Aboio dolorido

Elisa olhou-se mais uma vez no grande espelho jateado da penteadeira de jacarandá, um dos móveis do seu quarto de solteira. A pródiga luz do dia que entrava pela janela lateral lhe dava uma visão realista de sua imagem. Pele muito alva, toda respingada de sardas, cabelos meio avermelhados e levemente cacheados, rosto redondo, lábios finos, nariz rebaixado, olhos esverdeados com cílios claros. Os traços faciais não lhe faziam feia, entretanto lhe negavam encanto. Entretanto, quando ria, mostrando mais gengivas do que dentes, seu rosto assumia um aspecto gracioso e juvenil, por conta das covinhas que ladeavam a boca, traços que herdara de sua mãe. Estatura mediana, pernas e cintura grossas, braços roliços e seios avantajados. As roupas que usava, de tecidos caros e modelos atualizados, confeccionadas por Dona Angelina, a melhor costureira da cidade, nem de longe, eram capazes de lhe conferir o sensual molejo de Idalina.

Dos quatro filhos do Coronel Arruda Alves e sua esposa Ernestina, Elisa era a única mulher. Seu nome foi dado em homenagem a avó paterna. Muito mimada desde que nasceu. Já contava com vinte e dois anos anos e ainda não tinha se casado. Os irmãos residiam na capital, um deles, deputado estadual, casado e com dois filhos menores e os outros três, na universidade. Ela estudou o suficiente para ser uma esposa devotada, mãe e dona de casa, aprendeu as prendas do lar, de modo que bordava e tricotava com perfeição. Seu pai comprou-lhe um piano porque às moças de boas e abastadas famílias era conveniente saber tocar o instrumento nos saraus promovidos nas tardes dos finais de semana. Elisa bem que tentou. O Coronel contratou-lhe uma exímia professora e a garota se esmerou, mas as partituras não lhe eram tão familiares como as agulhas,  linhas e tecidos. Sua laringe, ouvidos e cérebro rejeitaram o exercício de arte tão refinada. Elisa era desentoada como uma taboca rachada ao vento. Os dedos, sem nenhuma agilidade para mudar de teclas com o dinamismo que a música exigia, as ouças não captavam as mudanças de notas nem tampouco o diafragma controlava a respiração como necessário.  De sorte, conseguiu memorizar duas ou três canções mais fáceis de serem tocadas e cantadas, o suficiente para deixar seus pais iletrados arrotando orgulho, enquanto olhavam devotados para a encorpada moça, sentada na banqueta do piano.

Casar uma moça rica não era tarefa fácil. Os pretendentes deviam ter recursos compatíveis com os da família da pretensa noiva, além do que era conveniente que algumas relações de poder fossem levadas em consideração. Nessas circunstâncias as jovens contempladas com beleza e dinheiro tinham primazia nessa concorrência. O comum era que fossem desposadas antes de completarem vinte anos. Os pais de Elisa temiam que “desse o tiro da macaca”, expressão carregada de preconceito e que se referia as mulheres solteironas, assim consideradas a partir dos trinta anos. Nessa idade entendia-se que  as oportunidades se exauriam. Ultimavam-se as chances, assim como as do atirador de tiro ao alvo, nos brinquedos das quermesses, que tinham a quantidade certa de tiros para acertar na figura móvel da macaca.

Elisa e Idalina foram amigas inseparáveis na infância, confidentes na adolescência e comadres na vida adulta. As diferentes condições sociais entre as garotas não foram capazes de criar um fosso elas.  Idalina era filha de um dos moradores da Fazenda, que como os demais empregados, ganhava por dia de serviço e tinha direito a morar em casebres de pau-a-pique, construídas nas terras do patrão. Sebastião, pai de Idalina, quando alcançou a condição de administrador da propriedade rural do Coronel, passou a se arranchar com a família numa casa de tijolos e telhas, privilégio que não diminuiu a relação servil que mantinha com o patrão, nem lhe diferenciou, em grande escala, dos demais homens que entregavam suas forças de trabalho por parcos e incompatíveis contraprestações, além de dedicarem total lealdade ao dono da terra e se disporem para qualquer demanda, inclusive a de ser jagunço.

Idalina desde criança foi agraciada com a beleza. Tinha a pele de uma cor indefinida entre o preto e o pardo, cabelos negros e encaracolados, olhos castanhos amendoados e cor de mel, rosto angular com nariz ligeiramente largo no dorso e abas arrebitadas, boca pequena, carnuda e em formato de coração. Quando sorria, mostrava dentes alvos e bem feitos, dois colares de pérolas legítimas. Se na infância já era bonita, quando desabrochou na mocidade, era encanto puro. Alta para as mulheres da época, pernas longas e bem torneadas, braços e mãos proporcionais, cintura fina, seios firmes, nádegas arredondadas e salientes. Não andava, parecia flutuar num leve requebrar que arrastava a sua frente e na retaguarda todos os olhares.

 Assim como Elisa, Idalina era filha única.  Diva, esposa de Sebastião,  deu a luz a oito crianças. Destes, somente três vingaram. Dois meninos e Idalina, a caçula. Edilson, o primogênito, morreu pagão, com duas semanas depois de vir ao mundo. Contraiu gastroenterite, doença de criança, como denominavam naqueles rincões. Os chás de ervas e a rezadeira não conseguiram curá-lo. A disenteria persistente lhe cavou no rosto duas roxas olheiras e lhe deixou molinho, até que entre um suspiro forte e um revirar de olhos, morreu. Os pais muito tristes, derramaram algumas lágrimas, mas logo se conformaram na certeza que estavam mandando um anjinho para o céu. Embrulharam-lhe com um cueiro, depositaram seu frágil corpo em um caixãozinho de madeira e tecido azul claro com enfeites prateados, cavaram uma cova debaixo da porteira do curral e lá o sepultaram.

