feita dos gostos de pirulito de açúcar nas festas de São Francisco, dos sorvetes rosa na casquinha, dos cajuzinhos coloridos comprados na bodega ao lado da casa de vó Raimunda.

Sou feita das rezas e cantigas das novenas de Nossa Senhora no mês de maio.

Esse é um mês especialmente doce, pois nasci no dia 09, numa terça-feira. Signo de Terra, nada mais significativo, revelador e simbólico. Também era um mês bastante chuvoso. Morávamos num sítio e, durante os trinta dias, minha avó Sara tirava a novena numa casa diferente. Eram muitas, além das moradias nos arredores.

Saíamos à noite, um grupo de mulheres, levando a imagem da santa, terços nas mãos. “A nós descei, divina luz, a nós descei, divina luz, em nossas almas acendei, o amor, o amor de Jesus”. Rogávamos pela luz divina nos caminhos escuros, alumiados apenas pelas lanternas que levávamos e, em alguns dias, pela lua. Inúmeras vezes, íamos sob forte aguaceiro, mal protegidas pelas sombrinhas, os pés encharcados de lama.

Em cada casa, uma mesa ornamentada com esmero e devoção. Em meio a flores e velas, pousávamos Nossa Senhora, com gravidade e respeito, e rezávamos o terço. “Salve, Rainha, Mãe de Misericórdia, vida, doçura e esperança nossa! Salve! A vós bradamos, os degredados filhos de Eva, gemendo e chorando neste vale de lágrimas”. 

Cada mulher rezava um mistério do rosário. Disfarçadamente, ansiava por aquele momento, observando atenta os dedos que corriam pelas continhas e, com um ardor no peito, para que lado os braços eram esticados após a última Ave-Maria. Quando meu crescimento foi reconhecido, deram-me o privilégio de tirar um mistério. Que honra e que contentamento! Eu rezava séria, concentrada para não errar nenhuma palavra e fazer jus ao santo encargo. “Ave-Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita sois Vós entre as mulheres e bendito é o fruto do Vosso ventre, Jesus”.

Meus primeiros círculos de mulheres.  Momentos de graça, de fé e de louvor, em que me sentia importante e pertencente. “13 de maio na cova da ira, no céu aparece a Virgem Maria. Ave, Ave, Ave-Maria, Ave, Ave, Ave-Maria.”

Apesar do clima sóbrio e compenetrado, era uma diversão só andar no escuro, pisando na lama e olhando o céu, às vezes estonteantemente brilhante, como só os céus do interior são capazes de ser, às vezes tão carregado de nuvens que não enxergávamos um palmo à nossa frente. E nem atrás, o que dava um medo imensurável de estarmos sendo perseguidas por espíritos que podiam, a qualquer momento, tocar nas nossas costas.

Também participei, muitas vezes, da coroação de Nossa Senhora na Igreja da cidade, no dia 31 de maio. Minha avó costurava uma túnica de cetim azul, com asas brancas, grandes e lindas, feitas de algodão. Ficávamos em um altar improvisado com várias mesas, umas sobre as outras, e havia patamares diferentes para os anjos – todos meninas – até o mais alto, no qual ficava o que coroaria Nossa Senhora.

Durante a cerimônia completa da missa, permanecíamos absolutamente imóveis, sob risco de desabarmos no chão. Sobretudo quando a coroação deixou de ser dentro da Igreja e passou a ser na calçada, alguns degraus acima do nível da rua. Uma queda daquela altura poderia ser fatal, mas naquela época ninguém pensava nisso. Preocupavam-se apenas com a magnitude e a beleza da festa para Maria.

A campainha tocou, ela levantou de um salto. Abriu a porta para a babá, pegou sua bolsa e saiu para o trabalho.

No mês de maio, também fazíamos as apresentações para as mães na escola. Como eu estudava num colégio de freiras, as homenagens eram entremeadas de cânticos para Maria, a mãe das mães.

“As Ave-Marias que eu rezava, eu sempre engolia umas palavras. Juntava as mãozinhas e rezava apressada, mas rezava como alguém que ama. Ave, Maria, mãe de Jesus, o tempo passa, não volta mais, tenho saudade daquele tempo, que eu te chamava de minha mãe”.

Eu costumava interpretar essa canção por meio da dança, coreografada pela irmã Vandinha, que havia sido minha professora no Jardim III.

Maio resplandece, assim, como a luz sobre as folhas ao entardecer, o mês que me acolheu no mundo, no qual passei tantas noites desperta com minha mãe, mês de rigoroso inverno, de banhos de chuva nas tardes felizes.

Sou uma mulher feita de luares, de suspiros, de sonhos dentro de sonhos, de mato, de terra molhada, de fruta e de flor.

Sou feita de todas as que estiveram comigo, de Maria, da minha mãe, da mãe da minha mãe, de todas as moradoras do sítio que estavam juntas na estrada. Da água que dá vida aos roçados, da fé que traz a comida pra mesa, que cura a doença das crianças, que dá força de acordar a cada dia e começar uma nova lida.   

“Pelas estradas da vida, nunca sozinha estás, contigo pelo caminho, Santa Maria vai. Ó, vem conosco, vem caminhar, Santa Maria vem. Ó, vem conosco, vem caminhar, Santa Maria vem. Mesmo que digam os homens, Tu nada podes mudar, luta por um mundo novo, de unidade e paz. Ó, vem conosco, vem caminhar, Santa Maria vem. Ó, vem conosco, vem caminhar, Santa Maria vem. Se parecer tua vida, inútil caminhar, lembra que abres caminho, outras te seguirão.”

Sobre a autora:

Dina Melo

Amante das árvores, das nuvens, do vento, das águas e do som das palavras. Pés no chão, cabeça nas estrelas, sol em Touro e lua em Gêmeos. Herdou a força e a ligação com a Terra das suas ancestrais Tabajaras da Serra da Ibiapaba. Estudou Direito na UFC e é servidora do TRT Ceará.

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