INFLAMA

Luciana Bessa

Cada obra literária, ao ser publicada, é um convite para ser conhecida e desvendada. Isso só é possível, quando ela for aberta e lida. O escritor escreve para ser lido, analisado, debatido e questionado. Ele/Ela quer se fazer ouvir, levantar questões, construir conexões. 

Ao abrir a obra “Inflama” (2019), de Maria Kilô Ferrera, mulher negra, jovem, poeta, slammer, nascida em Caruaru-Pe, deparei-me com poemas fortes, sensíveis, críticos e reveladores.

Segundo a própria escritora, “Inflama”  traz um pouco de suas influências eróticas:  “gosto de como você me invade, / lento, / e tua carne envolve a minha”… (“Amarga”); existenciais: “Meus olhos pesam como se todo o choro da vida tivesse / acumulado aqui…” (“Inércia”) e crítica: “Sou Marielle Franco, e logo depois de morrer / percebi / que muita coisa mudou, quase tudo piorou…” (Franco).

Os poemas dessa obra permitem-nos conhecer mais sobre Kilô, que tem como uma de suas referências Mayara Isis, organizadora do Sarau das Pretas no Rio de Janeiro, além da escritora Clarice Lispector (1920-1977), do filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900) e, claro, slammers.

Por meio do Slam, batalha de poesias autorais faladas surgida nos Estados Unidos na década de 1980, Kilô tem escapado de uma vida fútil, bruta e áspera, porque em contato com essa poesia, que se espalhou pelas periferias das cidades brasileiras dede 2008, e fala de dor, de vida, de medo, valoriza a palavra oral; ela se coletiviza e se humaniza. Além disso, o movimento é uma importante ferramenta das pautas negras, feministas, indígenas, LGBTQI+, anticapitalista etc. 

Por que ler “Inflama” (2019)? Além de uma linguagem fluída e acessível, a obra possibilita-nos compreender quem é o outro, quais seus medos e seus desejos,  coloca-nos em contato com temas atuais, como a identidade e a força femininas,  permite-nos refletir sobre a sociedade que temos e a sociedade que queremos, ou simplesmente, porque a poesia é resistência.

Sobre a Autora:

Luciana Bessa Silva

Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler

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