OS VENENOS DE LUCRÉCIA

Conhecer a contística da escritora baiana Sônia Coutinho (1938-2013) possibilita ao leitor entrar em contato com textos intensos e fortes, que nos faz repensar questões relacionadas ao universo feminino e diferentes situações que perpassam o “ser mulher”.

Em Os Venenos de Lucrécia, prêmio Jabuti no ano de 1979, somos apresentados a dez contos em que os personagens centrais são mulheres (algumas com nomes Cordélia, Lucrécia, Clorinha, Sibila; outras sem), casadas ou solteiras, que ponderam sobre o ato de existir e a necessidade de resistir em uma sociedade marcada por preconceitos e tabus. Todas sabem exatamente o que desejam para si, constroem caminhos para alcançar o objeto desejado e amargam as consequências por suas decisões. Contudo, são sabedoras de que o “grande tempero da vida” é “continuar tentando”.

Destaco três pontos nesta obra: 1) a carga de simbolismo dos nomes das personagens, (Sibila e Lucrécia); 2) o espaço geográfico; 3) tensão entre pais e filhos.  O primeiro conto – O Leque do Afeganistão – é protagonizado por Sibila, uma mulher de trinta e cinco anos, talvez bonita e jovem casada com um professor universitário de sessenta anos. Seus mistérios e sua liberdade nos faz duvidar de suas ações. Talvez, esteja relacionado ao seu nome, substantivo feminino que significa profetisa, bruxa, feiticeira. No conto que dá título ao livro conhecemos Lucrécia – “Uma bela Viúva, madura e rica, versada em Ocultismo e nas Artes Divinatórias”, enterrou seis de seus maridos. Faz-nos lembrar da filha ilegítima de Rodrigo Bórgia  (Papa Alexandre VI) – Lucrécia Bórgia – casada inúmeras vezes por mera convenção social e acusada de matar seus maridos envenenados. Os nomes próprios (femininos) na obra de Sônia Coutinho são emblemáticos e nos remetem a outras mulheres que deixaram sua voz registrada na História. 

Para “ser-no-mundo” precisamos “estar-no-mundo”. Em Os Venenos de Lucrécia, as personagens saem da Cidadezinha (Salvador) – lugar apequenado pela concepção tradicional de seus moradores – e vão para o Rio de Janeiro, espaço agigantado pelo desprendimento e visão de mundo das pessoas.  Na “Cidade Grande”, por exemplo, “…uma pessoa pode andar vestida como quiser que ninguém se dá ao trabalho de olhar”. Mas não se enganem: o deslocamento geográfico não permite a tais personagens o emprego, a amizade e o amor sonhados. É possível encontrar uma “espantosa solidão de dois milhões de pessoas”. 

O terceiro ponto destacado, tensão entre pais e filhos, é visível nos contos Na Penumbra, Mortos os Pais, Pai e Filho e Orquídea. Neste texto, temos uma personagem insatisfeita com sua realidade: casamento e posição social. Orquídea nada mais é do que os anseios, aspirações e prolongamento de sua mãe. Esta traçou metas e a filha as executou. Na Penumbra traz-nos uma mulher que goza de uma situação social confortável, mas resolve abandonar o marido por um amante, sua “única esperança” de se libertar do passado e finalmente sentir-se livre. Então, o leitor toma um choque ao saber que a protagonista, ainda menina, foi abusada pelo próprio pai. E se não bastasse tamanha crueldade, essa menina, hoje mulher procura no amante a imagem do seu genitor: “- Papai, papai – ela murmura, olhando para o homem adormecido”.

Em Mortos os Pais, temos um acidente brutal que tirou a vida da Mãe e do Pai da protagonista, agora com quarenta anos, independente financeiramente e sem filhos, único conselho de sua mãe (“Case, se quiser, mas nunca tenha filhos…”), que também tem um irmão, o preferido deles. Ele bonito, sempre fácil de ser cuidado “tão diferente da irmã”. Esta, já recém-nascida, “exibiu a marca de Caim”, estranha, triste, “recusando o leite, chorando o dia e noite”…  Diante dos corpos dos pais, essa mulher sente um misto de sensações: ódio, dor, pena e, por fim, libertação, pois no fundo “eles foram muito mais infelizes do que ela”. 

No conto Pai e Filho escutamos a conversa desses dois homens cuja vida foi transformada em um “inferno”, pois a esposa-mãe tinha preferência por Arthur em detrimento ao outro rebento – Saulo ou Paulo, ela “nunca chegou a saber exatamente”. Já o marido, ao se transformar em pai, teve suas decisões desenhadas pela mulher para que se envolvesse na vida política, embora ele não gostasse. “As mulheres atrapalham tanto, sempre querendo que o marido conquiste posições, ganhe dinheiro”. O Filho, Arthur, o único que “realmente contou para ela” transformou drasticamente a vida desses dois homens: Pai e Filho (Saulo ou Paulo). 

Em Sônia Coutinho, a mulher e suas relações são postas em evidência para que o leitor possa refletir sobre os sonhos, os medos, os desejos, as lutas e as necessidades de cada uma delas dentro de uma sociedade patriarcal. Além disso, o espaço geográfico é a mola propulsora para que as protagonistas desenvolvam seus processos de cura, autoconhecimento e de transformação. Enquanto a Sociedade pune, impõe regras de conduta e de comportamento, Sônia Coutinho permite que as mulheres sejam simplesmente elas mesmas, livres. 

Fonte:

COUTINHO, Sônia. Os Venenos de Lucrécia. São Paulo: Ática, 1978.

Sobre a autora:

Luciana Bessa Silva

Idealizadora do Blog Literário Nordestinados a Ler

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