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O quarto proibido

Há oito meses reduzo a passada ao chegar em frente à soleira desta porta, mas não tenho coragem de abri-la. Paro no corredor e apuro meus ouvidos para saber o que passa por dentro dessas paredes que não posso ousar atravessar. Enquanto isso, perco meu olhar marejado de sono nas camadas de tinta da parede que encaro nos raros momentos de silêncio. Toco a maçaneta....
Inventando Anna: uma vida de aparências

Inventando Anna: uma vida de aparências

Quem me conhece mais de perto sabe que não sou afeita a assistir minisséries e séries. É que muito facilmente me apego à narrativa e, claro, quero acompanhar até o final. Como o tempo é um artigo de luxo, prefiro empregá-lo lendo livros, mesmo sabendo que não lerei nem metade do que há na minha lista literária. Mas dia desses, eu me traí. Quem nunca?...

A dança dos felizes

Por muitos anos, quando a avenida Beira-mar ainda sediava o Fortal – o maior carnaval fora de época de Fortaleza – um homem ali chamava a atenção e reinava à frente de um público que vibrava, ria e aplaudia enquanto aguardava, das arquibancadas e camarotes, a entrada dos blocos na avenida. Espalhafatoso, o homem de cabelo e barba longos, tirava a camisa e, girando-a sobre...

Bom dia

Saiu assim: sem deixar um bom dia, apenas rastros de lágrimas e uma ponte caída. Era segunda-feira, mas que engano, já estávamos na quinta-feira. A quarta-feira de cinzas não trouxe paz. Vontade de se trancar em casa e só sair no dia da felicidade, mas não sei que dia é esse. Saí, mesmo a contragosto, carregado de um peso invisível e com os olhos inchados...

Da mentira à verdade

Sabe aquela pergunta clássica, hoje tem aula de Língua Portuguesa? Essa era a pergunta de Tony, praticamente todos os dias, claro que já acostumei, mas ultimamente ficou chato, ele questiona e eu como boa amiga respondo: Tony, hoje é segunda-feira, e a professora Marlene nunca falta. Não por que você esquece, na verdade eu sei, rsrs... somos amigos desde o infantil e cá estamos no novo Ensino Médio. O Tony não mudou muito, e isso já ficou óbvio para mim, a mentira clássica, o tom que ele traz diz: Não gosto de estudar literatura, ler ou ver essas tais classes morfológicas. Ele acha tudo isso um saco,...

Vida após Vida

Vida após vida,   Cada dia é um novo amanhecer.   Assim a vida flui,   Mudanças através de mudanças,   Crescendo e aprendendo a cada passo.   Entre risos e lágrimas,   A jornada se revela em cada instante. Sobre a autora: Geysi dos Santos Estudante e integrante do Clube da Palavra do Colégio Municipal Pedro Felício Cavalcanti ( Crato-CE)

Planejar a cidade com seus construtores

É preciso construir a cidade dialogando com seus construtores. O esquartejamento — ou divisão socioespacial — das cidades reflete, necessariamente, as relações de poder e a divisão do capital. Os marcos legais que preveem a gestão compartilhada do planejamento urbano ainda precisam ser consolidados, e isso depende da insurgência dos movimentos sociais. O modelo viciado das políticas públicas de cima para baixo continua operante. Criar...
Um processo de libertação chamado adeus

Um processo de libertação chamado adeus

E se todo adeus fosse o primeiro passo para você se libertar das dores que te aprisionam, o que ou a quem você daria adeus? No caso da personagem Júlia Terra, protagonista da obra Pequena coreografia do adeus (2022), da escritora paulistana Aline Bei, ela se despediria (e assim o fez) de um pai ausente e de uma mãe violenta. Muitos de nós associa a...
O que esperar de A Empregada?

O que esperar de A Empregada?

Esse livro me surpreendeu demais, e de uma forma que eu realmente não esperava. A Empregada, de Freida McFadden, começa com uma premissa aparentemente simples: Millie, uma ex-detenta tentando recomeçar a vida, aceita o emprego de empregada doméstica na casa da família Winchester. Porém, logo fica evidente que aquela casa está longe de ser um lugar comum. Millie chega cheia de esperança, desejando apenas trabalhar, se...
Prepare-se para saborear um delicioso ‘rosbife de porco’ em um jantar misterioso…, mas prove com moderação!

Prepare-se para saborear um delicioso ‘rosbife de porco’ em um jantar misterioso…, mas prove com moderação!

Eu sempre tive o entendimento de que a imaginação humana é uma das capacidades cognitivas mais brilhantes. No entanto, não esperava que em Jantar Secreto o autor a utilizasse de forma tão extravagante.  Mas antes de dar continuidade a respeito da referida obra, quero destacar que foi escrita por Raphael Montes. Talvez você não conheça o autor, porém é possível ter ouvido falar em livros...

Mais fé que os livros sagrados

Da varanda, escrevo as mais absurdas inquietações. Arremesso, quebro, entorto, queimo e adormeço versos. Trago a lua e o sol para debulhar a terra, enquanto leio os jornais molhados de sangue e entupidos de tragédias. Escuto os gritos do meu silêncio em cada página. Nenhuma notícia de paz, nenhuma linha sobre a tomada do poder pela classe trabalhadora, nem sobre a divisão da terra, do...

Ciclo da Inocência

Quando criança, sonhamos em crescer, E ao crescer, buscamos o ontem esquecer. Queremos voltar a ser a criancinha, Feliz e inocente, cheia de alegria. Mas, ao olhar para trás, vejo a verdade, Esse desejo se torna uma realidade, E a vida nos ensina a valorizar a simplicidade. Sobre a autora: Geysi dos Santos Estudante e integrante do Clube da Palavra do Colégio Municipal Pedro Felício...

