A arquitetura pública e o urbanismo não podem ser uma franquia de escritórios

A arquitetura pública e a urbanização devem atender ao interesse público. Isso, que parece óbvio, ainda é uma realidade distante dos mecanismos de controle e participação social no planejamento urbano e na concepção dos prédios de órgãos públicos, apesar de existir uma prerrogativa a partir de alguns marcos legais, como o Estatuto das Cidades e os Planos de Desenvolvimento Urbano.


Quando a arquitetura e o urbanismo são resultado de uma elaboração solitária, feita à distância da realidade, a tendência é que se produza algo frio e distante das necessidades da população.


O modelo de franquia da arquitetura e do urbanismo é uma tendência de mercado que torna o poder público refém de uma lógica que não atende à dimensão social nem à identidade urbanística e arquitetônica.


Dentro dessa lógica, é fundamental submeter a inversão de quem define. A população e os segmentos profissionais atingidos em cada setor devem ter o direito de apresentar e definir seus sonhos e necessidades, para que os profissionais da arquitetura, da engenharia civil e do paisagismo transformem a dimensão empírica e social em projetos que atendam ao interesse público, tendo como preocupação central a redução dos impactos ambientais e a promoção da qualidade de vida.


Pensar a arquitetura pública e o urbanismo nas cidades é fundamental para contemplar a durabilidade, a sustentabilidade, a acessibilidade, as etapas geracionais da população, a segurança pública, a destinação de áreas verdes que se contraponham à vegetação exótica e comercial, as alternativas baseadas na natureza e a contemplação e fruição estética.


Logicamente, isso deve estar alinhado ao planejamento urbano da cidade de forma a contribuir para processos de integração urbana.


O urbanismo e a arquitetura da escuta são fundamentais para ampliar o repertório de entendimento da realidade social e dos anseios populares, servindo de combustível para o desenho de uma cidade repleta de particularidade, inovação e engenharias capazes de estabelecer identidades, pertencimentos e cuidado comunitário. A arquitetura, a engenharia e o paisagismo podem ter uma escala de humanização sem desconsiderar os aspectos científicos.


Quando Burle Marx rediscute o paisagismo brasileiro inserindo a vegetação nativa em seus projetos, ele não aponta apenas uma ruptura estética, mas uma outra lógica de pensar o público, considerando aspectos locais e a contraposição à demanda predominante do paisagismo de mercado e europeu.


Cada vez mais, a urbanização e a arquitetura têm que se reinventar no sentido de radicalizar na redução dos impactos ambientais, tendo na centralidade de seus projetos o equilíbrio dos ecossistemas como elemento para minimizar os efeitos da emergência climática, que não é pauta exclusiva do Meio Ambiente, tendo em vista que é parte inseparável e estruturante da sociedade.


A arquitetura e o urbanismo são instrumentos fundamentais para garantir o prolongamento da vida humana, e isso requer um debate profundo sobre qual projeto de desenvolvimento queremos construir. A discussão sobre a constituição do espaço urbano é fundamental para a construção do direito à cidade, entendendo a cidade como espaço de disputa e contradição para uma outra humanidade.

Sobre o autor:

Alexandre Lucas

Alexandre Lucas é escrevedor, articulista e editor do Portal Vermelho no Ceará, pedagogo, artista/educador, militante do Coletivo Camaradas e a integrante da Comissão Cearense do Cultura Viva.

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