Quando matei aula

Na casa da minha avó, almoçávamos assistindo o jornal do meio-dia. Era um ritual sagrado para o meu avô, e sempre achei interessante estar por dentro das notícias e ter assunto para conversar com os adultos, mesmo que a maior parte de tudo que aparecia não fosse apropriado para uma criança discutir. Chegava da escola e já me posicionava no segundo lugar mais privilegiado da mesa para assistir, porque o melhor lugar já era do meu avô.

Às sextas, no final do último bloco, eles sempre mostravam cartazes de pessoas desaparecidas, em sua maioria crianças e idosos. Na época, eu não fazia bem essa distinção, mas recordo nitidamente, pois desaparecimento sempre foi um assunto que me chamou muita atenção. Não porque, naquele tempo, eu tinha o pensamento de desaparecer, às vezes, talvez, mas não da mesma forma como essa curiosidade se desenvolveu ao longo dos anos.

Não me ocorria que poderiam acontecer casos de pessoas raptadas. Essa questão do tráfico humano era algo menos falado, pelo menos no meu universo infantil/adolescente. E as referências que eu tinha eram do meu irmão, que desapareceu por mais ou menos uma hora dentro do shopping e foi encontrado sentado em frente a uma loja de brinquedos pela minha mãe desesperada, e de uma amiga que fugiu de casa em um dia qualquer e retornou dias depois sem contar absolutamente nada. Assim, do tipo boca fechada não entra mosca, nem sai palavra.

Até que, despretensiosamente, me ocorreu que poderia fugir da escola para dar uma volta no centro da cidade. Naquela altura, esse bairro era um lugar que eu andava apenas na companhia da minha mãe e das minhas avós. Sendo assim, resolvíamos apenas o que elas queriam e nunca dava tempo ir aos lugares que me interessavam. Exceto aquela passada na Leão do Sul para comer pastel com cajuína.

Eu sonhava em conhecer a Galeria Pedro Jorge, que era bem conhecida entre os adolescentes como Galeria do Rock. Então, de maneira metódica, passei a arrecadar informações de como chegar ao local. Pensei no meio de locomoção: um taxista jamais me levaria, eu era pré-adolescente e não tinha muito dinheiro. Em compensação, o ônibus era uma possibilidade, mas eu sabia pegar apenas partindo da casa da minha avó, e a minha maior chance de sucesso seria matar aula e partir da escola. Ou seja, eu não sabia qual ônibus pegar. Não queria perguntar a ninguém para não ter testemunhas, nem delatores. Até que, em uma brilhante manhã, o professor de geografia nos mostrou o mapa da cidade de Fortaleza, e um mundo de possibilidades se abriu ao meu alcance.

Não preciso dizer que fui a aluna mais interessada nos dias em que utilizamos o mapa. Não tínhamos smartphones para fotos e GPS; era preciso decorar ou desenhar o caminho anotando rua a rua e as direções que precisaria pegar.

Passaram uns três meses, até que me senti preparada para a aventura. Era um dia ameno, sem chuva e que os professores eram bem dispersos, não notariam logo a minha ausência na escola. Deixei meu irmão no colégio dos pequenos e fui em direção à minha portaria, mas troquei a calçada e passei direto. Lembro do frio na barriga, fiquei parada alguns metros antes da entrada em que estava o porteiro, observei um momento em que muitos alunos entrassem juntos, e corri para ele não me notar. Ufa! Deu certo.

Nesse dia, saí de casa com um moletom. Era um calor de rachar o juízo, mas disse a minha mãe que íamos passar o dia na sala de multimeios e lá era muito gelado. Saí com três camadas de roupa, que foram rapidamente removidas depois que me despedi do meu irmão.

Primeiro obstáculo vencido. Restavam alguns quilômetros, pois resolvi ir andando. Não consegui juntar muito dinheiro, precisava deixar tudo para gastar comprando alguma lembrança da minha aventura e estar preparada para eventuais problemas.

Passei da Avenida Duque de Caxias e desci na Rua Senador Pompeu. Calculei muitos riscos, mas sabia que, em qualquer problema, eu poderia correr até um hospital ou a delegacia, que estavam mais ou menos no meio do caminho. Permanecia tudo dentro do meu planejamento.