Um poema esquecido entre lençóis amassados

Um poema, antes do tiro, da noite, do grito.  As pessoas se perguntavam sobre o poema,  Foi encontrado na cama amassado entre os lençóis.  Como se estivesse esquecido    entre as última vontades.   Era segunda-feira. Tinha um poema amassado na cama e um buquê de flores de muchas na janela da rua.  O café tinha gosto de obrigação e nada mais.  Choveu. O poema molhou. Molhado...

Desejo imenso de viver

Logo na sala, um oratório de remédio: cada caixinha, um santo pago. Febre, dor de cabeça, calafrio, garganta inflamada. Noites suadas e solitárias. Dias enclausurados. Um caldo quente com farinha e carne moída de vez em quando, água de coco. Vontade de dormir, cabeça martelando. Desejo imenso de viver, mas todas as placas dizem não. Os monstros estão vivos e são meus. Se soubesse como...

 5ª Coletânea de textos do Nordestinados a Ler

Há cinco anos idealizei o projeto Nordestinados a Ler: Blog Literário com o propósito de ser mais um braço neste imenso oceano para divulgar a literatura, especialmente, aquela produzida por mulheres que ao longo da História foram impossibilitadas de frequentar os bancos escolares, de ter acesso aos livros, salvo raríssimas exceções, porque suas famílias temiam que sofressem algum “mal”. No fim das contas foram as próprias...

O milagre que não veio

Os pingos de chuva deslizavam lentamente pelo couro do seu casaco, como se o céu também chorasse. A casa o recebeu em silêncio, um silêncio espesso, pesado, as luzes apagadas, o ar imóvel. Ele seguiu direto para o quarto, acreditando encontrar sua amada entregue ao sono, vencida pelo cansaço que a gravidez vinha lhe impondo. O corpo ainda carregava o luto recente: meses atrás, um bebê que...

Carta para um filho

Nenhum anjo jamais me visitou, embora saiba que há quem acredite em sua existência. Mas não quero falar de anjos. Poderia começar esta carta de outra forma. Narrar vinte e dois anos, o tempo que nos conhecemos. Tenho a incerta certeza de que nos conhecemos muito pouco. Poderia aproveitar para destrinchar o amor que sinto – é óbvio que isso é esperado. Mas talvez eu...
Do signo de Sagitário e suas buscas incessantes: Conceição Evaristo

Do signo de Sagitário e suas buscas incessantes: Conceição Evaristo

Professora, pesquisadora, poeta, contista, romancista, ensaísta, com graduação, mestrado e doutorado na área de Letras, Conceição Evaristo tem construído uma carreira das mais sólidas de nossa Literatura Brasileira Contemporânea. Sob o Signo de Sagitário, este signo que reivindica liberdades e aprofundamentos existenciais, Conceição Evaristo nasceu em 29 de novembro de 1946, em Belo Horizonte–MG. Oriunda de família que enfrentou dificuldades socioeconômicas diversas, teve que trabalhar...

Brincando de reisado em tempos de guerra

Clarinha e Miguel brincam de reisado. Entre espadas, coroas, espelhos e as cores vibrantes do cetim, a alegria pula sobre as pedras toscas das ruas floridas de gente. É o primeiro dia do ano. Dia Mundial da Paz. A espada de São Jorge sobre a mesa não protege ninguém. A paz, por aqui, não fez morada. Clarinha e Miguel me trazem estrelas nos olhos. Ainda...

O ano de 2025 da Literatura Brasileira

A Literatura Brasileira  está caminhando de vento em polpa, embora a última pesquisa Retratos do Brasil (2025) tenha  revelado que, pela primeira vez em nossa história, a maioria dos brasileiros (53%) não lê livros. O brasileiro pode até lê pouco, mas os eventos literários pipocam por todo o país e, claro, ele não deixa de participar e até mesmo de comprar ao menos um livro. Em abril deste...

Cabeça possível

— Você acha que sou artista? — pergunta o estudante, mostrando seus desenhos cheios de vontade de acertar. — Continue desenhando. Foi a única resposta possível para aquele momento. Poderiam ser outras, inúmeras possibilidades para animar ou frustrar aquele estudante. Continue desenhando parecia a mais cabível. Incentivar que ele continuasse desenhando talvez fosse o caminho que o pudesse tornar artista, mas fazê-lo acreditar em si...

As árvores da minha infância

Eu morava num sítio, a vida passava devagar. Devagar eu me punha a olhar as árvores, as flores, a estrada, as formigas, a terra. O curral, as vacas que viravam mães, os carros de boi carregados de cana, os trabalhadores com suas enxadas nos ombros, as mulheres com os potes de água na cabeça, os ninhos de pássaro nos pés de café, os casulos pendurados...

Colhendo sementes

Logo cedo encontro tuas palavras, marcadas por brincadeiras e pulos de afeto. Guardadas no caderno de anotações entre rabiscos, ensaios de poemas, propostas, encaminhamentos, pautas vencidas e desenhos de rostos. Li lentamente tuas palavras, como quem quer sentir o gosto do fruto molhado em tempos de escassez. Pensei em escrever um livro sobre agricultura para adubar as páginas com tuas palavras e construir casulos para...

