Olhos d’água, de Conceição Evaristo

A noção de interseccionalidade tornou-se central para os estudos contemporâneos sobre raça, gênero e classe, sobretudo quando se busca compreender as múltiplas formas de opressão que atravessam os corpos negros femininos. Em Interseccionalidade, Carla Akotirene (2019) afirma que “a interseccionalidade visa dar instrumentalidade teórico-metodológica à inseparabilidade estrutural do racismo, capitalismo e cisheteropatriarcado” (Akotirene, 2019, p. 19).

Tal formulação é essencial para a leitura de Olhos d’água, de Conceição Evaristo uma vez que a obra se constrói de personagens cujas experiências não podem ser compreendidas isoladamente apenas pela dimensão racial ou apenas pela dimensão de gênero. Em seus contos, as violências sociais aparecem sempre atravessadas por diferentes marcadores de exclusão, revelando a condição histórica das mulheres negras brasileiras.

Publicado originalmente em 2014, Olhos d’água apresenta quinze contos marcados pela pobreza, pela violência urbana, pela exclusão racial e pela resistência cotidiana. A coletânea insere-se no projeto literário da autora denominado “escrevivência”, conceito elaborado por Evaristo para designar uma escrita que nasce das experiências históricas e subjetivas da população negra brasileira.

Maria Paula de Jesus Correa, em comentário ao texto de Conceição Evaristo, destaca que o livro “mantém e reforça a prática da escrevivência” ao abordar “a história daqueles que são repetidamente silenciados, principalmente pelo racismo, mas também pelas imposições econômicas e pelas tensões de gênero” (Correa, 2017, p. 350). A literatura de Conceição Evaristo, portanto, rompe com tradições literárias que historicamente marginalizaram personagens negras, recolocando-as no centro da narrativa.

Desde o conto inicial, que dá nome ao livro, percebe-se a profundidade emocional e política da escrita evaristiana. A narradora busca recordar a cor dos olhos de sua mãe, numa tentativa de reconstrução da memória ancestral. A lembrança dos olhos maternos torna-se símbolo de uma herança coletiva marcada pela dor, pela pobreza e pela resistência. O conto não se limita a uma memória individual; ele transforma a experiência subjetiva em experiência histórica. A trajetória da narradora, marcada pela migração, pela fome e pelo racismo, aproxima-se da própria biografia de Conceição Evaristo, criando uma narrativa em que ficção e experiência social se entrelaçam constantemente.

Essa dimensão memorialística é fundamental para compreender o alcance político da obra. Em Olhos d’água, a memória não surge como simples nostalgia, mas como mecanismo de sobrevivência. As personagens carregam histórias apagadas pela violência estrutural brasileira. Mulheres pobres, negras e periféricas aparecem como sujeitos históricos, e não como figuras secundárias. Nesse sentido, a coletânea confronta diretamente o apagamento histórico produzido pelo racismo brasileiro. Ao narrar vidas invisibilizadas, Evaristo rompe com uma tradição literária elitizada e branca, devolvendo humanidade a sujeitos frequentemente reduzidos à marginalidade social.

A linguagem utilizada pela autora é um dos aspectos mais impressionantes da obra. Conceição Evaristo combina poeticidade e brutalidade num equilíbrio extremamente delicado. Há momentos em que a escrita assume tons líricos, sobretudo nas descrições das relações familiares, da ancestralidade e da maternidade; entretanto, esses momentos são constantemente interrompidos pela violência da realidade social. A fome, a prostituição, a violência doméstica e o assassinato atravessam os contos de maneira seca e devastadora. Tal recurso impede qualquer romantização da pobreza. A autora não idealiza o sofrimento; ao contrário, expõe sua dimensão cruel e cotidiana.