Dois anos após a morte de Edilson, nasceu Arnaldo, este vingou. Mais adiante veio Pedro. Bonito e forte como o irmão. Quando Pedro contava doze anos, tangendo para o curral parte do gado do Coronel, se aproximou demais de uma vaca parida que amamentava o bezerro recém-nascido. A  fêmea bovina com instinto materno de proteção a flor da pele investiu contra o garoto, enfiando-lhe os chifres no ventre e em seguida arremessando-o ao solo e lhe pisoteando, sem que pudessem lhe socorrer a tempo.  A tragédia comoveu todos que moravam na fazenda e nos arredores, inclusive os patrões, sentimento que não foi suficiente para dar aos pais enlutados dias de descanso a fim de chorarem sua perda, nem tampouco qualquer forma de indenização, se é que se pode ressarcir o preço de uma vida. O casal e o filho sobrevivente engoliram o choro, sedimentaram a dor e seguiram trabalhando. Sebastião, auxiliado por Arnaldo, na lida da administração e Diva,  além de sua ocupações domésticas, a lavar e passar as roupas da casa grande e ajudar na cozinha, quando a rotina da família do Coronel era alterada pela chegada dos filhos, da nora, netos, parentes e amigos. Esta obrigação era uma das contraprestações pela casa onde residiam e o trabalho remunerado do marido, mesmo que mal pago.

Nos anos seguintes à morte de Pedro, Diva deu a luz a Joaquim, que faleceu de meningite aos três anos, este chegou a ser batizado e por isso foi sepultado numa cova no cemitério da cidade.  Da gravidez seguinte veio um natimorto. Ela atribuiu o fato a notícia repentina da morte de sua mãe, que lhe foi dada dias antes do parto. Posteriormente nasceu Bento, bonito, vivaz e saudável. Adalgisa, a menina tão sonhada por Diva, veio depois. Coitadinha, encarnou bem minguada e com hidrocefalia. Aos quatro meses, numa tarde abafada de outubro, emitiu uns gemidos guturais, revirou os olhos e em seguida virou um anjinho. Não foi batizada. Seus pais constrangidos com a aparência da criança não escolheram os padrinhos; temiam que os pretensos convidados se melindrassem e considerassem que o apadrinhamento de um ser disforme poderia lhe acarretar má sorte. A exemplo dos irmãos pagãos, foi enterrada debaixo da porteira do curral, no mesmo que Pedro foi atacado pela vaca parida. Diva atribuiu a deficiência da filhinha tão desejada ao mau olhado de Quitéria, uma mulher deficiente que morava na redondeza. Ela vivia sozinha e, segundo acreditavam, tinha o dom da feitiçaria. As  grávidas se escondiam quando Quitéria  estava por perto, temiam pelas integridades dos filhos que carregavam nos ventres. Certa feita Diva se descuidou durante a gravidez e cruzou com Quitéria. Não deu outra, Adalgiza nasceu deficiente.

E, por derradeiro, como fim de rama, rechonchuda, espertinha, bonita e com os olhinhos acesos, veio Idalina. Os pais e os irmãos não se contiveram de tanta alegria. Convidaram o Coronel e Dona Ernestina para lhe apadrinharem já que Pedro, o afilhado do casal, morreu precocemente. Coincidentemente Diva e Ernestina ficaram grávidas na mesma época, de modo que Elisa e Idalina, nasceram no mesmo mês e ano, com diferenças de dias. O parto de Dona Ernestina foi muito difícil, ela teve um início de eclâmpsia. No resguardo não pode amamentar e, por isso Diva, durante seis meses, ficou morando num apêndice da casa grande a fim de amamentar  Elisa e Idalina. Mais do que previsível que as duas ficassem muito ligadas, como de fato ficaram.

Quando crianças e adolescentes as duas meninas eram carne e unha. Elisa, muito caprichosa, por vezes exigia que Idalina dormisse na casa grande, o que nem sempre era do gosto da menina, que por ser muito apegada aos pais, principalmente a mãe, preferia seu lar, mesmo à míngua do conforto do casarão dos padrinhos. Idalina sempre foi voluntariosa e, diferentemente dos pais, não lhe herdou a subserviência. Sabia se impor. De modo que quando não lhe agradava atender aos caprichos da amiga, não o fazia, por maior que fosse a insistência dela, de Sebastião e Diva e dos padrinhos. O Coronel e Dona Ernestina, não se sabe exatamente porquê, eram condescendente com o temperamento forte da afilhada e lhe dedicavam um afeto especial. Não obstante essa relação estreita entre classes sociais distintas há de se dizer que os padrinhos não eram pródigos com Idalina Os presentes que lhe davam, de regra, eram roupas, sapatos, sandálias, brinquedos já usados e desprezados por Elisa que muitas vezes, por mero ciúme, contrariava Dona Ernestina e  recusava o repasse de algum dos itens.

Quando brincavam, era comum, que ao ser contrariada, Elisa recolhesse os caros brinquedos a fim de chantagear a companheira, que muito sagaz, não se dava por vencida. Idalina era prevenida e não se separava do seu balaio de peças artesanais, repleto de bonecas de pano com cabelos de lã, feitas pela mãe, mobiliário das casinhas, habilmente talhado  pelo pai, panelas e utensílios de cerâmica perfeitos, confeccionadas por Arnaldo. Todos lhe faziam mimos e, na medida do possível, lhe satisfaziam os gostos. Há de se falar, no entanto, que mesmo havendo essas implicâncias infantis, Elisa e Idalina se gostavam muito e se sentiam felizes quando estavam juntas. Disso ninguém duvidava.

Idalina, na companhia de Elisa, e nos momentos de folga das atribuições escolares e domésticas, costumava cavalgar nos belos alazões da fazenda. De maneira que logo se tornaram excelentes amazonas. A filha do Coronel, além do amor pelos cavalos, demonstrou desde cedo interesse pela coleção de armas de fogo do pai. Na casa grande havia um autêntico arsenal.  Coronel Arruda, vaidoso pelo gosto da garota, ensinou-lhe tudo o que sabia sobre os citados artefatos, inclusive a usá-los com maestria. Era comum o Coronel Arruda competir amistosamente com os filhos a fim de constatar quem tinha melhor pontaria. À medida que Elisa crescia, ia aperfeiçoando a aptidão, até se tornar invencível naquele mister. O Coronel fingia um leve aborrecimento em ser sobrepujado pela excelência da jovem, mas na verdade se pavoneavae pelo fato.

Quando as meninas estavam por volta dos nove anos chegou à fazenda uma família de trabalhadores, a do Senhor Simião e Dona Augusta, com seus quatro filhos homens, o mais novo deles, um menino de doze anos, chamado Miguel. O senhor Simião trabalhava com couro. Fazia celas, gibões, rabichos, chicotes, alpargatas e outros apetrechos. Por ser um excelente artesão conseguiu amealhar recursos e comprou um pedacinho de terra na zona rural de um estado vizinho. Por capricho do destino, seu primogênito se envolveu em uma confusão e, em legítima defesa, matou a golpes de faca, um rapaz de uma família, economicamente remediada. Não tardou a promessa de vingança, que certamente se concretizaria. Coube a Simião a alternativa de pedir proteção ao Coronel, para quem há muito vendia peças de couro. Neste propósito vendeu seu pedacinho de chão e se mudou para a fazenda do protetor, onde pediu morada se dispondo a pagar com seus serviços e dos filhos.

Miguel era um garoto bonito. Herdou os olhos verdes do pai, um senhor de pele alva, aloirado e de olhos claros, da mãe tinha a cor marrom avermelhada e os cabelos lisos e pretos. Era um adolescente alto e forte. Além da beleza física, simpático, disposto e de fácil amizade. Costumeiramente as crianças e adolescentes do entorno da Fazenda brincavam juntas no terreiro da casa grande. E foi nessas circunstâncias que Elisa e Idalina conheceram Miguel. A atração entre eles foi instantânea. As meninas ficaram completamente hipnotizadas com a presença marcante do garoto, que correspondia em admiração, lisonja e cuidados com as amigas. Se antes a dupla Idalina e Elisa era inseparável, agora havia um trio que a cada dia fortalecia mais a relação em confiança, cumplicidade e bem-querer.

As meninas foram crescendo e seus corpos tomando formas delineadas, assumindo a inocente sensualidade da juventude. Elisa, não desbrochou com a mesma graça que a companheira.  Idalina, botou um corpo, como diziam naquelas plagas, cheio de graça e elegância. Era beleza pura. Fagueira e vivaz. Aprendeu a ler e escrever com a professora particular de Elisa. No entorno da fazenda não havia escola. O prefeito da cidade até se mobilizou no sentido de construir uma unidade com duas ou três salas, a pedido de alguns trabalhadores, mas o Coronel barrou a iniciativa. Irredutível, negou a pretensão afirmando que os filhos dos trabalhadores não precisavam aprender a ler e escrever e sim a lidar com a enxada, a terra e as criações. Mas, para Idalina, ele relevou a vedação e lhe permitiu o estudo básico. E ela aproveitou cada aula com muio interesse, demonstrando inteligência e sagacidade. E, tão logo ficou adolescente, sem pedir permissão ao Coronel, alfabetizou os dois irmãos e lhes ensinou a aritmética. Arnaldo e Bento, assim que endureceram os cogotes, mesmo diante das lágrimas da mãe e das admoestações e conselhos do pai, saíram pelo mundo a fora levando consigo seus saberes e em busca de melhores condições. Idalina havia lhes convencido que quem sabia ler e escrever vencia na vida e poderia ser o que quisesse. De fato, em uma terra de iletrados, ser alfabetizado fazia toda diferença.

E assim, determinada e voluntariosa, Idalina seguiu, aqui e ali, sempre a noite e em sua casa, alfabetizando e ensinando aritmética a algumas crianças e adolescentes do entorno. A notícia chegou até o Coronel, que fez uma carranca, reclamou com Ernestina, lhe imputando a culpa pela teimosia da afilhada e lhe acusando de ser benevolente demais com o temperamento dela, como se ele também não o fosse, afirmando que tomaria as providências. Mas quando Idalina chegou toda prosa, sorridente e pedindo-lhe a benção, seu coração amoleceu e deixou a bronca para o dia seguinte. Nem a bronca nem a providência chegaram a termo.

-Sua benção, Padrinho.

-Deus lhe abençoe.

-O padrinho trouxe outros cordéis?

-Trouxe. Ernestina guardou.

-Quando o senhor quer que eu leia?

-Na próxima noite de lua cheia. Chame os compadres para tomar um café e ouvir você recitando.

O Coronel e Dona Ernestina, confortavelmente sentados nas cadeiras de balaço do terraço, ladeados pelos trabalhadores e suas famílias, acomodadas nos degraus que davam acesso a residência, ansiosos esperavam o recital. A casa grande se erguia na parte mais alta da propriedade, não só por exigência arquitetônica, mas também por estratégia de segurança. O Coronel, como os que o antecederam, tinha inimigos, conquistados em decorrência do poder adquirido, que servia ao bem e ao mal, conforme as necessidades do seu interesse. Era toda pintada de branco, com varandas dos quatro lados, muitas janelas e iluminada por lampiões à gás. E era lá que Idalina e Elisa preparavam com esmero todo o ambiente para as apresentações cordelísticas. Cabia a filha do Coronel criar a sonoplastia e o cenário. Ela dava conta do recado. E Idalina não ficava atrás na incumbência de apresentar as histórias dos cordéis, de modo que o acontecimento era esperado e apreciado em demasia pelos expectadores.

Elisa improvisava um tablado para a amiga, tendo como fundo uma cortina iluminada pelo lampião a gás. Idalina se erguia airosa diante da plateia, se empertigava no palco e multiplicava os trejeitos, adequando-os aos versos. Elevava ou baixava a voz, chorava a ponto de verter lágrimas se assim o texto exigisse, ria, cantava e dançava, gerando nos expectadores medo, suspense, surpresa, alegria e risos. Era uma artista nata. O Coronel, Dona Ernestina e todos os que assistiam a apresentação se deliciavam. Os temas trazidos pelos versos eram os mais variados possíveis, iam desde das contendas homéricas entre os antepassados dos coronéis, romances de amores proibidos com suas inerentes tragédias, contos bíblicos e até a literatura clássica, que chegavam oralmente aos autores dos cordéis, e estes, lhe recontavam em versos, preenchendo as lacunas com imaginação e bom humor.

Miguel e sua família não perdiam as apresentações dos cordéis na casa do Coronel. Ele permanecia hipnotizado durante o recital, acompanhando extasiado os gestos teatrais de Idalina. Aos poucos, o sentimento de amizade pueril que dedicava a amiga foi  sendo substituído por outro com o qual não sabia lidar. Queria está sempre com ela. Sua imagem lhe acompanhava, estivesse dormindo ou acordado. Sentia o sangue esquentar nas veias e a face arder quando ela se aproximava e lhe fazia os carinhos costumeiros,  afastando os cabelos que lhe cobriam os olhos de esmeralda ou  enxugando o suor do rosto ou, ainda,  recostando a cabeça no seu ombro. Nessas ocasiões o hálito de Idalina esquentava suas bochechas e sentia uma vontade irresistível de lhe abraçar, lhe beijar e sentir seu corpo colado ao dela. Não tinha exata noção se Idalina percebia esta inquietação. Às vezes supunha que sim, que ela gostava de lhe ver agoniado, excitado. Ria-se dele, mas não era um riso irônico e sim compassivo, como se lhe dissesse que poderia ir mais adiante. Ela não falava, apenas insinuava, ou será que não? Será que ele que estaria interpretando errado a simpatia e afeto da amiga?

Elisa logo compreendeu que Miguel estava tomado de amores por Idalina e se ressentiu. O sentimento de amizade que nutria por ele assumiu, silenciosamente, outra feição. Pensava nele o dia todo e todos os dias e, ironicamente com a mesma sofreguidão e desejo com que Miguel desejava Idalina. Sofria em silêncio e, em dose dupla, por não ser sua preferida e, principalmente por prevê  que mesmo que a paixão fosse correspondida, estaria fadada ao fracasso, dado o fosso social que os separava. Decidiu-se a aproveitar ao máximo a presença do amigo e, sempre que possível criava circunstâncias nas quais era auxiliada ou socorrida por ele. O simples fato de está sentindo sua presença e seu contato já eram suficiente para  dá vazão as suas fantasias. Idalina, a tudo assistia com condescendência. Cedo intuiu que não havia reciprocidade do sentimento por parte de Miguel, embora tivesse consciência que ele dedicava à Elisa a mais sincera e pura amizade. As companheiras fizeram um pacto tácito de silêncio sobre o assunto e, cada uma delas, a seu modo, aproveitava Miguel.

E nesse compasso seguiam as duas moças e o tão desejado rapaz. Quando a paixão e o bem-querer de Miguel e Idalina se tornaram evidentes, resolveram oficializar o namoro e consequente noivado.  As famílias dos noivos fizeram gosto e os padrinhos de Idalina também. Elisa engoliu o choro e, embalde, tentou suplantar seu arrebatamento. O noivado do casal e a paixão secreta de Elisa não abalaram a amizade entre as duas jovens. Continuaram suas rotinas, inclusive com os banhos de rio semanais que faziam nos finais de tarde, ocasiões em que se embeveciam com os pores do sol. O rio caudaloso e largo corria logo atrás da colina onde se erguia a casa grande. De suas varandas laterais e do fundo era possível vê-lo. Os moradores do entorno não ousavam se banhar no trecho que serpenteava a casa. Lá, somente as lavadeiras de roupa, as mulheres e os homens da família do Coronel podiam se deleitar com seus banhos.

Naquela tarde, Elisa, como costumava fazer nos finais de semana, foi até a casa de Idalina para juntas irem ao rio. Surpreendeu-se quando Diva lhe falou que a filha já havia ido para o banho há mais de uma hora. Surpresa e intrigada com o comportamento da companheira seguiu o habitual caminho e, a uma certa distância, ouviu vozes e risos conhecidos. Reconheceu-os como de Miguel e Idalina. Seu sangue congelou nas veias. Seria possível que o casal se atrevesse a tanto? Eram apenas noivos. Os bons costumes recomendavam parcimônia nestas circunstâncias e que sequer ficassem a sós. Banharem-se sozinhos seria pura libertinagem, mau exemplo, conduta inaceitável. Com pensamentos e perguntas chocando-se em sua mente, Elisa aproximou-se mais ainda e avistou a  grande pedra branca que se espraiava na margem, onde desde criança, ela e a amiga se deitavam para apreciar o céu e os pores de sol, às vezes em silêncio, outras em risos e conversas.

Beirando a margem do rio havia várias árvores de grande porte que, além das sombras benfazejas, tornavam mais encantador o lugar. Elisa, pé ante pé, alcançou o vigoroso tronco de uma timbaubeira e o abraçou, tanto para se amparar e se refazer do susto como poder prescrutar o casal sem que fosse percebida. O local lhe foi estratégico, olhava e não era vista. E a cena que presenciou, de tão bela e impressionante, nunca mais lhe saiu da mente nem dos sentidos. O por do sol já se anunciava. As cores avermelhadas do arrebol pincelavam o azul do céu em um espetáculo esplendoroso de cores. Os raios solares refletiam na água cristalina e na areia da orla criando formas caleidoscópicas. Os pássaros, retornando para seus ninhos, faziam voos rasantes entoando gorjeios numa sinfonia encantadora. A temperatura amena completava o cenário paradisíaco. E no meio dessa beleza estonteante estava o casal, como se fossem Adão e Eva,  se deliciando das dádivas do paraíso e se descobrindo como homem e mulher.

Idalina, quase em pelo, havia despido o vestido e lhe cobria sumariamente o corpo apenas a combinação branca e curta de morim, com decote bem cavado e alças finas. Debaixo daquela peça íntima nada mais lhe defendia da nudez. O tecido leve e de trama aberta estava molhado, grudado ao corpo esbelto da moça, fazendo pregas e reentrâncias, a depender dos seus movimentos.  Miguel, abraçado a noiva e também em pelo. As vergonhas do rapaz estavam tapadas somente por uma cueca de morim, completamente colada as suas nádegas. Beijavam-se e se abraçavam  sofregamente entre risinhos maliciosos, cochichos e gemidos. Os raios tardios do sol que ainda se punha, refletiam na pele molhada de Idalina dando-lhe uma coloração e brilho viçosos. As gotículas d’água, pequenos brilhantes, deslizavam nos braços, pernas e colo da jovem, desmanchando-se em filetes. Os cabelos longos e levemente cacheados rodeavam-lhe o corpo, aderindo aqui e ali as suas curvas e lhe aumentando a exuberância. Os olhos de Elisa contemplavam o casal,  transitando do corpo de um para o do outro, detendo-se mais em Miguel. Tudo nele era bonito, perfeito e atraente. Ela nunca vira um homem, já feito, nu. A imagem real que tinha da masculinidade era a dos seus irmãos desnudos quando ainda crianças.

Enquanto olhava embevecida a imagem seminua de Miguel, vieram à mente de Elisa lembranças do dia em que ela e Idalina, durante as férias de Haroldo, entraram sorrateiramente no quarto dele, para de lá retirar um livro volumoso do curso de medicina. Elisa havia contado à companheira que certa vez enquanto o irmão estudava, olhou de soslaio para o compêndio e viu a imagem de um homem nu. Determinaram-se a ver a figura de forma mais detida, de modo que pudessem se inteirar de todos os detalhes do corpo masculino. Estavam compenetradas nesta análise quando Haroldo, sorrindo complacentemente,  lhes interrompeu o estudo e pediu o livro de volta. As duas lhe suplicaram sigilo acerca daquela transgressão e garantiram que não mais voltariam a praticá-la. É certo que naquela ocasião teve uma noção de como seria um homem nu, mas nada comparável ao que via ali diante dos seus olhos, ao vivo e em cores. Nu, diante de si, estava o homem que julgava ser o mais lindo do mundo.

Os pensamentos intrusos e acelerados não diminuíam a extasiada curiosidade de Elisa. Queria ver tudo nos mínimos detalhes. Percebeu que a ânsia sensual do casal aumentava a cada minuto em compasso com suas respirações ofegantes. Viu quando Miguel ergueu Idalina, tirou-a da água e deitou-a sobre a pedra branca. Em seguida ele emergiu do rio e se prostrou de pé ao lado da rocha, admirando apaixonadamente a noiva. Nessa perspectiva, Elisa pode vê-lo em sua inteireza e com um detalhe a mais, que não percebeu na imagem do compêndio de medicina. Assustada constatou o efeito do prazer no avantajado membro masculino do rapaz, completamente hirto, saltando pela braguilha da cueca. Colocou a mão na boca a fim de sufocar um grito de espanto. Sentiu um arrepio lhe percorrer o corpo e seu sexo se intumesceu, tal qual se dava quando se imaginava aos beijos e abraços com Miguel. De certo que nas suas mais ousadas fantasias jamais chegou imaginá-lo nu. Sequer havia suposto que a intimidade entre um homem e uma mulher chegasse a tanto. Desde criança presenciou os coitos dos animais da fazenda, ocasiões em que seu pai e irmãos davam um jeito de lhe afastar dos locais onde ocorriam, mas quando cogitava a relação entre um casal, não  se atrevia a vê-los naquelas circunstâncias. Talvez as aulas de catecismo e admoestações do Padre Anchieta tivessem bloqueado seu raciocínio e lhe impedissem de pensar as coisas como realmente são.

Miguel acariciou devagar cada parte do corpo de Idalina, detendo suas mãos ágeis nos seios da jovem, que se sobressaíam no tórax à semelhança de dois montes gêmeos, perfeitos em tamanhos e formas. Idalina, agilmente inverteu as posições em que estavam e se colocou sobre o noivo, retribuindo com beijos e afagos cada carinho recebido. Em seguida deslizou devagar até que seu rosto chegasse à pélvis do moço e lá, com mãos e boca, lhe proporcionou afagos inimagináveis ao recato de Elisa. Em minutos que pareceram uma eternidade os amantes permaneceram nesse jogo prazeroso, até que o rapaz voltou a se posicionar sobre Idalina, que afastou as pernas uma da outra a fim de que Miguel melhor se encaixasse e, entre gemidos e movimentos rítmicos, se consumiram e consumaram o ato mais antigo da criação.

Elisa contemplou aquela cena e se encantou, sem julgá-la imoral, indecente ou pecaminosa. Nunca imaginou seus pais como um casal apaixonado, nem tampouco os outros com quem convivia. Eram uniões convenientes, sólidas, baseadas na confiança, respeito e amor reverencial por parte das mulheres a seus maridos. Lembrou que tão logo ela e Idalina ficaram adolescentes suas mães, insistentemente lhes advertiam sobre a necessidade de manterem a pureza, a virgindade e de não pecarem contra a castidade, lhes admoestando sobre tudo de ruim que acontecia às mulheres que não se davam a preço, que de regra estavam destinadas à prostituição, ao desprezo e humilhação. Contrariando essa visão pessimista ela concluiu que o arrebatamento passional busca a liberdade e encoraja os que o sentem, e que nada nem ninguém pode colocar freios na paixão que explode em dois corações e se materializa em seus corpos. Sentiu um nó na garganta e uma dor no peito ao pensar que talvez nunca vivesse aquela experiência. Certamente estava destinada a um casamento com um homem que tivesse a aprovação de sua família. Poderia ser um jovem bom, bonito e inteligente, assim como  um viúvo de meia idade, grosseiro e de pouca instrução.

Ao tempo em que organizava seus pensamentos e embora ainda arrebatada pela cena que presenciou, a razão veio a mente de Elisa. Sim, nada do que viu, na sua concepção, era ruim, entretanto não estava acobertado pelas regras postas no mundo em que viviam. E, segundo tais normas, Idalina poderia se dá muito mal caso Miguel a deixasse, não reparasse o erro, como se falava. E se ele além de não casar com Elisa, desse com a língua nos dentes e contasse que Idalina não era mais virgem. A vida de sua amiga estaria destruída. Mesmo que seus pais não a pusessem para fora de casa, as mulheres a execrariam, temeriam que seus maridos a tomassem por useira e vezeira. Não, Idalina não aceitaria ser amante de coronel, mas eles não a deixariam em paz. Um frio lhe percorreu a espinha em pensar que tudo isso poderia acontecer com sua amiga, e que nessas circunstâncias sua amizade seria cortada definitivamente. Os seus pais não mais acolheriam Idalina como antes.

Passaram-se alguns dias desde da cena do rio. Elisa esperou em vão que Idalina lhe confidenciasse que havia se entregado ao noivo. Os temores de Elisa foram aos poucos cedendo diante da evidência de que o casal continuava apaixonado e em breve casaria. Seu medo se concentrava agora tão somente na possibilidade de que a amiga estivesse grávida antes do casamento. As consequências seriam, igualmente escandalosas e abririam espaços para que os Coronéis e até e até mesmo os trabalhadores do entorno não lhe dignassem respeito como o faziam em relação demais mulheres casadas.

Um ano após o casamento de Idalina e Miguel, nasceu o primogênito do casal. Deram-lhe o nome de Pedro, em homenagem ao tio que, precoce e tragicamente morreu. Pedro teve como padrinhos Elisa e Haroldo. Uma criança não poderia ser mais bela, simpática e ativa. Era a alegria dos avós, da madrinha e até mesmo do Coronel e Dona Ernestina, em cuja casa não havia crianças. Miguel conseguiu comprar um pedacinho de terra, próximo a fazenda do Coronel e lá se estabeleceu com o ofício que aprendeu do pai. Idalina, além das ocupações do lar, persistia na ideia de alfabetizar as crianças e adolescentes do entorno e nesse propósito, não poupava esforços, contando sempre com a parceria de Elisa e a condescendência do Coronel Arruda, que não contribuía mas também não impunha obstáculos.

O tempo se arrastava sem muitas novidades. Elisa já havia rejeitado dois casamentos arranjados pelo pai. Eram viúvos ricos, de meia idade, feiosos, grosseiros e de índole duvidosas. Aos vinte e três anos finalmente aceitou se casar com o Coronel Isidoro, viúvo de quarenta e seis anos, com dois filhos adultos que estudavam e residiam na capital. Era um homem de posses e influência política, bem-afeiçoado e simpático. Vestia-se bem e cheirava a água-de colônia francesa. Estabeleceram-se numa boa e bonita casa numa fazenda vizinha a dos pais de Elisa. Não se pode dizer que não simpatizasse com o marido e que até nutrisse por ele um bem-querer, entretanto nada comparado ao amor amordaçado e secreto que sentia por Miguel. O casamento não afastou Elisa de Idalina e Miguel, de modo que sempre os visitava e reclamava da comadre que não correspondia em número e constância as citadas visitas. Por vezes Elisa percebeu o olhar insistente e lascivo do marido para a amiga, mas desconsiderou e supôs que estava sendo intransigente e precipitada em seus julgamentos.

Em um final de semana  no qual Miguel havia ido à cidade, Idalina foi surpreendida com a visita do Coronel Isidoro. Ao vê-lo tomou um grande susto. Imaginou que estivesse ali como mensageiro de uma má notícia, uma vez que não era seu costume aparecer sozinho na sua residência. Superada a surpresa e após fazer as honras da casa, inquiriu a visita sobre o porquê de sua vinda.

– Coronel é um prazer recebê-lo na nossa casa. Mas agora que sei que não é mensageiro de má notícia, pode me dizer a que veio? – Elisa, desde do primeiro contato com o marido da amiga, percebeu seu olhar lascivo e suas segundas intenções nos cumprimentos e elogios. Tentava evitar ao máximo se encontrar com ele, principalmente quando estava com o marido, temendo que ele tivesse a mesma impressão.

– Idalina, eu sei que meu sogro, minha sogra e Elisa têm grande apreço por você e que merece essa consideração. Elisa lhe quer como uma irmã. Estou querendo fazer uma boa surpresa para ela.

– Que bom Coronel. Elisa é como uma irmã para mim. Tudo que for para felicidade dela e tiver ao meu alcance, eu farei. Mas não sei exatamente como poderei lhe ajudar.

– Elisa me falou que o seu sonho é construir uma escola na fazenda e que meu sogro foi contrário a ideia. Os tempos mudaram. Toda fazenda que se preze tem uma escola para os filhos dos trabalhadores. Eu vou instalar uma escola na minha fazenda e quero que você seja a responsável, a Diretora.  Você aceita? – Elisa ainda espantada com a visita inesperada, ficou visivelmente emocionada com a notícia.

– Coronel, esse é meu grande sonho e tenho certeza que Elisa compartilha dele. Ela vai ficar muito feliz. Quando poderemos lhe contar a novidade?

– Vai depender de você. Posso mandar construir o prédio, mobilhá-lo, contratar professores, tudo em menos de três meses.

– Depende de mim? De eu aceitar a incumbência? Claro que aceitarei. Reorganizarei minha rotina, arrumarei tempo. Amanhã mesmo, depois que contar a novidade a Miguel, iremos falar com Elisa.

– Não é só isso. Você sabe que não.

– Como assim Coronel? Não sei do que o senhor está falando.

– Sabe sim. Você sabe que fiquei doido por você desde que lhe vi pela primeira vez. Esse seu jeito faceiro, seu requebrado, esse olhar de gata no cio me deixam alucinado. Estou apaixonado por você. Eu posso lhe dar a escola e muio mais. Ninguém precisa ficar sabendo, nem Miguel nem Elisa. Você terá roupas, joias, perfumes, o que quiser. Dirá que que o salário de professora lhe garante o luxo.

– Coronel o senhor não tem ideia de quem eu sou. Amo meu marido e lhe sou fiel. Jamais o trairia, nem a ele nem a Elisa. Não desejo mais do que eu tenho. Sou uma mulher feliz. Se o senhor não sair da minha casa imediatamente, eu vou gritar pedindo ajuda e direi a todos a proposta indecente e humilhante que está me fazendo.

– Ora, ora, temos uma aqui uma pobre orgulhosa. Uma negrinha atrevida e mal-agradecida. É isso que dá tratar empregados com se fossem iguais aos patrões. Fique sabendo que suportei sua amizade com minha esposa, porque quero você como minha manteúda. E sei que também é isso que quer. Está se fazendo de difícil para eu aumentar a proposta, não é? Vamos lá, diga seu preço.

– Coronel não se aproxime de mim. Saia da minha casa. Vou gritar pedindo ajuda.

– Grite, em quem acha que as pessoas irão acreditar?

Isidoro se aproximava de Idalina e ela recuava e se encantoava na sala. Ele era alto e forte, de modo que facilmente lhe dominou e imobilizou, passando a lhe beijar sofregamente. Mesmo diante do choro desesperado e do clamor da indefesa mulher, lhe rasgou a parte superior do vestido, deixando a mostras seus seios, que beijou e mordeu avidamente. Esta cena de horror e medo foi interrompida pela brusca chegada de Miguel que, da cancela ouviu os apelos da esposa. Ao ver o estado em que se encontrava e a covarde investida do Coronel, foi tomado pelo ódio e ciúmes, investindo contra o agressor de companheira, arrastando-o para o terreiro da casa, onde lhe esbofeteou reiteradamente, derrubando-o e levantando-o pelas aberturas até ser contido pelos vizinhos. O fato escandalizou a todos. O Coronel Isidoro, vociferando ameaças, com terno de linho branco amarrotado, cabelos em desalinho e a boca sangrando, foi levado ao automóvel e foi embora.

No dia seguinte o Coronel Arruda e Dona Ernestina foram até a casa de Idalina e Miguel lhes prestar parcial solidariedade, uma vez que lhe pediram em nome da amizade e dos pretéritos favores prestados, que o fato fosse abafado e a história se encerrasse ali, garantindo que já haviam tomado todas providências a fim de que Elisa jamais soubesse do que havia acontecido. Convencendo-os que esta seria a melhor solução para salvaguardar a honra de Idalina e a amizade das famílias, comprometendo-se que Isidoro nunca mais ousaria lhes perturbar. Como é comum ocorrer, o lado mais fraco sempre suporta o estrago. Elisa e Miguel, embora revoltados, compreenderam que o bom senso lhes  recomendava aceitar a proposta do Coronel Arruda.

Elisa costumava andar à cavalo logo ao amanhecer. Numa manhã de maio, quando cavalgava nos arredores da fazenda em que morava, apeou o animal debaixo da sombra de uma árvore na curva da estrada a fim de descansar. O sol já tinha se levantado no céu  e ela estava absorta na contemplação, quando ouviu vozes masculinas que vinham do outro lado. Não as identificou. Não sabe exatamente porque apurou as ouças para compreender o sentido das falas.

– A pega de boi é hoje pela manhã. Miguel está inscrito e vai fazer parelha com Juvenal. Vai ser na mata dos altos, no sítio Aroeira. A mata é fechada e os bois escolhidos são bem brabos. Já lhe inscrevi.  Para fazer o serviço tem que ser bom na pega e na mira. O cabra é um dos melhores vaqueiros. É ligeiro que nem vento. Entra em qualquer capoeira. Não tem medo de nada. Aqui está a metade do preço. O Coronel Isidoro lhe pagará o restante quando o serviço for feito.  Está lhe pagando caro. Ele não pode ficar desmoralizado. Miguel lhe deu uma surra grande e na frente de testemunhas.  Você não pode deixar rastro. Vão achar que a morte de Miguel é vingança por um crime antigo que o irmão dele fez no lugar onde morava.

Elisa se sobressaltou. Repetiu em voz alta os nomes do marido e de Miguel. Tratava-se de um acerto de contas, um crime encomendado pelo seu marido? Miguel havia surrado Isidoro? Quando e por quê? Num átimo de segundo juntou peças, lembrou dos olhares lascivos que o esposo lançava para Idalina. Compreendeu por que a amiga resistia em atender aos seus convites para lhe visitar? Será que Isidoro tinha ido além dos olhares? O que teria acontecido? Por que não lhe contaram? Pragmática que era, entendeu que não era momento para cogitações. Um crime estava na iminência de acontecer, a vida de Miguel corria risco. Montou no cavalo e em disparada  se dirigiu a casa de Miguel. Iria avisá-lo da pretensa emboscada, impedi-lo de ir a pega de boi e só depois esclareceria os fatos com Isidoro.

Elisa impôs ao cavalo uma velocidade nunca antes praticada, nem quando na adolescência, competia com os irmãos e Idalina. Seu coração estava saltando do peito. A única chance de salvar Miguel era impedi-lo de ir a pega, chegar a sua casa antes que tivesse saído. Ela não sabia exatamente onde seria a competição, embora tivesse uma noção de onde ficava o Sítio Araoeira. Não poderia perder tempo pegando informações. Seus pensamentos atropelavam as orações que fazia, alternadamente, em pensamento e voz alta. Teria que cobrir uma distância de aproximadamente duas léguas no menor tempo que pudesse. Naquele momento constatou o quanto amava Miguel e como lhe doeria perdê-lo. Sim, ele era de Idalina, mas não se importava. Amava os dois de uma maneira peculiar, inexplicável. Nunca tinha cogitado a morte de nenhum deles. Os três eram muito jovens para considerar o fim como uma certeza inarredável. Prometia a si mesma que acertaria as contas com Isidoro caso algo de mal acontecesse a Miguel e que se a emboscada não lograsse êxito, também não viveria mais com o marido. Perdera o respeito e bem-querença que lhe tinha.

Nessa transloucada cavalgada Elisa superou em um tempo recorde as léguas que lhe separavam da casa de Miguel. Invadiu o terreiro gritando por ele num apelo desesperado. Idalina, trêmula e assustada, correu para a porta da frente, carregando Pedro nos braços, perguntando a amiga o que acontecera para que estivesse tão desesperada.

– Elisa, minha irmã, o que aconteceu?

– Miguel, onde está Miguel?

– Ele saiu há mais ou menos uma hora. Foi para uma pega de boi.

– Elisa, desesperada, perguntou aos prantos, se a amiga, sabia onde seria a pega.

– Sei, já fui com ele a uma pega nesse mesmo lugar.

– Vamos até lá. Pegue o cavalo e uma arma e vamos logo, imediatamente.

– Valha-me Deus, o que está acontecendo Elisa?- De logo Idalina intuiu a iminente tragédia. Um tremor macabro tomou conta do seu corpo. O pavor lhe dominou o espírito, de  maneira que não conseguiu concatenar as ideias. Não havia se tranquilizado com a promessa do padrinho de que o genro esqueceria o acontecido. Tratava-se de um coronel. Essa gente é vingativa, arrogante e Miguel havia dado  uma boa e merecida surra em Isidoro.

– Isidoro contratou um capanga para matar Miguel. O cabra já foi para a pega. Não há tempo a perder. Vamos.

– Elisa, você está armada?

– Sim, você sabe que não ando sem arma.

Idalina colocou Pedro numa cadeira, deu-lhe algumas recomendações, montou o cavalo e as duas mulheres partiram em disparada. Não conversavam durante o percurso, economizavam forças. Idalina apenas mostrava o caminho a ser seguido. As duas eram destemidas e estavam obstinadas a salvar a vida de Miguel. O tempo corria contra contra elas. Além dele pesava o fato de que Elisa não tinha visto o facínora, apenas ouvido-lhe a voz. Como poderia lhe identificar dentre os competidores? Idalina lhe perguntou se sabia quem era o jagunço. Elisa desconversou. Não queria aumentar o sofrimento da amiga. Ao cabo de quase uma hora chegaram ao local da pega. Uma mistura de vozes, mugidos de bois, sons de chocalhos, de quebra de galhos atordoou as mulheres. Nesse instante se deram contas que entrariam na mata completamente desprotegidas, à míngua de  uma indumentária de couro adequada, com gibão, terno, chapéu de couro, luvas e botas. Precisariam de coragem e destreza para enfrentar os obstáculos da natureza, que na melhor das hipóteses, lhe fariam cair dos cavalos e sofrerem fraturas graves.

Nada disso lhes demoveu do propósito. Seguiram os sons dos chocalhos, mugidos e gritos dos competidores. Desafiando os galhos das árvores, os espinhos de jurema e mandacaru  se desviavam aqui,  se abaixavam ali, ignorando os rasgos que os galhos de plantas lhes abriam nos braços, rostos e pernas. A ansiedade e o temor de não evitarem a tragédia lhes deixavam imunes às dores provocadas pelos ferimentos e aos riscos da empreitada. Aqui e acolá cruzavam com vaqueiros que espantados lhes perguntavam o que faziam ali e lhes advertiam dos perigos. Respondiam-lhes com a interogação: -Onde está Miguel. As respostas eram vagas e desesperadoras:

Está mais a frente.

– Não sei.

Alimentavam a esperança de no meio daquela loucura, da mata fechada, dos mugidos dos bois, aboios dos competidores, pudessem identificar a voz de Miguel e lhe avisar, em gritos, que estava na iminência de ser assassinado. Nessa peleja já se passara quase duas horas. As mulheres estavam exaustas, feridas e quase sem esperanças de ouvir a voz de Miguel. De repente, muito longe,  Idalina escutou um aboio inconfundível. Era mais triste do que os demais. Os versos falavam de um vaqueiro assassinado pela parelha,  a quem julgava ser seu maior amigo e, o assassinara por cobiçar sua companheira. Era Miguel. Ele gostava demais desse aboio e sempre o cantava com lágrimas nos olhos e a voz embargada. Idalina e Elisa apuraram os ouvidos e seguiram na direção do aboio. A mata se apresentava mais densa e com galhos a altura dos seus ombros. Era difícil ver o que estava a um metro a frente, entretanto não esmoreceram e, desesperadamente gritavam por Miguel. Seus gritos se perdiam no turbilhão de sons.  Transpuseram uns cem metros de obstáculos e avistaram uma clareira. Lá na frente estavam Miguel e Juvenal tinham acabado de dominar um boi grande e valente e estavam prestes a lhe tirar a fita do pescoço. Nesse momento  um competidor se aproximou de Miguel e lhe disse algo, que não foi capaz de ser compreendido pelas mulheres. Imediatamente Elisa e Idalina perceberam que se tratava do facínora, já com a arma em punho e pronto para atingir o alvo. Idalina gritou avisando a Miguel da emboscada.

– Miguelllllll. Cuidado.

O grito de Idalina foi abafado pelo barulho seco dos tiros desferidos contra seu marido, que atingido na cabeça, morreu instantaneamente. Num átimo de segundo Elisa sacou a arma e disparou reiteradamente contra o capanga, que mesmo ferido de morte, antes de cair por terra, acertou disparos contra ela e Idalina, ferindo mortalmente a ambas. O boi foi dispersado pelo barulho incomum ao cenário  e se embrenhou na capoeira. Em pouco tempo as quatro vítimas estavam rodeadas pelos competidores que, atônitos e aos prantos, procuravam assimilar o horror da tragédia. O tom amarronzado da vegetação e da terra  se avermelhou de sangue. Não se sabe quanto tempo transcorreu até que o Coronel Arruda chegasse ao local. Ele foi informado que a filha e a afilhada tinham ido à pega de boi tentar evitar a emboscada contra Miguel. Num misto de desespero e dor Coronel Arruda constatou que Miguel e Idalina  já haviam morrido, bem como que Elisa se encontrava nos estertores da morte. Reunindo forças onde supunha não possuir, o Coronel Arruda  sentou e colocou a cabeça da filha sobre as pernas, tentando convencê-la de algo que sabia impossível.

– Calma, meu anjo, o socorro já está vindo. Você, Idalina e Miguel serão levados para o hospital. Ficarão bem, eu prometo. Elisa, com a voz sibilante e os olhos semicerrados, fez os últimos pedidos ao pai.

– Pai me prometa que vai construir uma boa escola na fazenda para os filhos dos trabalhadores e que ela terá o nome de Idalina.

– Prometo, filha amada. Juro. Será a maior e melhor escola que já teve nessas paradas e terá o nome de Idalina. Elisa assentiu com sorriso.

Pai, o senhor tem uma dívida com Sebastião e Diva. Pedro era um adolescente e morreu trabalhando para o senhor. Prometa-me que adotará Pedro, filho de Miguel e Idalina e o tratará como se ele fosse meu filho.

Coronel Arruda se sentiu envergonhado diante da última censura que a filha lhe fez. Rememorou em segundos quantas vidas havia prejudicado em nome de sua ganância, vaidade e luta pelo poder. Suspirou, tentando conter o embargo da voz e fez solenemente, diante de todos, outra promessa.

Minha filha eu lhe prometo que adotarei Miguel e ele será tratado e amado como filho. Você  viverá para ver.

Novamente Elisa sorriu e, suspirou profundamente, revirou os olhos e faleceu. Coronel Arruda, ao prantos, abraçou o corpo sem vida e ensanguentado da filha, bradando contra Deus que o puniu pelos seus erros, le tirando precocemente a pessoa que mais amava no mundo.

A tragédia da pega de boi de Aroeira foi amplamente divulgada e, a cada vez que era recontada, lhes acrescentavam detalhes,  serviu como tema para versos de cordéis e de  aboios. O Coronel cumpriu as promessas feitas a Elisa. Adotou Pedro, afeiçoando-se ao menino e lhe dedicando todo amor, carinho e cuidados que um pai poderia dar a um filho. Mandou construir e mobiliar uma grande e boa escola. Deu-lhe o nome de Escola Professora Idalina Mendes Costa. Quanto ao Coronel Isidoro, dizia-se que tinha muitos desafetos. Um deles lhe encomendou a morte. E o pistoleiro contratado deu conta do serviço em um final de tarde, quando ele havia acabado de desmontar do cavalo, em frente a varanda de seu casarão.

Sobre a autora:

Efigênia Coêlho Cruz

Nascida em 16/11/1963. Otimista com os pés no chão, professora universitária aposentada, Promotora de Justiça e pretensa escritora.

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