Da série: cartas para o universo

Querido F.,

Fico feliz quando realizo meus desejos nas noites em que me entrego à saudade e você aparece, de forma sorrateira, nos meus pensamentos. Encontrar você sempre é motivo para revirar minhas lembranças e acreditar que o universo me dará um dia tranquilo, largo e iluminado, assim como eram seus sorrisos quando me avistava de longe e acenava, me chamando.

Nos encontramos com os mesmos corpos de quando tínhamos trinta anos a menos. Éramos dois jovens experimentando a vida e carregando inúmeras promessas felizes, pois ainda havia tempo para cumpri-las.

Estávamos hospedados em um hotel em outra cidade. Eu era a turista, enquanto você me mostrava, com paciência, um caminho que conhecia com intimidade. Caminhávamos de mãos dadas, admirando os raios de sol que passavam pelos meus cabelos e iluminavam seu rosto, mesmo que a manhã fosse fria e preguiçosa.

Olhar para você era o que eu precisava para ter luz, o sol era um mero coadjuvante que apenas auxiliava os adoráveis contornos do seu rosto enquanto eu me nutria de energia para enfrentar a vida.

Chegávamos à universidade, e você me apresentava a biblioteca. Eram prateleiras altas, com corredores intermináveis, mas você me guiava com a autoridade de quem sabia a localização exata de todos os livros que nos importavam.

Com a certeza de que você me levaria para qualquer lugar em que eu me sentiria inteira, pois teria você e os livros ao meu redor, paramos ao lado de Literatura Portuguesa. Você puxou um livro fininho, sem deixar que eu lesse o nome. Enquanto eu tentava adivinhar o que você iria ler, reconheci, nas primeiras palavras, o nosso poeta querido. Porém, com a sua voz grave e semblante sério, tudo parecia certeza. Não havia abstração. Meu olhar saltava de ponta-cabeça na imensidão do seu oceano.

Então ouvi, atentamente:

Presságio

O AMOR, quando se revela,
 Não se sabe revelar.
 Sabe bem olhar p’ra ela,
 Mas não lhe sabe falar.


 Quem quer dizer o que sente
 Não sabe o que há de dizer.
 Fala: parece que mente…
 Cala: parece esquecer…
 
 Ah, mas se ela adivinhasse,
 Se pudesse ouvir o olhar, 
 E se um olhar lhe bastasse
 P’ra saber que a estão a amar!
 
 Mas quem sente muito, cala;
 Quem quer dizer quanto sente
 Fica sem alma nem fala,
 Fica só, inteiramente!
 
 Mas se isto puder contar-lhe
 O que não lhe ouso contar,
 Já não terei que falar-lhe
 Porque lhe estou a falar…

Fernando Pessoa

Eufórica com a declaração, tentei abraçá-lo. Não percebi sua mão estendida, segurando nossas alianças. Aquelas palavras que você pegou emprestadas já eram suficientes para comprovar o que, dentro de mim, sempre foi uma certeza: nosso amor.

Meu coração batia forte,a ponto de fazer todo meu corpo estremecer. Meus olhos procuravam os seus para confirmar que brilhávamos na mesma intensidade, mas você se afastava e se desfazia nas minhas mãos.

A luz desaparecia. Os livros desmoronavam. E eu fiquei sozinha.

Senti algo me partir ao meio e, depois, em mil pedacinhos que brilhavam, embora não mais que você ou o meu olhar ao querer te dizer um sim.

Então, apareceram fotos suas, atuais. Você de sorriso aberto, não maior do que quando carregávamos a inocência e a incerteza do futuro. Mas estava radiante, assim como o sol que iluminava seu rosto. Porém, não era eu quem refletia nos seus olhos.

Os olhos…

Exercito a minha memória diariamente para lembrar das suas duas jabuticabas, que se amiudavam cada vez que você sorria e me chamava.

Escrevo para lembrar da sua voz repetindo as palavras:

“O AMOR, quando se revela. Não se sabe revelar. Sabe bem olhar p’ra ela, mas não lhe sabe falar.”

Saudades.

Sua eterna,

S.

Sobre a autora:

Ludimilla Barreira

Mulher de muitas camadas. Mãe em um mundo real, embora a cabeça viva na terra da imaginação. Leitora, sonhadora e observadora da vida. Escreve para manter viva em si mesma e naqueles que a leem a esperança de que podemos ser e viver na realidade que criarmos, ainda que o mundo fora de nós conte outra história.

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