Os contos femininos possuem grande força narrativa justamente porque revelam personagens complexas. As mulheres de Olhos d’água não aparecem apenas como vítimas passivas da violência social. Mesmo em contextos extremamente adversos, elas preservam desejos, afetos, memórias e estratégias de sobrevivência. Em “Beijo na face”, por exemplo, a violência doméstica é tratada sem sentimentalismo, evidenciando como o patriarcado estrutura relações de medo e submissão. Já em “Duzu-Querença”, a trajetória da protagonista evidencia o modo como a pobreza empurra mulheres negras para espaços de extrema vulnerabilidade social. Ainda assim, há nas personagens uma força subjetiva que impede sua completa destruição simbólica.

A coletânea também problematiza a violência urbana brasileira e a necropolítica que atinge corpos negros periféricos. Muitos personagens masculinos dos contos morrem violentamente, evidenciando o funcionamento seletivo da violência social no Brasil. A morte aparece como horizonte constante para sujeitos negros marginalizados. Entretanto, Conceição Evaristo transforma essas mortes em denúncia política. Cada personagem morto carrega consigo uma história, um nome e uma subjetividade. Dessa forma, a autora combate a naturalização das mortes negras na sociedade brasileira contemporânea.

É justamente nesse ponto que a interseccionalidade proposta por Akotirene (2019) torna-se fundamental para a leitura da obra. As personagens de Olhos d’água vivem opressões simultâneas. Não se trata apenas de racismo, nem apenas de machismo ou pobreza isoladamente. As personagens femininas sofrem porque são negras, pobres e mulheres ao mesmo tempo. Essas categorias não aparecem separadas; elas se articulam estruturalmente. A literatura de Evaristo evidencia aquilo que Akotirene (2019) define como inseparabilidade das opressões estruturais. A exclusão econômica intensifica a vulnerabilidade racial; o racismo aprofunda a violência de gênero; o patriarcado precariza ainda mais a vida das mulheres negras periféricas.

Além disso, a obra revela como a interseccionalidade também pode ser compreendida como espaço de resistência. As personagens femininas constroem redes de cuidado, solidariedade e memória coletiva. A ancestralidade aparece como elemento central na preservação da dignidade humana. Mães, avós e irmãs assumem papéis fundamentais na transmissão das histórias familiares e comunitárias. Assim, Conceição Evaristo produz uma literatura que denuncia a violência estrutural sem abandonar a possibilidade de esperança. Como Maria Paula de Jesus Correa, as personagens surgem “plenas de esperança, mas não cegas diante de todas as nossas dificuldades” (Correa, 2017, p. 354).

Por fim, Olhos d’água constitui uma das obras mais importantes da literatura brasileira contemporânea precisamente porque articula estética, memória e crítica social. Conceição Evaristo constrói uma literatura que devolve humanidade aos sujeitos negros periféricos e denuncia as estruturas históricas de exclusão presentes no Brasil.

A partir da perspectiva interseccional discutida por Akotirene (2019), percebe-se que a coletânea evidencia como raça, gênero e classe operam conjuntamente na produção das desigualdades sociais. Assim, a obra ultrapassa o campo literário e transforma-se também em instrumento de reflexão política e social sobre o Brasil contemporâneo.

REFERÊNCIAS

AKOTIRENE, C. Interseccionalidade. São Paulo: Pólen, 2019.

CORREA, M. P. de J. Olhos d’água, de Conceição Evaristo. Via Atlântica, São Paulo, n. 31, p. 349-353, jun. 2017.

EVARISTO, C. Olhos d’água. Rio de Janeiro: Pallas, 2016.

Sobre o autora:

Marta Kécia

Mestranda no Programa de Pós-Graduação em Letras (PPGL) da Universidade Regional do Cariri (URCA), na linha de pesquisa: Língua, Discurso e Identidades com ênfase no discurso de violência contra mulher. Especialista em Gestão Escolar e Coordenação Pedagógica, Metodologia do Ensino Superior e Literatura Brasileira com Graduação em Letras pela Universidade Federal de Campina Grande(UFCG).

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