Andei mais ou menos por uns quarenta minutos quando finalmente avistei as Lojas Americanas. Era o indicativo de que estava chegando. Apressei o passo. Quando, finalmente, cheguei à calçada do que seria a galeria, me senti totalmente confusa e perdida. Ainda bem que sempre soube usar uma expressão facial que garante a qualquer pessoa que sou a pessoa mais segura das criaturas. Com propriedade, perguntei a uma mulher onde ficava uma das lojas que queria visitar, e ela me indicou o caminho.

Subi escadas. Passeei por longos corredores. Olhei todas as lojas. Encontrei outros alunos matando aula. Fiz amigos que carrego até hoje. Peguei o caminho de volta para a escola. Eu não podia ser louca de não estar no ponto quando meu avô chegasse para nos buscar. Ele era idoso e tinha o coração um pouco fraco. Não tinha coragem de dar um susto nele.

No caminho, me deparei com uma loja de livros diferente daquelas que eu conhecia, e minha mãe sempre falava que eram muito caras. O nome dela era “Sebo O Geraldo”. Na porta já havia livros por todos os lados, corredores e salas abarrotadas com muitos títulos e até os banquinhos serviam como apoio, menos para sentar.

Havia um senhor com cara de rabugento atendendo um rapaz em uma mesa estilo birô. Ao lado, uma jovem organizava uns livros. Entrei em todos os cômodos, eu tinha ainda um pouco de tempo. Vi livros que não encontrei na biblioteca da escola, como O Diário Secreto de Laura Palmer. Na capa tinha uma moça de olhos fechados que parecia estar dormindo. Peguei esse exemplar e perguntei quanto custava. A moça tomou o livro da minha mão e disse que não era para a minha idade. Em troca, me entregou o Escaravelho do Diabo e disse que era presente.

Fiquei surpresa. Agradeci e disse que voltava outro dia. Ela completou dizendo que eu voltasse com a minha mãe. Corri de volta para a escola. Vesti a blusa da farda. Encontrei meu irmão e voltamos para casa com o meu avô, contando o que tínhamos aprendido naquele dia.

A Galeria do Rock ficou na lembrança, mas depois que matei a curiosidade, não parecia mais interessante. Voltei outras vezes apenas para comprar alguma blusa de banda, pois só vendia lá mesmo.

Guardei o livro que ganhei disfarçado no meio de outros que herdei das minhas tias. Sempre olhei para ele com um profundo orgulho da minha aventura.

Obviamente, nunca voltei com a minha mãe ao sebo. Mas voltei todos os anos seguintes, muito mais de uma vez ao ano. Às vezes sozinha, outras, acompanhada. Vendi livros. Troquei livros. Segui e dei recomendações de livro. Fui pedida em namoro dentro da segunda sala do lado, onde ficavam os livros de Direito. Chorei por ter terminado o namoro, tempo depois.

Li O Diário Secreto de Laura Palmer quando tive idade. Finalmente! Me matei de curiosidade até esse dia. Depois vi que nem era tudo isso que as pessoas falavam. Teve até minissérie.

Sou grata ao acaso. Ele sempre pode nos levar para muitos lugares se estivermos dispostos e de olhos e coração bem abertos.

E, assim, o “Sebo O Geraldo” nunca mais saiu do meu coração.  

P.S.: Ainda guardo um caderno sobre como desaparecer e não ser achada. Talvez, outro dia conte para vocês.

Sobre a autora:

Ludimilla Barreira

Mulher de muitas camadas. Mãe em um mundo real, embora a cabeça viva na terra da imaginação. Leitora, sonhadora e observadora da vida. Escreve para manter viva em si mesma e naqueles que a leem a esperança de que podemos ser e viver na realidade que criarmos, ainda que o mundo fora de nós conte outra história.

One thought on “Quando matei aula

  1. Sem dúvida, a sua fugida se tornou um grande evento. Adorei cada detalhe!
    Agora me pergunto, se algum dia também “matei aula”. Se sim, já faz muito tempo, na passagem de décadas, ficou no esquecimento.

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