Quando eu via na televisão os casais juntinhos, com um amor desses que enche seu coração de coragem de um tanto que você enfrenta a vida de peito aberto, com a certeza de que nenhuma espada te corta, eu sonhava com aquela possibilidade.
Foi como eu me senti quando o conheci. Depois, tive a impressão de que tinha apostado muito dinheiro e acertado a milhar do Jogo do Bicho. Me senti como se não fosse mais nem sobrar sorte para os meus próximos pedidos, teria sempre que recorrer a Deus.
Quando a gente se conheceu, achei que seríamos assim, um casalzão. Ele tão grande, forte e valente. Eu, um pouco tímida e desengonçada, mas segura de que ali eu estaria a salvo de todos os perigos do mundo, consciente de que estava certa de ter achado o meu escudo.
No início, nosso relacionamento era um sonho. Fui a escolhida pelo rapaz popular, engraçado e bonito. Daqueles que a gente olha e diz: “Fulano é um bom rapaz. Tão trabalhador e esforçado”. Não tinha mesmo como dar errado.
Mas aprendi desde nova que homem serve pra um trabalho e mulher serve para outro. Do jeito que era painho e mainha. Ele sempre na rua para trazer o sustento. Enquanto ela equilibrava tudo, para nada despencar e não ter desavença. A casa tinha que estar limpa, a comida sempre feita e ainda se manter como mulher bonita. Homem não quer fubanga.
Por isso, quando conheci meu marido, acreditei que a minha vida poderia ser como a dela. Vivendo feliz no meu castelo e sendo responsável pela felicidade da casa, independente do que acontecesse. Ele sempre confiaria em mim, pois casou com moça honesta que se entregou para um só homem.
Casamos após quatro meses de namoro. Tive a benção dos meus pais, que mais agradecerem por ele me levar do que, de fato, abençoaram. A gente abençoa para proclamar o bem. No meu caso, eles estavam meio que no lucro por não ter mais despesas comigo.
Estava com um rapaz bom da nossa comunidade e ele tinha como proporcionar uma vida confortável. Eu acreditei que minha vida estava resolvida. Minha família, satisfeita, pois entregou a única filha mulher ao que eles esperavam ser um bom genro. Talvez, um novo filho. Mas, apesar de qualquer dúvida, havia uma certeza: eu seria a esposa que sempre sonhei.
Saí de casa feliz. Finalmente, ia conhecer o mundo.
Não demorou e os filhos vieram. Veio um, depois outro e assim foram os seguintes, de vivo eu tenho quatro, alguns outros eu perdi pelo caminho. Não sei onde eu errei. Terá sido alguma promessa que deixei não cumprida pelo caminho?
Depois da primeira barriga, vi nosso amor secar, como um barreiro que se acaba depois que a chuva vai embora. Foi minguando, se acabando de forma lenta, mas sem parar. Eu continuava sem acreditar que aquilo estava acontecendo. E cada vez eu experimentava com um filho novo, na tentativa de apaziguar os nervos ciumentos dele. E ele sempre exigia cada vez mais de mim, que já lhe entregava a minha própria existência.
Não deu tempo nem de ficar fubanga, fui minguando. Fiquei magrinha, assim, com a respiração tão leve que ninguém nem me percebia.
Na casa de meus pais. Sim, deles. Ali eu não pertencia mais. Tentava mostrar que tudo estava sob controle. Afinal, eu seria boa igual mainha. Chegou um momento que pensei em pedir socorro. Mas, diferente da alegria que receberam a notícia do casamento, fingiram não entender que eu disse que precisava de ajuda.
Na rua, fechavam as portas e viravam os rostos para não olharem pra mim. Logo eu, moça direita que só se deitou com o marido. Não sei o que me indignava mais.
Foi assim que me vi destinada a viver essa vida. Não entendo o que fiz de errado. Eu fiz tudo igual como manda o padre na igreja. Sempre me perguntava: será que eu pequei sem saber?
Fui criando os meninos. Cresceram todos fortes, mas quando eu pensei que eles iam ficar igual ao pai, precisei tomar uma atitude. Se minha vida não deu certo, porque fiz tudo igual a mainha, não queria que eles achassem que precisavam fazer tudo igual ao painho. Eu não coloquei filho no mundo para isso.
Tomei uma decisão. Isso não era certo. Era melhor eu pagar para ninguém mais sofrer.
Na noite passada, seu delegado. Eu coloquei umas gotinhas de um remédio pra ele beber. Doutor, não gosto de sangue, nunca gostei nem de matar galinha.
Na noite passada, seu delegado. Eu coloquei umas gotinhas no suco dele. Doutor, eu não aguento ver sangue, nunca gostei nem de matar galinha.
Sobre a autora:

Ludimilla Barreira
Mulher de muitas camadas. Mãe em um mundo real, embora a cabeça viva na terra da imaginação. Leitora, sonhadora e observadora da vida. Escreve para manter viva em si mesma e naqueles que a leem a esperança de que podemos ser e viver na realidade que criarmos, ainda que o mundo fora de nós conte outra história.
