A.,
Visitei a sua cidade. Enquanto percorria seus caminhos, observava as luzes e as construções, tentei nos reencontrar em alguns trajetos e lugares, talvez passando dentro de algum ônibus, sentados em alguma calçada ou conversando enquanto aguardávamos em alguma fila.
Apenas nesse momento senti o vazio que a nossa intimidade deixou. Lembrei do quanto estávamos conectados por um fio invisível, que eu gosto de chamar de cumplicidade. Você ainda lembra? Não foi em um passado tão distante, mas as vezes parece que foi em outra vida.
Tento discordar dos meus próprios pensamentos na tentativa de manter a sua imagem intocavelmente etéria dentro das minhas lembranças. Me frustro ao pensar que, diferentemente da minha realidade, você sequer guarda uma pequena fração do seu bem mais precioso para nós dois, o tempo.
Parte de mim tem essa ideia de que nossa relação era perfeitamente adequada, mas a verdade é que não desejo negociar com uma vida da qual não poderia sequer olhar para o espelho e fitar um raio de dignidade no reflexo dos meus olhos.
Em parte, ter certeza do que não quero, mesmo com um mar de possibilidades ao meu redor, reduz drasticamente as minhas chances de errar nas escolhas. Bem, nesse caso, isso não quer dizer que, pelo menos em alguma medida, as escolhas que recuso não me fariam bem de alguma forma. A questão é que, mesmo trazendo algum retorno positivo, não conseguiria conviver com nenhuma delas.
As inúmeras ausências que nos separam não são as únicas culpadas pelo vazio que a nossa companhia nos deixou. Também não acredito que o destino tenha operado nesse caso. Foi a pulsão.
Não a de morte. Se ela sobressaísse, ainda estaríamos juntos, mas eu seria apenas uma fotografia dentro da sua carteira. Certamente eu não escreveria cartas nem voltaria a visitar a sua cidade. Estaria adubando as flores plásticas que suportam lágrimas, mas perdem as cores sob o sol.
Tinha consciência de que essa visita traria para mim uma batalha interna de negociações pelo retorno a uma vida da qual saí carregada de incertezas na bagagem, quando me lancei, sem você, como em um salto para dentro de um lago, caindo na escuridão de águas turvas, mas com a certeza de que, em algum momento os meus pés tocariam o chão.
Você não esperava que no fundo dessa água eu conseguisse enxergar quem eu poderia ser sem a sua influência e que recusaria a oferta que, recorrentemente, eu mesma fazia a mim, tentando convencer-me de que o passado e o presente continham a certeza da minha felicidade.
O retorno à sua cidade não me afetou de uma forma que aumentasse o vazio que sinto ao lembrar de nós dois. Dessa forma, percebi que nem todo espaço precisa ser preenchido; alguns vazios precisam existir para dar respiro a outras existências.
Agora, caminho em direção ao futuro e convivo com a certeza de que há um mar de possibilidades à minha disposição. Não deixo que as minhas escolhas entrem em conflito com a minha vontade ou necessidades. Pelo contrário, me jogo nas águas cristalinas das minhas decisões, porque as conheço e compreendo o que preciso. Consigo flutuar e nem sempre preciso tocar o chão, pois sou sustentada pela confiança em mim mesma.
Veja bem…
Eu consegui.
Sobre a autora:

Ludimilla Barreira
Mulher de muitas camadas. Mãe em um mundo real, embora a cabeça viva na terra da imaginação. Leitora, sonhadora e observadora da vida. Escreve para manter viva em si mesma e naqueles que a leem a esperança de que podemos ser e viver na realidade que criarmos, ainda que o mundo fora de nós conte outra história.