Não se fazem mais dezembros como antigamente

Em minha memória, dezembro sempre foi um mês marcado por festividades e simbologias. Este dezembro de 2025 nunca esteve tão insuportavelmente quente e violento. Sinto saudades daquele tempo em que nossas maiores preocupações dezembristas  giravam em torno do presente do amigo secreto, da roupa que seria usada na noite de Natal, da comilança e do ganho de peso, da constatação das metas não cumpridas e...
A(s) metamorfose(s) do sujeito contemporâneo

A(s) metamorfose(s) do sujeito contemporâneo

Dia 29, último sábado do mês de novembro. Participei na condição de ouvinte do grupo de Direito e Arte, projeto de Extensão da Universidade Regional do Cariri (URCA), coordenado pela professora Ana Elisa Linhares e conduzido por Juliana Souza. Livro escolhido pelo grupo? A Metamorfose do escritor alemão Franz Kafka. Sou dessas pessoas que fica impressionada com o poder dos livros através dos tempos. Uma narrativa...

O que é o amor?

O amor é um sentimento; Um gesto vivido com respeito. Tem gente que diz que ama; Mas nem sabe falar direito. O que adianta prometer o mundão; Passar a vida pedindo perdão. O amor é um sentimento que se cultiva; Anos e anos mantendo viva; A profunda admiração. O amor é para quem sabe amar. O que adianta falar e falar; Se nos momentos mais...

Grávido aos 47

Acordei grávido aos 47 anos. A lua estava cheia e os lençóis, suados. Tomei duas garrafas de água e meus olhos pareciam sambar. Engravidar aos 47 é como chegar aos 18 — não sei bem a relação desta analogia, mas acredito que faça algum sentido. Aos 18, a responsabilidade aumenta e o mundo parece ser outro. Aos 47 anos, ainda se tem muita coisa para...

Quebra-queixo, caldo de cana e ipê

Atreparam-se para colher sementes de ipê-rosa. Suas vagens caíram, as sementes se espalharam, cataram uma por uma. Os ipês são árvores de encanto: os rosas guardam uma beleza calma, já os amarelos parecem que estão com os dentes para fora sem parar de rir. Sementes de ipê guardadas em sacos de papel, prontas para o plantio. Plantar e colher exige delicadeza e dedicação. Teve naquele...
Do signo de escorpião e suas intensidades não resguardadas: Cecília Meireles

Do signo de escorpião e suas intensidades não resguardadas: Cecília Meireles

Poeta, professora, pedagoga e jornalista, Cecília Meireles construiu um legado dos mais expressivos de nossa Literatura Brasileira. Criadora de imagens poéticas ricas em simbologias, a profundidade de sua obra lhe possibilitou entrar no cânone literário que, no contexto de sua atuação, era um espaço que excluía, invariavelmente, a produção literária de mulheres. Sob o Signo de Escorpião, este signo de intensidades não resguardadas, Cecília Meireles...

Quando a Literatura causa medo

Conceituar ou definir um vocábulo não é uma tarefa fácil, sobretudo se o vocábulo é Literatura, palavra de caráter polissêmico e polifônico. A escritora Marisa Lajolo declara  que as perguntas sobre Literatura ultrapassam os séculos, porém as respostas são sempre provisórias porque a cada época surgem novos conceitos. E acrescenta: “as definições propostas para a Literatura importam menos que caminho percorrido para chegar até ela”....

Carlos Drummond de Andrade: um escritor leitor

A leitura é uma ferramenta de aprendizado, transformação e subversão. Não se sai incólume, quando se ler. Para além do conhecimento do (s) outro (s), a leitura gera um conhecimento de si. Sua natureza é ampla, diversa e significativa. A leitura pode ser entendida tanto como um momento de meditação, como de apropriação do mundo interior/exterior. Ler é uma prática pessoal e intransferível. O leitor,...

Agricultores de estrelas

Vontade de pichar os céus só para dizer o quanto sinto. Nossos manifestos de amor são escritos sobre os olhos, arados na terra, debaixo dos lençóis, pelas manhãs com café e cafuné, na simplicidade de lavar a louça, na rega das plantas, na oferta da batata doce, na pimenta e no chocolate. Falta respiração; a velocidade dos acontecimentos nos faz dançar. São versos costurados no...

A saudade é uma porta aberta

Dezoito chaves. Manhã, segunda-feira. O ipê do jardim acena com suas flores amarelas para um dia nublado. Faz calor. Garoa. As dezoito chaves abrem cadeados e portas, nenhuma abre caminhos. O sol começa a dar as caras, mas logo as esconde. Tomo suco de caju enquanto brinco com as dezoito chaves. Conto até dez para tentar escutar a respiração: ela está fazendo caminhada e ouvindo...

Toca fogo

Depositava seus segredos em guardanapos. Escondia-os dentro da primeira gaveta do guarda-roupa. Escrevia em suas saídas solitárias, no final da tarde, entre um café e um suco. Confidenciava para os guardanapos o que se escondia em seus silêncios. Sua gaveta enchia-se de histórias de desejos e pedaços de vida. Ninguém sabia de seus guardanapos eram mais guardados do que os próprios segredos. Chegava a reler...
Do signo de leão e suas imprevisibilidades: Cora Coralina

Do signo de leão e suas imprevisibilidades: Cora Coralina

O Signo de Leão é generoso, forte e imprevisível. Para nosso debate, apresentamos uma escritora que produziu seus textos desde cedo (e até publicava alguns deles de forma esparsa), mas sua primeira obra foi publicada apenas quando ela contava com 76 anos de idade. Esse livro lhe proporcionou imprevisível sucesso e, de repente, ela se tornou conhecida no Brasil inteiro, de modo que estamos diante...

