Da série: Cartas ao Universo VI

Querida J.,

Me perdi durante a busca por uma vida grandiosa. Acreditei que, a partir dela, eu encontraria a verdadeira felicidade e uma plena realização de todos os meus sonhos. Mas você já tentou sustentar algo grandioso segurando-o com as suas próprias mãos?

Não gosto de atribuir as mudanças do relevo dos caminhos da minha vida à idade. Sabemos que ela não garante nenhum tipo de certeza de que encontraremos estradas planas. A depender, na verdade, se não nos prepararmos bem, nossa caminhada pode se tornar até mais tortuosa com o passar dos anos. Por isso, atribuo essa perspectiva, ou talvez interrogação, à escassez do meu tempo. Não por estar mais perto da morte, mas por me apropriar da realidade da finitude que envolve a nossa existência. Ou talvez seja isso que as pessoas costumam chamar de experiência crítica. Fica a dúvida.

Porém, depois de ruminar minha existência por dias, sem a certeza de que teria o direito de me manifestar publicamente sobre assuntos que movem o espírito humano, particularmente o feminino, no nosso caso, entendi que a vida é o cotidiano.

É o despertar, respirar, amar, odiar, comer, ler, andar, trabalhar e dormir. Muitas vezes, boa parte do que fazemos pode ser encaixada apenas no verbo existir ou contribuir, com aquele trabalho de formiguinha mesmo, para que a parte do mundo que cabe a você seja amorosa, justa, reconfortante e construída com escolhas políticas conscientes, não com aquilo que você deseja provar, mas com o ambiente que deseja construir.

Mas e os nossos sonhos grandiosos? Aqueles em que acreditamos firmemente, desde a infância, que seremos capazes de alcançar. Como ficam? Sei que você me faria essa pergunta. Ela também existe dentro de mim, e adianto não ter preferência por duas palavras que ouvi muito na infância: resignação e compreensão.

Entenda, não reivindico o soterramento dos nossos sonhos ou abandono de quem nos tornamos a partir deles, depois de uma jornada de batalhas para conquistá-los. Mesmo sabendo que, muitas vezes, chegamos perto de alcançá-los e eles fugiram para mais longe, estando agora em algum lugar da imensidão, à nossa espera. Não é isso. Penso no que deixamos de ser ou perdemos enquanto olhamos esse ponto de chegada. Pergunto-me o quanto deixamos pelo percurso ou até mesmo nos desgastamos enquanto poderíamos simplesmente redefinir a rota.

Vou te dar um exemplo prático: quantos histórias deixei de escrever por ter acreditado que elas não renderiam o possível livro que levaria o meu nome a outro patamar de reconhecimento? Quantos personagens mereciam ser eternizados pelas minhas palavras e foram esquecidos? Quantos desenhos, bordados, poemas deixei de fazer por acreditar que não eram bons o suficiente e não me renderiam absolutamente nada? E trago outro ponto: precisamos auferir lucro em tudo?

Pode não parecer instantaneamente, mas esse pensamento está interligado à ideia da vida grandiosa que sempre sonhamos ter. Afinal, considerando que viemos dessa sociedade capitalista, tudo que é grande exige de nós vários tipos de capital para ser alcançado.

Além disso, a urgência por uma vida extraordinária acaba nos levando a procurar, em certa medida, níveis máximos de prazer. Esquecemos, porém, que essa saga pode nos apontar para um caminho de dor que nenhum contentamento será capaz de superar.

Então, o que esperamos do nosso futuro?

Permaneceremos focados no alcance da grandiosidade e na busca pelo máximo de prazer que essa vitória poderá nos conceder? Ou aprenderemos a olhar para o futuro com a mesma perspectiva de Epicuro, ao afirmar que “o futuro não é totalmente nosso, nem totalmente não nosso”? Enquanto esperamos a passagem do tempo e aproveitamos os instantes sem as  garantias sobre o que eles podem nos trazer, precisamos nos tornar fortes para sustentar a existência ou ausência do extraordinário. E talvez seja justamente isso que faremos nas pequenas brechas da vida que cabem nas nossas mãos: nelas, nos perdemos, nos encontramos e nos transformamos em alguém que teremos orgulho de ser dentro da nossa própria métrica de grandiosidade.

Com amor,

L.

Sobre a autora:

Ludimilla Barreira

Mulher de muitas camadas. Mãe em um mundo real, embora a cabeça viva na terra da imaginação. Leitora, sonhadora e observadora da vida. Escreve para manter viva em si mesma e naqueles que a leem a esperança de que podemos ser e viver na realidade que criarmos, ainda que o mundo fora de nós conte outra história.

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