Escrita: um processo de aprimoração infinita

Tenho poucas manias, umas delas é encontrar um amigo/uma amiga e perguntar: “O que está lendo?”. Dito e feito. Nos corredores da Universidade Federal do Cariri (UFCA), encontro o escritor Jorge Nogueira – Inventário dos seus abraços (2023) – “um grande mapa de afetos e experiências de personagens gays” – e pergunto: “amigo, está lendo o quê?”.

Ao que ele responde: Um pato amado é assado. Pensei não ter escutado direito dado a estranheza do título. Ele repete: Um pato amado é assado:  ensaios práticos sobre práticas de escrita, da escritora e tradutora Lydia Davis, prêmio Man Booker Internacional em 2013 pelo conjunto de sua obra.  Jorge me explicou que era um livro de teoria literária e que estava lendo para aprimorar sua escrita, porque seu segundo livro está quase saindo do forno. E, eu claro, como leitora já estou na expectativa.

Disse que não conhecia obra/autora. Quando digo a frase “não conheço”, já me preparo para a generosidade do interlocutor/leitor: “eu te empresto”. É dessa forma que no começo do ano eu faço uma lista de livros que pretendo ler e no final do ano a lista está totalmente modificada. Jorge Nogueira e Jucieldo Alexandre são dois dos (amigos) interlocutores mais generosos que convivo. Não sei nem se posso desejar conhecer mais, pois conciliar trabalho-estudo-leitura é, literalmente, um Equilibrium para lembrar o álbum da cantora Anitta que estou escutando.

Um pato amado é assado (2026) acaba de ser lançado pela editora WMF Martins Fontes, tem aproximadamente duzentas páginas, e cumpre seu papel:  falar do processo criativo da própria autora e dar “dicas” para o leitor/a leitora escrever melhor.

Inclusive o nono ensaio tem como título “Trinta conselhos para bons hábitos de leitura” – em que a autora deixa claro de que se tratam de “conselhos pessoais” e que “talvez” não se ajustem à prática daqueles que a leem:

1) Faça anotações com regularidade;

2) Trabalhe sempre (anote, escreva) a partir do seu próprio interesse…

3) Seja, em grande parte, autodidata;

4) Revise suas anotações constantemente;

5) Tomar notas e “desenvolver” um conto em uma dada situação vivida;

6) Tomar notas e “desenvolver” um poema;

7) A revisão é um exercício de olhar o texto com um olhar renovado;

8) Aproveitar frases ou ideias extraídas do cotidiano;

9) Vá às fontes primárias e às grandes obras para aprender técnicas;

10) Como você deve ler? Qual a sua dieta de leitura?…

Por falar em dieta de leitura, volto para o primeiro, terceiro e quinto ensaios: um pato amado é assado: Formas e influências; Do material bruto à obra acabada: Formas e influências II e Fontes, revisão, ordem e finais: Formas e influências III, respectivamente. Nestes breves textos, o que mais me chama atenção é escutar como Lydia se tornou, paulatinamente, uma escritora premiada.

Parafraseando Simone de Beauvoir que afirmava que “Não se nasce mulher, torna-se mulher”, eu digo: “Não se nasce escritor, torna-se escritor”.  Se ser escritor não é fácil, ser escritora é mais difícil ainda, dado que as mulheres “nasceram” para o espaço privado, logo, deveriam cuidar, reproduzir e subordinar-se ao gênero masculino. Foram/São anos de luta para expressar nosso querer: Lugar de mulher é onde ela quiser.

Os três ensaios acima elencados têm um ponto em comum: Formas e influências, ou seja, para todas as formas adotadas e aconselhadas por Davis, ela narra as fontes das quais bebeu: são muitas e diversificadas.

De forma simples, Lygia Davis inicia a obra afirmando que por mais que apareçam formas literárias diferentes – o romance, o conto e o poema nunca deixarão de existir.  Seu livro de contos, Samuel está indignado (2001), pode ser confundido com parábolas ou fábulas, narrativa oral ou soluço em virtude da linha tênue que diz que um texto pode ser isto ou aquilo. Quando ela começou a escrever “a sério”, acreditava que sua única escolha era o conto narrativo tradicional. Os pais dela haviam sido autores de contos. Aos 12 anos, Lydia sabia que estava “fadada” a ser escritora.  As escolhas eram limitadas: poesia ou prosa. Ser romancista não estava nos seus planos. Ser poeta não era uma opção, embora tenha escrito versos no início de sua carreira.

Suas leituras mostravam outras possibilidades. Fez uma “dieta saudável” de autores de contos clássicos como: Katherine Mansfield, D.H Lawrence, Luís Borges, Franz Kafka, além de Charlotte Brontë e Samuel Beckett, escritor e dramaturgo irlandês.  Tais leituras  mostraram que ela não estava pronta para “esse tipo de escrita”. Além disso, Lydia levou “mais de uma década para perceber que a pessoa podia extrair o material de um conto em grande parte da própria vida”… ou quem sabe “basicamente da própria vida”.

Assim, aos 26 anos de idade ainda “lutava contra a inércia e a apatia. Lia, caminhava e comia”. Em meio a essa jornada, um amigo lhe disse: “Você fica sentada o dia inteiro sem fazer nada” “(Eu não estava sem fazer nada – Eu estava agonizando)”. Foi aí que leu Russell Edson e ficou maravilhada com seus textos curtos, profundos, que não eram nem ficção nem reportagem. Inclusive o título do livro é do romancista norte-americano  que intitulou um de seus ensaios: A belov duck gets cooke,  título- frase absurdo para demonstrar uma prosa curta e fragmentada que ambos os escritores procuram seguir.

Em Um pato amado é assado, Lygia Davis, à medida que revisita seus hábitos de leitura e de escrita, nos dá uma aula sobre o processo criativo. Aos que desejam se tornar escritor/escritora um último e mais importante conselho da autora: “mantenha a humildade em relação à linguagem e à escrita”.

Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva

Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler

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