Por onde começar?

Todas temos algo aprisionado dentro de nós que precisa ser arrastado para fora, talvez, a grande dificuldade não seja encontrar o motivo ou as palavras, mas após estar com todas na língua, conseguir organizá-las dentro das margens da página e nos desvencilhar das inúmeras amarras que nos cercam sem perder a nossa própria natureza…

Então, escrever torna-se necessário.

Pois, cientes dessas limitações, precisamos materializar através da letra, que, mesmo deitada no papel frio, se organizada de forma harmoniosa, será responsável por reverberar a nossa voz e mostrar ao mundo o que sabemos sobre o amor, esperança e até o terror.

É justamente por isso que podemos usar esse conjunto de caracteres organizados e detalhadamente escolhidos, chamado de texto, como arma de defesa ou de agressão, se necessário.

Escrever, portanto, é restabelecer o equilíbrio e a ordem entre o dentro e o fora de si.

Também percebo a necessidade de escrever para honrar aquelas que vieram antes e aplanar o terreno para as que virão depois.

Antes de nós, muitas não puderam falar e para garantir que permaneçamos com um espaço minimamente seguro de fala, precisamos mantê-lo ocupado sem brechas, para que nenhuma de nós acredite que é necessário igualar a sua voz ao outro, uma vez que podemos encontrar dentro de si o timbre perfeito.

Entendo que não seja um exercício fácil, não fomos acostumadas a acreditar na própria voz. Mas para encontramos as palavras que se encaixam nos significados com exatidão, precisamos silenciar a fera que grita e mostrar-lhe que na escrita o grito não reverbera apenas no momento, mas por toda a eternidade.

Firmando esse compromisso de busca pela nossa voz, não haverá desculpas para adiar a escrita quando encararmos com seriedade a promessa firmada conosco e com o leitor.

Pois, a partir do instante em que sejamos capazes de reconhecer a finalidade da nossa forma de escrever, poderemos alcançar até mesmo aqueles que não dividirão nosso tempo e espaço. Dessa forma, ecoaremos para além do tempo que nos é possível prever.

Seremos lidas não por aqueles que vivem confortavelmente cobertos com o véu da indiferença e criam verdades nas quais é impossível nos encaixarmos, mas por aqueles, que, assim como nós, buscam uma vida plena de sentido e verdade.

Sobre a autora:

Ludimilla Barreira

Leitora, sonhadora, eterna estudante e observadora da vida. Além disso, é bacharel em Direito, especialista em Direito Público, servidora do executivo estadual e defensora da igualdade.

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