O papel da arte na sociedade contemporânea

Você não precisa de artistas?

Então me devolve os momentos bons.

Os versos roubados de nós.

As cores do seu caminho…

Você não precisa de artistas?

Então fecha os olhos, mora no breu.

Esquece o que a arte te deu, finge que não te deu nada.

Nenhum som, nenhuma cor, nenhuma flor na sua blusa.

Nem Van Gogh, nem Tom Jobim, nem Gonzaga, nem Diadorim…. (Zélia Duncan)

O homem é, por excelência, um ser criador. Desconheço trabalhos de antropólogos ou de historiadores afirmando que exista um povo que não possua seus cantos, suas danças, suas pinturas, seus objetos de decoração.

Desde a Pré-História até a contemporaneidade, os homens continuam criando. Naquele tempo, criava-se pela necessidade de sobrevivência, observação e contato direto com a natureza. Na atualidade, cria-se pela precisão. Precisamos da arte, porque não somos seres completos, acabados, pelo contrário, somos famintos por absorvermos o novo, o belo, o diferente, o estranho; precisamos da arte, porque somos essencialmente seres individualistas e em contato com ela, nos coletivizamos; precisamos da arte para purificar nossas emoções, superar os nossos medos, dialogar com nossos traumas, precisamos da arte para nos humanizarmos e não naturalizarmos o sexismo, o estereótipo, o elitismo, as desigualdades sociais, feminicídio etc.

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser” nos lembra  Luís Vaz de Camões, o criador da maior epopeia em Língua Portuguesa, Os Lusíadas (1572). Muda-se o contexto histórico, muda-se a arte.  Com o apogeu do sistema capitalista, a arte foi transformada em mercadoria, gerando uma ambivalência, isto é, ela foi libertada dos modelos estéticos do passado – beleza, harmonia, técnica, burilação, gênio criador -, e foi aprisionada pelo mercado que dita padrões de consumo, de acesso e de circulação.

Walter Benjamin, para quem a arte é linguagem, em sua obra A era da reprodutibilidade técnica (1934), argumentava que a popularização da arte fez com que ela perdesse sua singularidade, sua unicidade e sua autenticidade. Ou seja, sua aura, aquilo que a tornava diferente de tudo aquilo que pudesse existir. O teórico afirmava que as antigas obras nasciam a serviço de um ritual: primeiro, mágico; depois, religioso. Ao perder sua aura, a arte perde sua tradição.

Em seu lugar surgem produtos culturais (filmes, músicas, livros, danças) padronizados e alienantes visando o lucro e o não pensamento crítico, priorizando o conceito em detrimento da técnica. Tem ainda o fato de que a arte com o passar dos anos tem se tornado individualista e contemplativa focando no artista e não na obra de arte em si, como já afirmava o modernista Mário de Andrade em O Baile das Quatro Artes (1975).

Indo ao encontro do que Walter Benjamin fala sobre a obra de arte, o também filosofo da escola de Frankfurt, Theodor Adorno se opõe a indústria cultural, que transforma a arte em mercadoria e puro suco de entretenimento. Ele defende (e eu também) que é preciso produzir uma arte verdadeiramente genuína e autêntica para que ela possa se opor às regras mercadológicas.

Vale destacar que, ao mesmo tempo que a reprodução de bens artísticos, antes restrito aos nobres e aos burgueses, chegou para a população em massa (é possível ter um quadro da Santa Ceia, de Leonardo da Vinci, comprado nas lojas de departamentos), em contrapartida, ela perde sua alma e se torna cópia vazia ou objeto comercial.

Sem a expressão única do seu criador, a arte não carrega um discurso crítico e não se torna uma ferramenta de resistência. Pelo contrário: converte-se em aleatória e efêmera. Por isso, Walter Benjamin defendia o retorno dos padrões estéticos da antiguidade para preservar a originalidade do objeto artístico.

É importante destacar que a perda da “aura” não acontece exclusivamente pela mudança dos padrões estéticos, mas também pela influência social. É o clássico caso do vizinho que comprou um quadro, e o outro vizinho, que não entende ou não se interessa por arte, compra também. Ou porque viu na novela, ou em um filme, ou nas redes sociais.

Recentemente uma influencer gastou muito dinheiro para comprar livros para a bancada da sua cozinha. Quando questionada em seu Instagram, ela respondeu: “o dinheiro é fruto do meu trabalho. Compro o que eu quiser”. A indústria cultural transforma o objeto artístico para o consumo rápido e decorativo. Eis a alienação de quem compra e não lê. Sem contar que, o valor alto do objeto, define sua importância e cria o mito da genialidade.

A arte genuína não é uma válvula de escape para quem cria ou quem a consome, tampouco um produto decorativo e passageiro. Não deve nascer da pressa nem visar o lucro. Além disso, não deve estar centrada no artista, mas na própria arte em si.

De modo geral, a arte contemporânea pode ser concebida preservando o equilíbrio entre o conceito e a técnica com foco na criatividade, na originalidade. Ao ser adornada pela alma, pela emoção, pelo enigma e pelo mistério da vida, a arte contemporânea pode ser uma importante ferramenta de resistência frente à indústria cultural.

Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva

Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *