Final de tarde, a sala estava cheia. Cara de despedida não anunciada. Chá, café, bolo e biscoito, conforme combinado. As conversas foram trançadas no chão. Naquele dia, deu tempo de passar a vassoura e jogar uma água perfumada; não é todo dia que recebemos uma dúzia de pessoas. O sentimento de felicidade se misturava com a despedida.
Minha tia, uma semana antes de morrer, presenteou os parentes mais próximos, como se estivesse se despedindo. Sei que ganhei uma camisa; depois, só lembro dela no caixão. Tia fazia doce de coco e guardava as quengas para mim; fazia artesanato. O doce era de deixar a boca um mar, só da lembrança. Nunca mais vou ver Tia.
Volto para a sala de casa, para o final de tarde. Entre gargalhadas, poesia e o tear de um novo mundo, o coração passeava na ternura. Ao abrir as pastas, como se estivesse me abrindo, meus trabalhos circularam nas mãos das doze; cada pessoa pôde escolher um. É como se estivessem me levando. Lembrei-me da camisa que ganhei da Tia.
Despeço-me com um buquê de flores vermelhas e me espalho nos imaginários floridos e desertos. A casa poderá ficar deserta, mas nunca poderá apagar a chama dos finais de tarde.
Sobre o autor:

Alexandre Lucas
Alexandre Lucas é escrevedor, articulista e editor do Portal Vermelho no Ceará, pedagogo, artista/educador, militante do Coletivo Camaradas e a integrante da Comissão Cearense do Cultura Viva.