A Casa do Sentido Vermelho

Algumas leituras são desafiadoras. É o caso da A Casa do Sentido Vermelho (2013), da escritora Jorgeana Braga, prêmio Aluísio de Azevedo no 34º Concurso Literário e Artístico da cidade natal da autora, São Luís do Maranhão. A obra começa com uma apresentação-pergunta do poeta Dyl Pires: “Qual o sentido do sensível em nós?”. Antes mesmo de continuar a leitura, silenciosamente busquei a resposta dentro...

Sequestra-me

Ainda resta a noite para descobrirmos a dança. O café que marcava nossos encontros de manhã transformou-se no vinho da lua. Sequestra-me o tempo. Assopra as estrelas e embebe as palavras de perfume. Deixa que o blues nos vende os olhos. Dança com as luzes apagadas para sentir a delicadeza do vento e do calor. Traz a calmaria à meia-noite. Descansa teu corpo sobre as...

Mundinho da segunda-feira

Não existe nenhuma combinação. Toda segunda-feira, no início da tarde, Seu Mundinho chega. Passos lentos, carrega uma sacola com a feira da semana. Pede uma cerveja, senta na mesa reservada. Vai ao banheiro, abre a carteira e vê quanto ainda resta. Mundinho me acena, chama-me para a mesa. Pergunta o que quero beber; tomo da mesma cerveja. Percebo que a maior sede dele é beber...

Eu era menino

Eu era menino, menino que jogava bolinha de gude. Sonhava não tão longe, imaginar a brincadeira de amanhã já era mais que suficiente. Eu era menino, com rajas de lama, pele queimada de sol e o cansaço de correr em volta do campinho de terra. Voltas e voltas em torno de mim mesmo, porque ali eu era eu, eu menino. Mas o tempo, o tempo...

Viver é político

Nos últimos anos, tenho refletido sobre a importância da consciência política, pois nossas ações ou omissões na hora de escolher nossos representantes determinam se enfrentaremos crises, como uma pandemia, com uma gestão eficiente que garanta vacinas, métodos e precauções, ou se sofreremos as consequências da má administração, resultando em milhares de mortes. Por isso, viver é, de fato, político. Nessa experiência do viver é político...
O Conto da Aia: uma distopia nem tão distópica

O Conto da Aia: uma distopia nem tão distópica

A primeira vez que fui apresentada ao Conto da Aia (1985), da escritora canadense Margaret Atwood, foi no clube de leitura – Ciranda do Livro – que acontecia mensalmente na Nobel, em Juazeiro do Norte. Em 2020, a livraria fechou suas portas. Antes disso, a unidade do Crato já havia encerrado suas atividades. Dados da Associação Nacional das Livrarias (ANL) mostram que em 2014, o...

Destino Promessa

Quebrou as garrafas de vinho para não se embriagar. Desfez o tratado da esperança e cuspiu no chão para esperar a próxima promessa. Fez buracos no chão procurando botijas, mas só encontrou o cansaço. Restavam a pizza e a despedida. A pimenta e o abraço tinham o gosto insosso da desilusão. O tarot faltava cartas, e o jogo não se completava. A cama tinha as...

Janelas, flores, pregos e marretas

Pelas manhãs mais fubacentas, pendurava os olhos sob a janela para pescar flores e ler poemas escritos com pregos e marretas. Ancorado na janela, voava até as estrelas e se estacava no mar. Levantava o tapete do chão e via o mundo se mexendo; nada estava morto. Levava a janela para cada viagem. Colocava-a na parte mais íntima dos seus lugares: no quarto, no banheiro...

Manhã, pão de coco, beijo doce

O rio passava no meio do asfalto, e as flores ousavam nascer. O tempo era quente; setembro de muriçocas e de calor. As estrelas brotavam dos olhos, enquanto a lua acendia a cachoeira dos poetas. A dança da noite costurava os retalhos de brilho e esperança. Pétalas brancas amaciavam a rigidez do asfalto. Do megafone, anunciava-se, no pé do ouvido da noite, os versos traquinos...

Estrela-Fatal: Francisca Clotilde

Conheci Francisca Clotilde Castelo Branco tardiamente. É eu o que o patriarcado tem essa prerrogativa de silenciar e de excluir as mulheres do cânone literário, Não só. Quem me apresentou Francisca Clotilde foi o Grupo de Estudos Filhas de Avalon através da professora Gildênia Moura, cuja tese de doutorado se chama “Mulheres beletristas e educadoras: Francisca Clotilde na sociedade cearense (da segunda metade do século...

Textura de teia de aranha

Chá de canela, alecrim do campo, adoçado com mel. — Será que tenho roupa para tomar deste chá? — disse a contadora de histórias, bolando de rir. Enquanto isso, o menino descalço, suado de jogar bola e com a camisa no ombro, encheu o copo de chá, bebeu e quis mais. O chá era a única bebida da noite. Conversas trocadas aqui e acolá, uma...
Do signo de câncer e suas memórias afetivas: Zélia Gattai

Do signo de câncer e suas memórias afetivas: Zélia Gattai

Em Anarquistas, graças a Deus, Zélia Gattai (1996, p. 13)[1] comenta: “Pela minha certidão de nascimento, sou nascida a 4 de agosto. Além do mês e dois dias de lambujem ganhos, passei também a ser dona de dois signos do zodíaco: oficialmente, sou de Leão; na realidade, de Câncer. Adotei os dois”. Filha de imigrantes italianos, Zélia Gattai nasceu em São Paulo, em 07 de...

Não está sendo fácil

A existência é assombrosa, ao menos para mim, que sinto uma imensa dificuldade em viver em uma época assolada pelo declínio ético e espiritual da humanidade. Encontro-me em completa contradição com o espírito do meu tempo em que a “a solidão é a maior ameaça da América no momento”; as relações são líquidas; a positividade é tóxica, o individualismo atingiu um alto nível, a leitura...

O silêncio que escreve

Pessoas desabafam com quem não devia, Eu, aqui, escrevendo, meu refúgio fiel. O silêncio e o papel trazem a calmaria, Longe das mentiras, do amargo. A opinião alheia, um véu a cobrir, Melhor guardar a alma em tinta e papel. Sentimentos sinceros, sem ninguém ouvir, Na escrita, a verdade, meu doce mel. Sobre a autora: Geysi dos Santos Estudante e integrante do Clube da Palavra...

Carta para a presença

Poderia ter perdido a chave de casa dez vezes no mesmo dia e tê-la encontrado outras dez no bolso da calça. Talvez fosse possível se perder no caminho para o trabalho, esquecer de tomar café logo cedo e de vestir a roupa ao sair à rua. Mas, naquele dia, o esquecimento estava morto. A cada pisada, uma martelada era o lembrete. Decidiu guardar cada um...

Voz: um corpo que fala

Não sei vocês, mas durante anos eu julguei a minha voz feia. Já fui uma dessas pessoas que entrava e saia de um espaço calada. Justificava para mim mesma que estava aprendendo mais ouvindo do que falando. O que não é de todo mentira. Em uma sociedade em que todos têm algo importante a falar, mas poucos disponíveis para ouvir, apurar os ouvidos foi uma...

O bêbado quer falar

“Tempo para sonhar” anunciava a placa na parede do cemitério. Sorrisos fabricados para vender esboçavam-se nos anúncios comerciais. Nas calçadas, as mãos estendidas assaltavam as mentiras vestidas de felicidade. O bêbado, descalço, de camisa encardida e calça camuflada de rigidez e terra, dançava, sorria e fazia caretas. Caía, levantava, seguia. Enquanto os outros compravam a embriaguez, o bêbado mendigava para beber. As ruas, emplacadas de...

O pombo

Parado diante do vai e vem dos carros, mais de vinte e nove minutos de espera. A impaciência quase transbordando pela cara. O trânsito das cinco da tarde é uma fila de desistência. Precisava apenas comprar o pão. Impossível de passar. Os carros transitavam num fluxo interminável. Era capaz do pão ficar duro. Precisava andar para diluir os problemas, mas os carros estavam sendo as...
O Interesse Humano: um convite ao diálogo

O Interesse Humano: um convite ao diálogo

Há alguns meses, todas às quartas-feiras, às 19:30h, no Clube do Livro da Nova Acrópole -JN, eu e um grupo de pessoas que acreditam na Filosofia como uma ferramenta de educação que alia teoria e prática aplicada à vida, temos nos dedicado à leitura e ao diálogo do livro O Interesse Humano, do pensador e escritor indiano Nilakanta Sri Ram, que concebia a Natureza da...

Ando nu pelas manhãs

Passou a noite remoendo as páginas de um livro velho, roídas e amareladas, temperadas por traças e fungos. O livro trazia receitas, mas pouco importava o que ele continha; entrar na contramão dos pensamentos era mais urgente. Escreveu durante a madrugada, umedecendo e atravessando os papéis. O livro velho servia de encosto. Espremia a velocidade da dor nas folhas. Amanheceu frio e ventoso. Onze páginas...

Celeste do Gesso

Na beira da calçada estava Celeste. Manhã, carros e pessoas passando. Saia rodada da cor de poeira, blusa azul de alça. Sobe a saia, acocora e mija. Levanta, acende o seu cigarro brabo e coloca uma sacola com mantimentos na cabeça e segue. A mão estendida de Celeste vai abordando quem cruza o seu caminho. Boca sem dentes, mastigando fumaça, dispara:— Me dê dois real. Celeste...

Como escolher pequi e desatar nós

Encontrei vó deitada com a sua face de versos de paciência. Cresci querendo aprender com ela a desatar nós, um trabalho difícil, que exige destruir a velocidade e a agitação, cantarolar nos pensamentos e acompanhar a dança das folhas no sopro do vento.   Vó seguia, atravessando as portas, as salas, os quartos. No final da tarde, sempre dizia que estava quente e fazia café. Enrolava...

Logo esse bolo?

Era o aniversário da minha irmã. Eu estava naquele dia de barriga ruim. Lá tinha reza e comida. Fui só para dar os parabéns—nada de comer nem de rezar. Até precisava de umas rezas e de comer também, mas a barriga estava uma bagunça.   Taquei-me na rede, tentando dormir cedo. Lembro que tinha avisado minha tia sobre a minha situação. Ela foi rezar.   No dia...

O alívio da música

Ouvir música é um alívio profundo, Quando os problemas parecem nos cercar. A melodia surge, transforma o mundo, E traz à alma um doce acalmar. Nos momentos difíceis, ela nos "salva", Notas dançam no ar, como um abraço. Em cada acorde, a tristeza se dissolve, E encontramos força para seguir o passo. Sobre a autora: Geysi dos Santos Estudante e integrante do Clube da Palavra...
A HORA DA ESTRELA, ROMANCE DE CLARICE LISPECTOR

A HORA DA ESTRELA, ROMANCE DE CLARICE LISPECTOR

Clarice Lispector encerrou sua carreira literária com a obra A Hora da Estrela, publicada em 1977, pouco antes de sua morte. Este romance singular não é apenas o testamento literário de uma das mais complexas autoras do século XX no Brasil, mas também uma inflexão significativa em sua produção: nele, Clarice abandona os ambientes de mulheres instruídas e melancólicas da classe média para lançar um...

Coração na aldeia, pés no mundo

Lançado em 2018 pela editora UK’A, Coração na aldeia, pés no mundo, da escritora cearense indígena Auritha Tabajara, é uma obra autobiográfica cantada em versos. Contudo, quando a autora traz à tona memórias, percepções e experiências de sua própria vida, ela possibilita que outras mulheres indígenas possam (re)pensar sua própria trajetória.  Sua primeira obra data de 2004, Magistério indígena em versos e poesia, adotada pela...

Mastigando Rapadura

Vazio preenchido de ecos do passado. A tarde transbordava ausências, grilos cantavam nos pensamentos. Seu corpo estendido no chão frio da sala dos livros, enquanto o reggae batia a dança das cobras. Lia sobre os tempos de chumbo e a rebeldia das palavras; foices contra balas, poemas fabricados como coquetéis molotovs nos aparelhos da clandestinidade. Sonhos montados sobre esperança, erguidos de braços e assobios. A...
Poemas do grito de liberdade:72, de Cláudia Rejanne Pinheiro Grangeiro

Poemas do grito de liberdade:72, de Cláudia Rejanne Pinheiro Grangeiro

Cláudia Rejanne Pinheiro Grangeiro é uma intelectual do Cariri cearense que atua em frentes diversas. No âmbito literário, além de ter participado de performances poéticas, movimentos literários e antologias, a autora publicou, em 2022, o livro de poemas intitulado 72.  Com temáticas variadas, o livro dispõe de ousadas incursões no que diz respeito ao conteúdo e à forma. Composto por mais de 72 poemas, ele...

Escola Pública como farol para políticas de editais culturais

A política de editais no campo da cultura tem sido uma das principais formas de viabilizar o acesso a recursos públicos para o fomento cultural no país. Entretanto, tais recursos ainda estão distantes de atender às demandas sociais. A relação entre o que é ofertado pelo Estado e o que é demandado pela sociedade apresenta um contraste que evidencia nossa distância de um "SUS da...

            Mundo

Às vezes o mundo nos bate Se aproxima de cada um de nós E chuta Sem medo de abater. Às vezes cospe no chão Nós temos que secar A vida é apenas um passatempo E o mundo venha nos maltratar. Muitas vezes a solidão Nos pega de repente E o único aconchego que recebemos É mais um date com esse mundo Divergente. O tapa na...
Resenha crítica de O Quinze, romance de Rachel de Queiroz

Resenha crítica de O Quinze, romance de Rachel de Queiroz

Publicada em 1930, O Quinze representa não apenas a estreia literária de Rachel de Queiroz, mas também um marco fundamental na literatura brasileira por inaugurar uma escrita feminina com caráter crítico, social e político em plena efervescência do Modernismo de 1930. Com apenas dezenove anos, a autora cearense rompeu as barreiras impostas a mulheres escritoras e lançou um romance que aborda, com crueza e lirismo,...

Limitada musicalmente

Sou limitada musicalmente. Sou daquelas que gosto de um estilo, de uma intérprete e fico presa por vontade naquela galáxia musical. Tem coisa melhor do que consumir tudo (ou quase tudo) do que as cantoras que ficam ao lado esquerdo do peito produzem? Quando sou perguntada sobre as vozes que me transpassam, já tenho uma pequena lista na ponta da língua: Maria Bethânia Marisa Monte,...

Casas de sopros

Mergulhar no sol seria mais fácil quer mentir. Trair-se é um ato doloroso. Antes de iniciar a batalha, Pablo Neruda é lido – Para Nascer nasci. Intenso e cheios de códigos, desbravava o desejo de viver. Mainha está distante, Neruda nas mãos. Não saberia dizer o quanto a ama, mas queria a intensidade das palavras do poeta para embalar o seu amor, ou simplesmente, um abraço...

Camisa engelhada

Acordou às duas horas, achando que já eram quatro. Tentou em vão dormir novamente, reboleou na rede, mas nada de pregar os olhos. Seguiu a rotina: tomou banho, colocou água para ferver com depois ovos, aproveitou a mesma água para fazer o café. Tomou dois goles de café e seguiu para a academia: vinte minutos de esteira, depois as outras máquinas—dia de perna. Voltou escutando...

A modernidade

A sociedade pede humores, e não rumores. Chega de querer essa tal fama fácil, esse status aparentemente alcançável, a busca incessante, e por vezes, alienante levará ao fim a espécie humana? O status quo desafia o próprio indivíduo a passos lentos e temerosos, o existir, a acessibilidade aos poucos usurpa o tempo este companheiro diário, e quando se vê já foram 12h do seu precioso...

No Escuro, SOU TÃO INSEGURA

Eu amo quando me encontro nos versos de uma música. É quinta-feira de novo, parece até que as minhas palavras só encontram seus caminhos depois desse pôr-do-sol. Mas, com a devida apropriação da liberdade poética, consideremos que o universo conspira a favor do meu encontro com a poesia, no dia mais cansativo da minha rotina, pra me lembrar que algo ainda vale a pena. Nesta...

As mulheres de O Quinze, de Rachel de Queiroz

A escritora francesa Simone Beauvoir (1908-1986) em sua obra O Segundo Sexo (1949) propunha que a mulher construísse o seu próprio destino. Para isso, seria necessário romper com os padrões criados pela sociedade patriarcal de que o gênero feminino deveria ser alicerçado na anatomia da “boa esposa”, “boa mãe”, responsável pelo sucesso do “núcleo familiar”. Simone de Beauvoir, que visitou o Brasil na década de...

Entrelinhas

Guardei meu silêncio como quem guarda um segredo, um desejo trancado atrás de um talvez. Mas bastou um sussurro no vento alheio pra que a verdade voasse de vez. E então veio você, palavras soltas, "Já faz um tempo...", sem nem hesitar. Mas no reflexo das suas entrelinhas, vi o que eu não queria enxergar. Duas. Não uma. Dois corações na sua indecisão. Eu, que guardei tanto tempo esse nome, agora sou parte de uma confusão. Se...

A solidão

Para começar primeiro Preciso me apresentar Sou Bianca Uma garota que ama brincar Mas algumas coisas me fizeram mudar Sou muito chata isso não posso negar Fiz uma brincadeira que todos estão a falar A pessoa que amo comigo não fala E nem meus amigos olhando na minha cara Meu nome e Bianca E alguém pode me ajudar? Até que enfim não sofro mais. Sobre...
 Poemas do lírico em aflição: espantos, de Ferreira Lima

 Poemas do lírico em aflição: espantos, de Ferreira Lima

Depois da publicação da Trilogia do anonimato (composta pelos livros: Poemas para se assobiar de longe, Apontamentos sobre o cultivo da poesia e O terceiro anonimato), e do notável Outono do (quase) novo, o poeta Ferreira Lima apresenta ao público o livro Espantos. Publicado em 2024, Espantos insere-se na literatura brasileira contemporânea, sobretudo a produzida no Ceará, e merece atenção, porque estamos diante de um...

A mentira mata

Recorrentemente, sonhava que tinha assassinado um homem e o enterrado. O sonho era tão frequente que chegou a pensar em ser um assassino. Ficava remoendo o passado, tentando localizar a veracidade, mas nunca encontrava. Isso era perturbador, rendia alguns dias no banheiro. Logo, vieram duas inquietações tão presentes na vida contemporânea que têm matado e enlouquecido muita gente. Uma é a frase atribuída ao estrategista...

Existe uma democracia das lagartixas?

As lagartixas não fazem democracia, mas há quem pense que a democracia seja um conjunto de lagartixas. É possível obter as mesmas respostas para perguntas diversas quando se conversa com lagartixas em cima do muro. A democracia não é um jogo de cartas previsíveis, e engana-se quem crê que ela se resume a diálogo e consenso. Na democracia, não é possível combinar tudo, porque os...

Capitalismo

No começo tudo é festaDinheiro, vendas e famaPor trás dissoO Brasil só ocupa lembrançaPois os ricos se aproveitam.Aqueles que são pobres, morrem nesse estadoO Brasil não foi descobertoFoi invadido e exploradoPindorama é o nome dessa terra!Dado pelo os índios escravizados.No Brasil não se vive felizSe vive numa fome infelizMeu povo sofre com a fomeE o Brasil pega fogoMas quem deveria pegar fogoEstá de terno e...

A faceta do capitalismo

Na margem do erro O capitalismo nos sufoca Escondendo a face Do mundo poliglota. As pessoas trabalhadoras Eles tratam como engrenagem Escondendo A voz da verdade. Sufocando, matando Explorando e iludindo Essa é a face do capitalismo Que vem rugindo. A busca desenfreada Pelo dinheiro eles querem Passando a mão No que preferem. Explorando as pessoas Humilhando os fracos. Exploram com trabalho Dão isso sem...

Internet

A internet nos domina Onde quer que seja Olho para o céu e me pergunto o que fiz da minha vida Pois nesse mundo acabei com minha disciplina Nunca mais brinquei na rua Nunca mais brinquei de esconde-esconde Nunca mais falei com meus amigos E nem foquei mais nos meus estudos Pois a internet me domina Quero voltar a ser eu mesmo Quero brincar na...

O fantástico Murilo Rubião

O gosto pelas narrativas insólitas é tão antigo quanto a própria humanidade. Mesmo quando o homem não dominava essa técnica, tampouco a escrita, ele possuía a arte de contar histórias e, assim, muitas foram criadas e imaginadas e passadas de geração em geração. Há uma névoa que envolve o surgimento do fantástico, que ao longo dos séculos tem sido enriquecido pelo clima de mistério, de...
Gênero e raça na construção da história de liberdade no Ceará

Gênero e raça na construção da história de liberdade no Ceará

Simoa Maria da Conceição, mais conhecida como Preta Tia Simoa, foi a mulher negra que mudou o curso da história no Ceará enquanto protagonista do episódio radicalmente definidor da abolição da escravidão neste estado, a primeira greve de trabalhadores negros, registrado na historiografia como a primeira greve dos jangadeiros. É importante frisar qeu a campanha abolicionista no Ceará contou com a participação feminina através da...

Sítio Urbano do Gesso é mais do que se pensa

Num mundo onde as cidades se expandem de forma caótica, sufocadas pelo concreto e pela desigualdade, o Sítio Urbano do Gesso emerge como um farol de esperança. Localizado em Crato, no Ceará, essa experiência comunitária transformou uma área antes abandonada às margens da linha férrea - entre a Estação Crato do Metrô e a Escola Maria Violeta Arraes - em um vibrante espaço de cultivo,...
Contos do lírico que fere: O desespero do sangue, de Zélia Sales

Contos do lírico que fere: O desespero do sangue, de Zélia Sales

O Ceará tem revelado nomes significativos em sua produção literária contemporânea. Nesse sentido, um nome que merece toda atenção é o de Zélia Sales. A autora, que tem participação em coletâneas diversas, aponta n’A cadeira de barbeiro (2015), seu livro de estreia, linguagem concisa, representações da infância e lirismo pungente. O percurso estético percebido em seu primeiro livro de contos pode ser encontrado, também, em...

O espaço muda tudo

O espaço é um dos elementos essenciais na constituição da narrativa. O escritor se vale de algumas espacializações - espaço físico, espaço social, espaço psicológico – para contar a vida de determinados personagens em um dado período histórico. Quem não tem seu espaço preferido?  Aquele lugar que você se sente segura e confortável para ser exatamente quem você é: longe do barulho e da pressão...

Decepcionista

Para a padeira de palavras gentis 🙂 Infelizmente, fui criada para agradar. Talvez por isso, explicar certas partidas sob uma ótica diferente da decepção, ainda soe impossível para os meus ombros curvados pelo peso de ser útil. O que falar então da culpa por estar feliz, fazendo exatamente o contrário do que se espera de mim? Lembro do dia em que decidi fazer História. Era...

Escola cívico-militar: uma ameaça à democracia do conhecimento e da criticidade

A escola militar, concebida ainda no período colonial brasileiro, consolidou-se em 1889 com a criação do Imperial Colégio Militar (atual Colégio Militar do Rio de Janeiro), no contexto da Proclamação da República. Questiona-se: em que contexto histórico e com quais objetivos essas escolas foram criadas? Esses questionamentos são fundamentais para compreender sua inadequação no cenário educacional contemporâneo. Durante o regime militar (1964-1985), instaurado por um...

Eu não odeio as mulheres

Experimentava mais um café superfaturado e me deliciava com uma enorme fatia de bolo, enquanto esticava os ouvidos procurando entretenimento nas mesas ao lado, e achei. Me divertia pensando que todo observador, na verdade, é um grande curioso, para não dizer intrometido. A humanidade não nos surpreende, ela é mais previsível que as mudanças meteorológicas. Como o som de um bumbo, ainda ressoa em minha...

Planos de Cultura para outra cultura política

O planejamento da política pública para a cultura, resultante dos fóruns, conferências e outros mecanismos de consulta que culminam nos Planos de Cultura previstos nos sistemas de cultura (municipal, estadual e federal), são prerrogativas políticas com dimensão jurídica. Esses planos podem servir como estratégia para redimensionar e colocar no campo da macropolítica a escala da acessibilidade da diversidade e pluralidade cultural para a classe trabalhadora....

Tarde cinematográfica

Não assisti ao filme A Substância (2024) no cinema, pois até agora não chegou ao Cariri. A princípio, fiquei bastante chateada já que a película concorreu ao Oscar junto com Ainda Estou Aqui (2024), do diretor Walter Salles baseado no livro homônimo do escritor Marcelo Rubens Paiva. Além disso, escutava amigos (as) tecendo comentários elogiosos sobre a narrativa fílmica da diretora francesa Coralie Fargeat: “diferente”,...

Escola: espaço para além da produção de conhecimento

Sou de uma geração que acreditava no poder de transformação por meio da Educação. Frequentar a escola significava prosperar pessoal, profissional, social e emocionalmente. Escola Municipal Luís Costa, Fortaleza - Ce. Lá fiz meu Ensino Fundamental. Neste espaço, construí relações que permanecem do lado esquerdo do peito. Descobri o quão difícil e fascinante é a Língua Portuguesa. Desenvolvi uma aversão pela Matemática. Sempre era a...

Nordestinados a Ler: Literatura Brasileira em pauta

Um relevante veículo de difusão da literatura brasileira contemporânea, o blog Nordestinados a ler se propõe à realização de leituras de obras literárias de autoria feminina, sobretudo a produzida no Nordeste. Apesar dessa proposta inicial, o Nordestinados a ler não se restringe apenas à divulgação de obras de autoria feminina, e de livros produzidos no Nordeste, pois apresenta obras literárias de outras regiões do Brasil...

No escuro do meu mundo sinto medo

Dina Melo FujoTateio no escuro as armas depostasTento não desvanecer ante teu grito ameaçadorÀs vezes cantas baixinho para iludir-me de que és o melhorO que deitará aos meus pés heras prateadasMas eu já sei que tuas garras estão à espreitaE prontas as cordas com que enlaçarás meu corpo à rocha duraSei que a fuga não será definitivaMe apanharás nas madrugadas friasEm que meu espírito cansado...
Uma louca chamada imaginação

Uma louca chamada imaginação

Conheci Rosa Montero através do amigo Jorge Nogueira, autor da obra Inventário dos seus abraços (2023). Numa manhã de 2024, ele chegou em minha sala, trabalhamos na mesma instituição, e me presentou com a obra A ridícula ideia de nunca mais te ver (2013), da madrilena Rosa Montero. Foi então que me lembrei que Jorge havia me perguntado algumas vezes: “Amiga, você tem A louca da...
Entre o “Brasil oficial” e o “Brasil real”: Ariano Suassuna

Entre o “Brasil oficial” e o “Brasil real”: Ariano Suassuna

                                                                                                                      Luciana Bessa  Dramaturgo, romancista, ensaísta, poeta, professor, Ariano Suassuna (nome dado pelos pais em homenagem a São Ariano do Egito) nasceu em 16

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